Felipe Simas a VEJA: “Todo artista tem uma missão pastoral”
Em entrevista, ator falou sobre realização profissional, sua conexão com a religião e o relacionamento com os irmãos atores
Felipe Simas foi dos atores mais prolíficos no ano de 2025. Além da novela das sete da Globo Dona de Mim, na qual interpreta Danilo, e de Tremembé, série de true crime do Prime Video, como Daniel Cravinhos, o ator de 32 anos acaba de chegar aos cinemas como protagonista do filme Asa Branca – A Voz da Arena. O longa dirigido por Guga Sander conta a trajetória cheia de altos e baixos do famoso locutor de rodeios vítima do vício em álcool e drogas no auge de sua carreira. A vida profissional agitada de Simas combinou — ou ajudou a expor — seu lado espiritual: evangélico há dez anos e envolvido de forma ativa na comunidade que frequenta, ele foi visto pregando na igreja em diversos vídeo compartilhados na internet. Em entrevista a VEJA, Simas falou de suas realizações profissionais — e de como sua fé serve de guia para o trabalho como ator. Confira
Atualmente, você está em produções diferentes, como Tremembé, o filme Asa Branca e a novela Dona de Mim, na Globo. Como avalia essa fase da carreira? Eu estou muito satisfeito. Depois da novela Fuzuê, que acabou no início do ano passado, eu tive a oportunidade de em sequência fazer o Asa Branca e depois eu fui ao Pará fazer um outro longa chamado Rio de Sangue, e para São Paulo fazer Tremembé [série da Prime Video]. Apesar de alguns atores dizerem que não é bom o ator fazer tantas personagens no mesmo ano, que a gente não tem tanto para dar assim, eu fui muito feliz em todos esses trabalhos. Depois de Tremembé, assumi o Danilo em Dona de Mim, um projeto mais longo, onde a gente se relaciona mais com a obra aberta e não tem muita noção de qual vai ser o fim. Mas eu amo fazer novela. A novela é um veículo que você tem que aprender a amar. Eu insisto em dizer que novela é o veículo mais difícil pro ator, pela quantidade de cenas que a gente faz, por ser uma obra aberta, por não ter muito tempo de preparo. Tudo isso influencia muito em como você se relaciona com a sua personagem. E eu aprendi a amar essa corda bamba, esse jogo quase desequilibrado mesmo. Quando você faz algo como Tremembé ou um filme, você sabe muito bem o que vai acontecer. Na novela não. Na novela você se derrama, se apaixona e de repente acaba. Eu me joguei por inteiro e não tem mais. A vida é assim, para falar a verdade. Então, por isso que eu amo tanto novela. Estou feliz, me sinto satisfeito profissionalmente.
Como foi a experiência de dar vida ao Asa Branca logo em seu primeiro filme como protagonista? Exigiu muito de mim, porque Asa Branca foi um ícone. Era um cara que chamava muita atenção por onde passava. Acho que tinha quase 1,90m de altura, eu sou um cara pouco mais baixo, além de totalmente introvertido. Então foi difícil, mas posso dizer que eu me diverti. Tem uma tradição no teatro japonês em que, depois de acabar um espetáculo, você não fala “parabéns” ou “belo espetáculo”. Você deve dizer “parabéns, sua camisa tá suada”, “você tá suado”, no sentido de que se esforçou. Então, posso dizer que eu suei muito a camisa, vivi intensamente esse personagem pelo pouco tempo que a gente teve também. Foi um tiro rápido e foi o primeiro que eu fiz depois da Fuzuê. Em sequência eu fui para Fernandópolis e passei lá uma temporada filmando, mas eu saí daquele mês de filmagem muito satisfeito. Muito satisfeito porque eu dei tudo de mim, tudo que eu poderia entregar, eu entreguei.
Que referências utilizou para fazer esse personagem? Eu assisti a muitos vídeos do Asa Branca. Também assisti muito um filme do Johnny Cash, devo ter visto umas quatro vezes, porque eu sentia que tinha algo parecido ali. Ambos tinham uma missão, mas a bebida e as drogas lhes tiraram do caminho. E também serviu de inspiração o guitarrista Stevie Ray Vaughan, que chamou a minha atenção pelo estilo e por ter uma confiança grande em si mesmo.
Sobre Tremembé, muitas pessoas alegam que o Daniel Cravinhos foi bastante humanizado na série. O que acha disso? É uma obra de ficção, eu trabalhei em cima do que me foi dado no roteiro. Mas é muito legal quando falam sobre a humanização, porque esse desejo de morte tanto do outro como também a nossa própria morte está dentro da gente. E quem nunca se deparou com esse sentimento talvez esteja vivendo numa vida um pouco superficial, ao meu ver. Porque se todos nós um dia vamos morrer, pelo menos eu preciso pensar sobre o que é isso que um dia não tem mais. O que é a vida? O que é a morte? Como é que eu tenho o poder de tirar a vida de uma pessoa? A gente arca com as consequências, tanto é que eles [Daniel e Cristian Cravinhos] ficaram presos e cumpriram as suas penas. Ao meu ver, eu quis dar ao personagem não só o enclausuramento físico, mas também o psíquico e emocional, sobre lidar com o fato de que você tirou a vida de uma outra pessoa. Foi isso que eu aprendi e que eu tentei passar. E, obviamente, para nós atores, esse sentimento não é de brincadeira. O Felipe passou por esse caos, apesar de não ter tirado a vida de ninguém, o Felipe analisou o que seria tirar a vida de alguém.
