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Fundo da garrafa

Em 'A Saideira', Barbara Gancia faz um relato da degradação que viveu por causa do alcoolismo — e de como conseguiu controlar sua compulsão autodestrutiva

Por Jerônimo Teixeira Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 23 nov 2018, 07h00 | Atualizado em 4 jun 2024, 16h19
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A Saidera – Barbara Gancia
‘A Saideira’, de Barbara Gancia (Planeta; 272 páginas; 49,90 reais) (//Divulgação)

A jornalista Barbara Gancia teve de ser contida por um fotógrafo quando tentou correr atrás dos touros no rodeio de Barretos. Já acordou no chão da sua cozinha em meio a uma poça de sangue, sem saber como tinha cortado a cabeça. Deixou intempestivamente um evento carnavalesco com o qual havia se comprometido, em São Paulo, e na saída enfiou uma caneta no ouvido do então prefeito Mário Covas. Envolveu-se em vários acidentes automobilísticos — no mais grave deles, em 1981, atravessou o semáforo vermelho na avenida Paulista, acertou outro carro, foi arremessada pelo para-­brisa e perdeu quase toda a visão do olho direito. Estava bêbada em todos esses episódios. O humor alterado pelo álcool (e às vezes pela cocaína) foi seu estado natural até 2007, quando se internou em uma clínica de reabilitação. Desde então, aderiu ao programa dos doze passos dos Narcóticos Anônimos e passou a fazer campanha — financiada, quem diria, pela Ambev — em favor da conscientização sobre o alcoolismo. Ex-colunista do jornal Folha de S.Paulo, Barbara narra sua trajetória da degradação à redenção em A Saideira.

Com um estilo ágil e coloquial, por vezes excessivo nas gracinhas, Barbara, de 61 anos, lembra a juventude de filha da elite paulistana, enumera figurões e celebridades que conheceu e conta anedotas de sua bebedeira e de sua carreira jornalística. É um livro leve, otimista, cuja mensagem, porém, nada tem de trivial: o alcoolismo é uma doença mal compreendida, e é preciso falar abertamente sobre ele. Um relato franco como este serve de alento e de alerta para alcoólatras que ambicionam a recuperação. A impotência humana diante do álcool lembra que — na expressão colorida da autora — somos todos “tão perecíveis quanto um pastel de palmito”.

Publicado em VEJA de 28 de novembro de 2018, edição nº 2610

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