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História muito doida

Melhor filme de Spike Lee em muito tempo, o divertido ‘Infiltrado na Klan’ conta caso real do policial negro que se fez passar por supremacista branco

Por Isabela Boscov
Atualizado em 22 nov 2018, 11h18 - Publicado em 16 nov 2018, 07h00

Ao telefone, David Duke (Topher Grace), grão-mestre da Ku Klux Klan, conversa com Ron Stallworth (John David Washington), o mais interessante novato da sua milícia pró-supremacia branca, e diz que, desde que os negros fiquem no seu lugar, nada tem contra eles — até sentiu tristeza verdadeira com a morte da mulher negra que fora sua babá na infância. Em voz clara e serena, Ron pondera que “é mesmo engraçado: um bom negro é como um bom cão — a gente se afeiçoa a ele”. Duke ainda não faz ideia, mas o homem que lhe diz isso do outro lado da linha mal está conseguindo segurar a gargalhada: ele é negro, usa um majestoso penteado afro (também chamado de “natural” nessa altura dos anos 70) e é o primeiro não branco a integrar a força policial de Colorado Springs, então com cerca de 200 000 habitantes. Foi assim, na cara de pau e dando um nó em Duke e em vários de seus asseclas, que Stallworth teve papel crucial em evitar os atos de violência que a KKK planejava na cidade e abriu uma trilha pioneira na investigação policial do supremacismo branco. É uma história tão incrível que não se poderia inventá-la. E, em Infiltrado na Klan (BlacKkKlansman, Estados Unidos, 2018), que estreia no país nesta quinta-feira e é seu melhor filme em muito tempo, o diretor Spike Lee a conta com sabor, comicidade e inteligência (e, às vezes, com um sermãozinho também, ou não seria Spike Lee).

Cansado de ser insultado pelos outros policiais da delegacia, Ron pediu ao chefe uma missão especial, e a ganhou: sua tarefa, de início, era se fazer passar por simpatizante dos radicais Panteras Negras para investigar o grêmio de universitários afro-americanos da cidade. Quando ficou claro que a verdadeira ameaça vinha dos supremacistas brancos, Ron jogou verde. Ligou para o escritório local da KKK, deixou recado apresentando-se como um branco cansado de ser oprimido pelos negros — e, inesperadamente, colheu maduro. O líder do grupo de Colorado Springs ligou de volta na mesma hora e, na sua surpresa e entusiasmo, Ron nem pensou em fornecer um nome falso ao sujeito; usou o seu mesmo. De forma que, quando foi convidado para um encontro cara a cara, as coisas se complicaram.

A solução foi fazer outro detetive, Flip Zimmerman (Adam Driver), posar de Ron Stallworth nas inspeções em carne e osso, enquanto Ron continuava a liderar a investigação e cuidar dos contatos telefônicos. Flip, por acaso, era judeu — e a KKK odeia os judeus com a mesma intensidade com que odeia os negros. Morto de medo, ele entretanto mostra que, como Ron, sabe pensar rápido. Quando Felix (o finlandês Jasper Pääkkönen), o mais exaltado do grupo, testa Flip dizendo que o Holocausto foi uma armação, o policial vai pelo fio da navalha. “É claro que o Holocausto aconteceu”, replica ele, deixando Felix já com sangue nos olhos. E continua: “Aconteceu e foi lindo. O que é que se faz com uma praga no campo? Queima-se, ora”.

A FERRO E FOGO – A KKK queima uma cruz, no filme: o ódio de novo na moda (David Lee/Focus Features/Divulgação)

No elenco, impecável de ponta a ponta (e incluindo-se as “pontas”), John David Washington — filho de Denzel, que foi parceiro de Spike Lee em tantos filmes — e Adam Driver sobressaem não só pela inspiração do seu desempenho, como também pelo sangue-frio. Dizer as coisas que eles têm de dizer como investigadores infiltrados não é fácil, mas ambos se comprometem de maneira absoluta com seus papéis (os dois que cada um deles interpreta, como policiais e agentes disfarçados): quanto piores os ultrajes que eles disparam, mais os novos companheiros os aplaudem e se afeiçoam a eles, e esse senso do absurdo, do surreal, nunca deixa o filme.

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Spike Lee, que quando redunda no mero proselitismo pode ser muito aborrecido, faz de Infiltrado na Klan um filme arrebatador, divertidíssimo e às vezes intensamente dramático, e põe em cena uma discussão instigante — se é possível, ou não, mudar o estado de coisas agindo de dentro delas. A novidade, no pensamento de Lee, é que ele é aqui francamente favorável à ideia de que não apenas é possível fazê-lo, como imperativo que se tente.

Stallworth só revelou sua participação no caso em 2006, após se aposentar, em entrevistas e depois no livro homônimo (publicado aqui pela editora Seoman) em que Lee se baseou. O policial conseguiu muita coisa, mas não refrescar a ignorância de David Duke: nas cenas reais que fecham o filme, Duke é visto em Charlottesville, em 2017, dizendo aos homens que carregam bandeiras nazistas e confederadas que a eleição de Donald Trump mostrou que é hora de reconquistarem seu lugar na América branca e cristã. A manifestação em Charlottesville terminou em terrível violência e morte (que Lee mostra em detalhe), e foi coroada pela recusa de Trump em criticar os supremacistas (“Há muita gente boa entre eles”). Em suma, argumenta Spike Lee: aprender, nem todo mundo (ou pouca gente) aprende. Mas, se o racismo nunca sai de moda e, como agora, ressurge com força, também a iniciativa e a coragem de pessoas como Stallworth e Zimmerman têm de continuar em voga.

Publicado em VEJA de 21 de novembro de 2018, edição nº 2609

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