Kokuho: o indicado ao Oscar que resgata uma peculiar tradição do Japão
Filme desvela ao mundo os bastidores da peculiar arte kabuki, forma teatral que há séculos coloca homens em papéis femininos
“Que gueixa talentosa vocês têm em Nagasaki”, aponta um personagem que bebe ao lado do chefe da Yakuza que o hospeda. Sem pestanejar, o mafioso o corrige: “Não é uma gueixa, é meu filho Kikuo”. Ali, em cima do palco, sob trajes deslumbrantes e generosas pinceladas de maquiagem branca, está o garoto no papel do espírito vingativo de uma cerejeira. Para o olhar ocidental, a cena desperta curiosidade imediata. Os gestos femininos do rapaz, afinal, não iriam na contramão de seus familiares viris da liderança mafiosa? A arte apresentada, porém, pouco se assemelha a drag queens à la Pabllo Vittar. Faz, na verdade, parte de uma tradição rigorosa que remonta ao século XVII: o kabuki, no qual homens interpretam papéis masculinos e femininos, em algum lugar entre o balé e o teatro poético. Dali em diante, Kikuo fará o possível para se tornar o maior ator do nicho e um tesouro nacional, jornada longa que exige sacrifícios e é condensada pelo filme Kokuho: o Preço da Perfeição (Kokuho, Japão, 2025), já em cartaz nos cinemas.
Um dos dois filmes estrangeiros a concorrer ao Oscar de melhor maquiagem — ao lado do terror norueguês A Meia-Irmã Feia —, o longa tem como base o livro homônimo de Shuichi Yoshida e é revelador para qualquer leigo. É uma surpresa descobrir que a prática é exercida desde a infância e exige treinamento excruciante. Interpretado na adolescência por Soya Kurokawa, Kikuo é submetido a exercícios dolorosos para aprender a unir suas omoplatas e curvar as costas com a delicadeza devida. “Treinei por um ano e meio e mesmo assim não me senti mais acostumado”, admitiu à imprensa Ryo Yoishizawa, que interpreta o protagonista na fase adulta. Na trama, Kikuo é alvo de estigma por não ser herdeiro de outro ator do kabuki e, logo, forasteiro. A diferença entre seus bastidores e os códigos da máfia, quem diria, não é grande.
Tanta perseverança, contudo, recompensa os grandes atores do meio com prestígio e dinheiro. A prática é mantida desde 1629, quando autoridades do xogunato proibiram mulheres de subir ao palco em nome da decência. Ao longo de quatro séculos, o gênero teatral se aperfeiçoou e até adaptou trabalhos de Shakespeare. Em 2008, foi declarado Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade pela Unesco. Hoje, o interesse popular se mantém de tal maneira que Kokuho se tornou um dos filmes mais bem-sucedidos no Japão em 2025, com mais de 135 milhões de dólares arrecadados. Com o empurrão do Oscar, o longa vem fascinando também cada vez mais espectadores ao redor do mundo. Quando uma tradição de séculos se renova, isso só comprova sua força.
Publicado em VEJA de 6 de março de 2026, edição nº 2985





