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Inhotim expõe obras do Museu de Arte Negra e quer ser mais popular

Primeiro ato de mostra traça relação entre Adbias Nascimento, fundador do MAN, e Tunga, primeiro artista brasileiro exposto no Louvre

Por Amanda Capuano Atualizado em 6 dez 2021, 18h53 - Publicado em 6 dez 2021, 13h37

A cidadezinha mineira de Brumadinho ganhou fama trágica depois do rompimento de uma das barragens da Vale, em 2019, mas guarda um tesouro em suas entranhas: com 140 hectares e um acervo de cerca de 700 obras, o Instituto Inhotim é hoje um dos maiores espaços artísticos a céu aberto da América Latina, impondo-se como um luxuoso retiro da arte contemporânea. O caminho até ali, no entanto, é marcado por moradias humildes e homenagens às vítimas da mineração, um cenário que expõe que o Inhotim, em todo seu esplendor, ainda está distante da realidade do seu entorno. É justamente esse contraste que o Museu de Arte Negra, idealizado pelo artista e intelectual Abdias Nascimento (1914-2011), que expõe seu acervo no local até 2023, pretende amenizar. “São dois anos de exposição para que a gente tenha tempo de se articular e realizar ações para fazer do Inhotim um lugar popular, um lugar do povo preto e de todas as pessoas que quiserem estar aqui”, contou a VEJA Júlio Menezes, coordenador do Instituto de Pesquisas e Estudos Afro-Brasileiros (Ipeafro), responsável pelo acervo. 

De portas abertas para o projeto, o Inhotim trabalhou em parceria com o Ipeafro para desenvolver uma mostra de longa duração que se desenrola em quatro atos, cada um com 5 meses. O primeiro deles, Abdias Nascimento, Tunga e o Museu de Arte Negra, abriu as portas ao público no sábado 4, e gira em torno da relação de Abdias com Tunga (1952-2016), o primeiro brasileiro a ter uma obra exposta no Louvre, e um dos artistas mais emblemáticos do acervo do Inhotim. Filho do poeta Gerardo Mello Mourão, que na década de 1930 fez parte da Santa Hermandad Orquídea ao lado de Nascimento, Tunga cresceu convivendo com Abdias, com quem mantinha uma relação de mestre-aprendiz. O intelectual negro, que na época ainda não pintava, teve papel tão significativo na sua construção artística que Tunga afirmou em uma entrevista de 1968 ao Correiro da Manhã, então com apenas 15 anos, que “a arte negra foi a primeira a romper os grilhões das saturadas imagens renascentistas.” 

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No chão, O Toro, de Tunga, com obras de Abdias Nascimento nas paredes Amanda Capuano/VEJA

Montada na Galeria Mata, ao lado da True Rouge de Tunga, a exposição combina obras dos dois a outras peças do acervo do MAN, construído a partir de doações daqueles que embarcaram no sonho de Abdias de criar um museu que não fosse pensado a partir de uma lógica europeia, e desse espaço para a estética negra e seus pintores. “É uma coleção formada por uma rede de afetos. São artistas que doaram obras para criar uma coleção para Abdias, então achamos que seria bonito iniciar esse projeto com uma homenagem à relação de Tunga e Abdias, que também tem muito afeto envolvido. É o Tunga acolhendo o Abdias no Inhotim,” explicou Douglas Freitas, curador do Inhotim.

No centro do espaço, a pintura amarelo vibrante evoca, acima de tudo, a cultura africana e identidade negra – em especial a religiosidade, com realce para figuras de orixás e retratos de rostos importantes, como o do próprio Nascimento. “A primeira vez que estive aqui, tive o sonho de ter um Inhotim para os orixás do Abdias. Não há nada mais apropriado que essa exposição acontecer nesse espaço de natureza que é sagrado por ser o lugar dos orixás”, contou Elisa Larkin durante apresentação à imprensa em que VEJA esteve presente.

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Elisa Larkin, viúva de Adbias Nascimento, e Júlio Menezes, coordenador do Ipeafro Amanda Capuano/VEJA
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Obras com referências à religiosidade africana Amanda Capuano/VEJA
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Nascida nos Estados Unidos, a americana conheceu e se casou com Abdias durante o período em que ele esteve exilado no país fugindo da ditadura militar. De volta ao Brasil, em 1981, o casal fundou o Ipeafro com o intuito de apoiar a população negra e levantar discussões sobre racismo e inclusão. Companheira de Abdias por 38 anos, Eliza participou ativamente do desenvolvimento da exposição, e se emocionou ao falar sobre o companheiro, morto em 2011. “Abdias levou a mensagem da cultura e da resistência contra o racismo da população negra brasileira para os Estados Unidos, que é uma coisa que acontece aqui desde que o primeiro negro foi escravizado,” citou.

O acervo do MAN é composto por obras reunidas por Abdias entre 1950 a 1968, mas a instituição nunca teve uma sede própria. “Esse é o grande sonho. Estamos lutando por isso há 70 anos, e seguimos tentando, mas ter um museu exige uma grande quantia de recursos”, explica Júlio Menezes. Assim, o acervo fica sob a tutela do Ipeafro, e é exposto temporariamente em instituições parceiras. Além da mostra no Inhotim, estão em cartaz também exposições no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro e no Acervo da Lage, em Salvador. Um apanhado de 60 peças também está disponível no acervo virtual da instituição.

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Retrato de Abdias Nascimento em exposição no Inhotim Amanda Capuano/VEJA

Com a exposição recém-inaugurada, o desafio agora é levar para dentro do museu a população negra e da periferia. Com ingressos a partir de 22 reais, Inhotim tem entrada gratuita na última sexta-feira de cada mês, exceto feriados. Para Júlio, porém, é preciso mais que isso. ”Quem está aqui precisa ouvir o entorno, se comunicar com as escolas, com a juventude. Estamos mapeando as lideranças não só de Belo Horizonte, mas também de Brumadinho, para que a gente consiga chamar o povo para o museu e para que essas pessoas sintam que esse é o espaço deles também,” explica.

Nascido em 1914 em Franca, no interior de São Paulo, Adbias foi poeta, escritor, curador, artista plástico, professor universitário, e político – em 1986, foi eleito deputado federal pelo PDT no estado do Rio de Janeiro, onde passou boa parte de sua vida. Segundo dados do Ipeafro, é dele o primeiro projeto de lei de políticas afirmativas registrado no Brasil. Antes disso, porém, Adbias foi o idealizador do Teatro Experimental do Negro e do MAN, que abriram as portas das artes para a população afro-brasileira. Por seu trabalho e ativismo, foi indicado ao Nobel da Paz em 2010.

Local: Galeria Mata | Instituto Inhotim
Visitação: de quinta a sexta-feira, das 9h30 às 16h30; e aos sábados, domingos e feriados, das 9h30 às 17h30
Ingressos: R$ 22 (meia) e R$ 44 (inteira) no Sympla

Entrada gratuita na última sexta-feira de cada mês, exceto feriados, mediante retirada prévia através do Sympla
***Moradores de Brumadinho cadastrados no programa Nosso Inhotim e Amigos do Inhotim também possuem entrada franca

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