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Jarvis Cocker, do Pulp, a VEJA: ‘Dinheiro é o que transforma o pop bom em ruim’

Expoente do Britpop acaba de encerrar turnê mundial e é foco do documentário 'Até Onde Você Vai Por um Bis?', já disponível na Mubi

Por Thiago Gelli Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 25 set 2026, 17h46 | Atualizado em 25 set 2026, 17h53
Jarvis Cocker, do Pulp, a VEJA: ‘Dinheiro é o que transforma o pop bom em ruim’ Priorize VEJA no Google

Expoente mais subestimado — e veterano — do Britpop, o grupo Pulp despontou em 1995 com o single Common People, que logo conquistou um séquito de fãs devido à narrativa concisa, a um refrão contagiante e à entrega vocal de Jarvis Cocker, então aos 32 anos, que se tornava ainda mais fascinante ao vivo, com ajuda do cabelo desgrenhado, dos ternos de alfaiataria peculiares e de seu senso de humor físico apurado. O grupo permaneceu na ativa por quase uma década e continuou a lançar bons trabalhos, até um hiato súbito em 2002, quando Cocker decidiu investir em uma carreira solo e se mudar para a França. Hoje, aos 63, o músico está de volta ao grupo que o consagrou — lançou com ele o excelente disco More em 2025 e finalizou uma turnê mundial no começo de setembro, sem passar pelo Brasil. 

Fãs insatisfeitos com a negligência, porém, podem ver o show da itinerância no filme Pulp: Até Onde Você Vai Por um Bis?, já disponível no streaming Mubi. Dirigido por Garth Jennings, o longa não só captura a presença de palco da banda, como reconta sua história desde o início, com base na autobiografia de Cocker, Good Pop, Bad Pop, publicada por aqui pela editora Terreno Estranho.

Em entrevista a Veja, Cocker comenta o processo que levou ao filme, relembra sua relação conturbada com a fama no Reino Unido e esclarece o futuro da banda:  

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A banda começou como um plano rabiscado em seu caderno na adolescência. O quão séria era a ideia nesse momento? Eu tinha 13 ou 14 anos naquela época e sonhava em entrar numa banda, mas era uma criança tímida, então era mais fácil só imaginar o que poderia ser no papel. No fim, entanto, fico contente de que aquele plano não foi seguido à risca. Assim que você passa a colaborar com outras pessoas, o controle está fora de suas mãos. O Pulp começou quando estávamos na escola, então éramos simplesmente amigos que não estavam jogando esportes e não tinham mais o que fazer. Convenci eles a virem até minha casa na sexta à noite e subornei um caixista para conseguir fornecer cerveja a eles — o que parou rapidamente, porque percebemos que beber antes de tocar não era muito produtivo. 

Quais eram suas maiores referências naquela época? Eu nasci no tempo dos Beatles, e acredito que eles tenham tido esse efeito ao redor de todo o mundo. Eles eram caras comuns e foram a primeira banda a assumir a autoria do que tocava. Aos 7 anos, porém, eles já não existiam mais, e pensei que era minha vez de assumir essa lacuna. Era, claro, uma ambição infantil nada factível. Os outros sonhavam em ser astronautas e bombeiros, e eu queria ser um popstar.

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O quão importante era para você estar sob controle da história do Pulp neste documentário? O filme, na verdade, não foi minha ideia. Achei que faríamos uma simples gravação do show, até que o diretor Garth Jennings começou a coletar material de arquivo. Acho que não reclamei porque sabia que o resultado não seria um documentário tradicional, com entrevistas em estúdio e tudo mais. Se este fosse o caso, acharia toda a ideia um pouco chata. Respirei fundo e fiz as pazes com certas partes do longa — é como ver minha vida toda passar perante meus olhos antes de morrer. Talvez seja um bom ensaio para meu dia final de fato. De qualquer forma, saímos em turnê e deixamos que Garth finalizasse o filme em paz. No fim, também fico feliz que o resultado funcione como uma introdução à banda para quem não nos conhece. Percebi nos shows que temos muitos fãs jovens, e isso me deixou cheio de alegria. Imagino que eles não estivessem vivos quando começamos, e agora eles podem botar a história toda em dia. 

