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Filho de Ringo Starr se aventura com brilho no reggae

Zak Starkey, com passagens pelo Oasis e pelo The Who, é o herdeiro dos Beatles que se deu melhor na música

Por Sérgio Martins Atualizado em 23 ago 2019, 14h38 - Publicado em 23 ago 2019, 06h30

Ringo Starr não escondeu a satisfação quando seu filho mais velho, Zak, preferiu a guitarra à bateria, instrumento que consagrou o pai nos Beatles. O rebento proclamou que não seguiria seus passos à saída de um show de Marc Bolan, rock star espalhafatoso dos anos 70. Zak, o aspirante a guitar hero, tinha 7 anos. Mas, para pânico de Ringo, essa fase durou pouco: certo dia, ao escutar uma coletânea do The Who, Zak amou a ferocidade com que Keith Moon, baterista do grupo (e, às vezes, “babá” do garoto), espancava seus pratos e bumbos. Ringo ficou contrariado, mas deu apoio: presenteou-o com uma pequena bateria e lhe ensinou as técnicas básicas.

Se um dia Ringo sonhou com uma profissão digna para o filho, hoje tem razões para se orgulhar. Zak Starkey, agora aos 53 anos, exibe um sólido currículo musical. Ele já participou do próprio The Who e do Oasis, duas das maiores bandas da história. Trabalhou também com o cultuado guitarrista Johnny Marr, ex-Smiths. Sua última empreitada é o Trojan Jamaica, selo recém-lançado cuja especialidade é resgatar nomes históricos do reggae. Tem como sócia a namorada, Sshh Liguz. Sim, o nome artístico da moça é aquela onomatopeia para pedir silêncio — pronuncia-se “shhhh…”. Mas o negócio do casal já produz barulho dos bons. O primeiro lançamento, Red Gold Green & Blue, traz clássicos do blues e do rock vertidos para a languidez jamaicana. “Minha mãe era uma grande fã de reggae”, disse Zak a VEJA (ele é filho de Maureen, primeira mulher de Ringo, morta em 1994). Zak se reencontrou com o ritmo por meio do punk rock. “Bandas como The Clash e o John Lydon, dos Sex Pistols, foram muito influenciados pelo reggae.”

Ao trilhar uma carreira sólida, diferenciou-se dos outros herdeiros que carregam o DNA dos Beatles mas nunca chegaram a lugar algum na música. Julian e Sean, filhos de John Lennon, jamais passaram de promessas. O primeiro flertou com o sucesso em canções como Too Late for Goodbyes, mas sucumbiu às drogas. Sean, filho de John com Yoko, investe em um pop alternativo — e chato. Mary e Stella, filhas de Paul e Linda McCartney, se deram bem — mas longe do rock: uma é documentarista e a outra, estilista. James, o único dos McCartney que tentou a música, nunca passou de um sujeito esforçado. Dhani, filho de George Harrison, é instrumentista e cantor razoável, mas apagado. Trabalha com trilhas de documentários e, há dois anos, lançou um disco-solo sem repercussão.

Zak teve uma vantagem: não repousava sobre seus ombros a responsabilidade de replicar um grande talento. Na primeira gravação para valer dos Beatles, a do compacto Love Me Do, o produtor chegou a trazer para o estúdio um baterista profissional, pois estava inseguro da performance de Ringo. Ele também nunca foi um compositor do nível de seus colegas dos Beatles. No passado, Zak saiu em defesa do velho: “Não existia uma bateria típica de rock antes dele”. Hoje, o filho evita falar muito sobre o pai. Devagarinho, Zak construiu a reputação de ser um grande baterista. Foi o único capaz de ter uma performance no The Who à altura da pancadaria do finado Keith Moon. “Não é muito difícil. Gosto da banda, conheço as músicas e nos damos bem”, conta.

A largada de seu selo é auspiciosa. Red Gold Green & Blue traz a nata do reggae dos anos 70 interpretando canções de uma era pré-­rock. Mykal Rose, Toots Hibbert, entre outros craques jamaicanos, se sentem em casa ao recriar o repertório. Precavido, Zak não encara a bateria: deixou a função para o genial Sly Dunbar. Tocou guitarra. “Preferi atuar como um líder de banda, organizando o trabalho daqueles músicos sensacionais.” Para Zak, o tom de humildade não soa falso, pois ele conseguiu fugir da maldição de ser um mero filhinho de papai.

Publicado em VEJA de 28 de agosto de 2019, edição nº 2649

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