Oferta Relâmpago: VEJA por apenas 9,90

Kokuho: o indicado ao Oscar que resgata uma peculiar tradição do Japão

Filme desvela ao mundo os bastidores da peculiar arte kabuki, forma teatral que há séculos coloca homens em papéis femininos

Por Thiago Gelli Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 7 mar 2026, 08h00 •
  • “Que gueixa talentosa vocês têm em Nagasaki”, aponta um personagem que bebe ao lado do chefe da Yakuza que o hospeda. Sem pestanejar, o mafioso o corrige: “Não é uma gueixa, é meu filho Kikuo”. Ali, em cima do palco, sob trajes deslumbrantes e generosas pinceladas de maquiagem branca, está o garoto no papel do espírito vingativo de uma cerejeira. Para o olhar ocidental, a cena desperta curiosidade imediata. Os gestos femininos do rapaz, afinal, não iriam na contramão de seus familiares viris da liderança mafiosa? A arte apresentada, porém, pouco se assemelha a drag queens à la Pabllo Vittar. Faz, na verdade, parte de uma tradição rigorosa que remonta ao século XVII: o kabuki, no qual homens interpretam papéis masculinos e femininos, em algum lugar entre o balé e o teatro poético. Dali em diante, Kikuo fará o possível para se tornar o maior ator do nicho e um tesouro nacional, jornada longa que exige sacrifícios e é condensada pelo filme Kokuho: o Preço da Perfeição (Kokuho, Japão, 2025), já em cartaz nos cinemas.

    Um dos dois filmes estrangeiros a concorrer ao Oscar de melhor maquiagem — ao lado do terror norueguês A Meia-Irmã Feia —, o longa tem como base o livro homônimo de Shuichi Yoshida e é revelador para qualquer leigo. É uma surpresa descobrir que a prática é exercida desde a infância e exige treinamento excruciante. Interpretado na adolescência por Soya Kurokawa, Kikuo é submetido a exercícios dolorosos para aprender a unir suas omoplatas e curvar as costas com a delicadeza devida. “Treinei por um ano e meio e mesmo assim não me senti mais acostumado”, admitiu à imprensa Ryo Yoishizawa, que interpreta o protagonista na fase adulta. Na trama, Kikuo é alvo de estigma por não ser herdeiro de outro ator do kabuki e, logo, forasteiro. A diferença entre seus bastidores e os códigos da máfia, quem diria, não é grande.

    Tanta perseverança, contudo, recompensa os grandes atores do meio com prestígio e dinheiro. A prática é mantida desde 1629, quando autoridades do xogunato proibiram mulheres de subir ao palco em nome da decência. Ao longo de quatro séculos, o gênero teatral se aperfeiçoou e até adaptou trabalhos de Shakespeare. Em 2008, foi declarado Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade pela Unesco. Hoje, o interesse popular se mantém de tal maneira que Kokuho se tornou um dos filmes mais bem-sucedidos no Japão em 2025, com mais de 135 milhões de dólares arrecadados. Com o empurrão do Oscar, o longa vem fascinando também cada vez mais espectadores ao redor do mundo. Quando uma tradição de séculos se renova, isso só comprova sua força.

    Publicado em VEJA de 6 de março de 2026, edição nº 2985

    Publicidade

    Matéria exclusiva para assinantes. Faça seu login

    Este usuário não possui direito de acesso neste conteúdo. Para mudar de conta, faça seu login

    Domine o fato. Confie na fonte.

    15 marcas que você confia. Uma assinatura que vale por todas.

    OFERTA LIBERE O CONTEÚDO

    Digital Completo

    A notícia em tempo real na palma da sua mão!
    Chega de esperar! Informação quente, direto da fonte, onde você estiver.
    De: R$ 16,90/mês Apenas R$ 1,99/mês
    MELHOR OFERTA

    Revista em Casa + Digital Completo

    Receba 4 revistas de Veja no mês, além de todos os benefícios do plano Digital Completo (cada revista sai por menos de R$ 7,50)
    De: R$ 55,90/mês
    A partir de R$ 29,90/mês

    *Acesso ilimitado ao site e edições digitais de todos os títulos Abril, ao acervo completo de Veja e Quatro Rodas e todas as edições dos últimos 7 anos de Claudia, Superinteressante, VC S/A, Você RH e Veja Saúde, incluindo edições especiais e históricas no app.
    *Pagamento único anual de R$23,88, equivalente a R$1,99/mês. Após esse período a renovação será de 118,80/ano (proporcional a R$ 9,90/mês).