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“Já cheguei ao primeiro milhão”, diz Nath Finanças

A fluminense Nathália Rodrigues, 22 anos, foi da pobreza ao sucesso como influenciadora pop de economia

Por Amanda Capuano Atualizado em 29 jan 2021, 19h34 - Publicado em 29 jan 2021, 06h00
Nathália Rodrigues
Leo Aversa/.

Eu nasci e sempre vivi em Nova Iguaçu. Durante 21 anos, minha casa ficava em uma rua que alagava. A família era humilde e falava-se pouco em dinheiro — exceto no fim do mês, quando meus pais se reuniam para fechar as contas, e elas nunca batiam. Comecei a trabalhar ainda no ensino médio, ganhando 500 reais por mês. Com o primeiro salário, realizei um sonho: comprei um combo do McDonald’s só para mim. Quando se cresce na favela ou na periferia, você ouve não para tudo, de um iogurte a um tênis. Na época do vestibular, larguei o emprego para estudar. Como não podia pagar cursinho, estudava sozinha e me virava vendendo produtos da Avon na escola. Foi assim que passei em uma faculdade pública em Nova Friburgo. Só que tive de abrir mão da vaga porque era longe e meus pais não tinham condições de pagar uma república. Foi uma das decisões mais difíceis da minha vida. Felizmente, consegui uma bolsa em uma faculdade particular em Nova Iguaçu — e foi lá que minha forma de ver o dinheiro mudou, a partir das aulas de matemática financeira. Ironicamente, nessa época eu trabalhava vendendo cartão de crédito em uma loja de calçados. Eu ficava um pouco culpada de oferecer cartão para as pessoas se endividarem. Então, comecei a pensar em formas de ajudá-las.

Sempre nos ensinam a comprar, mas nunca a organizar as finanças. A primeira coisa que um jovem ganha quando começa a ter renda é uma conta-corrente com tarifas abusivas e um cartão de crédito com o limite maior do que o salário. Por isso, é importante falar sobre educação financeira. Mas há um problema: quem fala sobre dinheiro é quem sempre teve dinheiro sobrando. Se a pessoa nunca sobreviveu com um salário mínimo, ela vai dizer para você poupar 1 000 reais por mês, e isso é impossível para a maioria da população. Precisamos normalizar o hábito de guardar pouco dinheiro, porque às vezes até 100 reais é complicado. Pensando nisso, pus o projeto do Nath Finanças no papel, em 2018. Meu primeiro investimento foi de 50 reais em um tecido para cobrir a parede de casa, porque era feia para gravar os vídeos. Minha intenção nunca foi ensinar fórmulas milagrosas de como ficar rico, mas ajudar as pessoas a fugir das tarifas abusivas e sair do cheque especial. Eu queria falar com pessoas como eu: pobres que querem organizar suas contas.

Virei microempreendedora em 2019, mas continuei trabalhando como estagiária em uma financeira. Eu pegava três ônibus para ir e três para voltar. Depois, ia para a faculdade e editava os vídeos de madrugada. Houve dias em que chorei porque o sono não me deixava terminar. No início de 2020, contudo, algo aconteceu: eu virei meme no Twitter. Era uma montagem com minha foto e um personagem que dizia ter falhado em seguir minhas dicas. Só em janeiro, tive 70 000 menções nas redes. E aí começaram a surgir contratos de publicidade. O primeiro que fechei foi para um programa sobre como limpar o nome. Recebi 1 200 reais. Com isso, e algum dinheiro guardado, contratei meu editor de vídeos. Em seguida, virei colunista num jornal. A pandemia estourou em março, e em abril abandonei o estágio para me dedicar só ao Nath Finanças. Minha vida mudou completamente. Um ano depois, temos quinze funcionários na empresa, incluindo minha mãe e meu irmão. Lancei um livro (Orçamento sem Falhas, da Intrínseca) e tenho um podcast. A publicidade e o dinheiro vieram como consequência. Já cheguei ao primeiro milhão, mas isso nunca foi uma meta. Meu projeto era ensinar finanças de forma realista, além de me formar na faculdade. E eu consegui. Agora, chegou a hora de retribuir tudo o que meus pais me deram: vou pagar a faculdade de minha mãe, um sonho antigo dela.

Nathália Rodrigues em depoimento dado a Amanda Capuano

Publicado em VEJA de 3 de fevereiro de 2021, edição nº 2723

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