O senhor já descreveu o sucesso dos anos 1990 como um trauma. Hoje, qual sua relação com a notoriedade? Estou bem feliz no momento. Nem sempre sorrio, mas superei os problemas que tive quando fiquei famoso no Reino Unido, principalmente porque esse era meu desejo desde que tinha sete anos e primeiro pensei em montar uma banda. Acontece que, quando tudo começou, eu esperava que fosse como entrar no paraíso, e que minha vida não teria mais esforço ou preocupação. Deveria ter pensado melhor, afinal já estava na casa dos 30. O efeito em mim foi obviamente negativo, e cheguei até a contemplar abandonar a música por esse motivo. Nessa época, me mudei para a França e minha guitarra caiu do teto do carro e foi esmagada, então interpretei aquilo como mais um sinal. Me ausentei por alguns meses, mas novas músicas repentinamente começaram a despontar na minha mente. Prometi a mim mesmo que, se ainda lembrasse dessas ideias — e novas surgissem — depois de 30 dias, eu voltaria a compor, e foi assim. Isso aconteceu há cerca de 23 anos. 

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Como define o sucesso? Não penso que vou viver em cima de uma nuvem e que comida vai aparecer magicamente em minhas mãos. Sucesso para mim significa tocar as músicas e ver a paixão dos ouvintes. É algo incrível de se realizar.

Em seu livro, você descreve o “pop ruim” a partir de uma bolsa da campanha de Margaret Thatcher que se apropriava do estilo do encarte do disco Sgt. Peppers Lonely Hearts Club Band, dos Beatles. Hoje, onde identifica o “pop ruim”? Sou uma pessoa que vive à moda antiga, então a única rede social que visito com frequência é o Instagram — que, obviamente, passou por muitas mudanças e hoje é uma vitrine que quer te levar ao consumismo. Gosto de sapatos, e não paro de receber anúncios para comprá-los. Antes, me parecia que as pessoas simplesmente publicavam fotos, como compartilhar cartões postais. Era um bom jeito de manter contato com ente queridos, mas distantes. Também era mais possível descobrir música e pegar outras recomendações bacanas por lá. O dinheiro transforma o pop bom em ruim. Assim que a prioridade é o lucro, tudo se estraga. Recomendo a todos que filtrem o que lhes é sugerido. Mantenham olhos e ouvidos bem abertos.

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Qual seu balanço sobre o que esperava do Reino Unido nos anos 1990 e o que vê agora? A primeira vez que pensei que o Reino Unido fosse mudar foi quando me mudei para Londres em 1988 e observei a cena do acid house. Fui à minha primeira rave no ano seguinte e tudo aquilo me parecia como um grande movimento — você tinha que ouvir a rádio pirata para saber das festas e anotar um número de telefone para pegar o endereço, e muitas vezes a polícia acabava com a farra antes que a pista esquentasse. Tudo aquilo — a desde a fumaça até as músicas que nunca tinha ouvido — era como um sonho realizado. Eu esperava que os outros percebessem que poderíamos ser amigáveis e construir uma verdadeira revolução a partir daquilo, mas depois compus a música Sorted for E’s and Wizz, que é justamente sobre aceitar que isso não sairia do papel. Em 1994, o governo mudou as regras e proibiu que batidas repetitivas fossem tocadas, acabando com as raves clandestinas. Com isso, a habilidade de organizar um evento para festejar ao lado dos seus pares é muito mais difícil. Talvez um dia retomemos essa falta de controle, quem sabe. 

 

Como vê o futuro da banda? Não acho que o Pulp tenha chegado ao fim. Isso nunca passou pela minha mente, na verdade, mas não temos planos para outra turnê no momento. Acho que, para isso acontecer, temos que compor mais um disco. Primeiro vamos descansar e, provavelmente, pensarei em marcar um ensaio ou uma sessão de escrita perto do final do ano. Estou sempre anotando ideias, mas nunca se sabe se elas prestam até testá-las no estúdio.  

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