O quanto se envolveu com os próprios sentimentos do Daniel? Isso chegou a afetar a sua vida como Felipe? Não tem como não afetar. O corpo não sabe o que é mentira e o que é verdade. O ator engana o corpo fingindo que aquilo que ele está fazendo é uma verdade, para a gente ser mais verídico ou pelo menos passar essa veracidade para o público. Não é sem cicatrizes que a gente sai desse trabalho, mas desde o início eu sabia onde eu estava me metendo. Eu sabia que o Felipe ia sair diferente, eu sabia que ele ia sair mais analisado com relação não só a ele mesmo, mas com a humanidade como um todo, a sociedade, um olhar compassivo que eu sismo em enfatizar. É impossível dar vida a uma personagem sem ter amor a essa personagem, por pior que ela seja. É impossível eu não ter compaixão. Se eu não tenho compaixão, eu não consigo sentir o que a personagem está pedindo. A compaixão é o que me faz dar vida as personagens que eu faço. Daniel foi muito amado pelo Felipe. E não que eu tenha o direito aqui de perdoar alguém ou não, mas na minha mente, o Daniel é uma pessoa perdoada por mim, lembrando que o perdão não é a ausência de justiça, mas sim uma libertação interior.
Esse ano completou 10 anos da sua conversão ao evangelho. O que mudou na sua vida desde então? Me converti aos 22 anos. Em comparação com hoje em dia, são duas vidas, duas cabeças, o meu corpo é diferente, é tudo diferente. Mas a certeza de que vivi algo muito especial 10 anos atrás só aumenta com o passar do tempo. Em todas as minhas crises de fé, existenciais, filosóficas e humanas, em momento algum eu duvidei de que algo especial tinha acontecido, apesar de toda a dor. E quanto menos variável eu for com a minha fé, mais feliz eu sou. Por muito tempo eu duvidava da minha própria fé, eu questionava o porquê das coisas e o sentimento que me conectou a essa fé foi justamente o perdão. Quando eu percebo que fui muito perdoado quando merecia ser julgado, eu não tenho condição alguma de não perdoar alguém que merece julgamento. O que move a minha fé hoje, e eu espero que seja para sempre, não é a religiosidade, é o sentimento de perdão. É a propagação desse amor que um dia eu senti. É a propagação da graça, de um evangelho que pacifica a existência caótica humana. Foi isso que eu senti no íntimo do meu ser. Eu vivia perdido pelo mundo, eu vivia buscando em outros lugares o que somente uma presença viva, perdoadora e amorosa seria capaz de me oferecer, e eu encontrei essa presença em Jesus.
Foi por isso que sentiu a necessidade de pregar na sua igreja? Eu acho que todo artista tem uma missão pastoral, sinceramente, porque o pastor, o pregador e o artista são aquelas pessoas que falam e são ouvidas. São arautos que trazem uma mensagem. Eu sou uma pessoa muito tímida, muito mesmo, eu era o último a falar na escola. Mas eu entendi que quando você acredita que tem uma mensagem, isso é mais importante do que você. Então, quando eu subo para pregar a palavra, não é o Felipe, é a mensagem que eu creio. É muito mais importante do que uma performance. O meu pastor sempre fala isso, que o pastor tem que fugir da performance e da aceitação. Ele tem que falar sobre aquilo que o coração dele explode e o meu coração explode pela Palavra. Eu estava hoje estudando o livro de Efésios, que é uma das cartas de Paulo. Paulo perseguia a mensagem dos cristãos, ele ia contra tudo isso, mas então ele tem um encontro místico e passa a sistematizar um pouco a teologia, ele escreve cartas de ensino para certas comunidades e fala com uma mentalidade questionadora. E esse é o cristianismo que eu acredito, aquele que te dá a oportunidade de questionar e de ter liberdade de pensamento.
Sua religiosidade de alguma forma orienta os trabalhos que escolhe fazer? Eu acho que todos nós sofremos de um desejo por conhecer o transcendente, isso é inerente ao ser humano. Então todas as minhas personagens, no fundo, têm uma busca existencial. Seja crente ou não, todos eles têm isso. Eu não sou ninguém para achar que algum personagem não merece ser retratado, que não merece o perdão divino. Quem sou eu? E sobre a religiosidade, eu procuro fugir desse termo, porque a religiosidade é o que afasta, é o que cria leis. O que se entende por religiosidade são as coisas que a gente faz para tentar agradar a um Deus que está acima de nós. Eu acredito no Deus que desceu, no Deus que se relacionou. A minha religiosidade hoje consiste em fazer parte de uma comunidade, uma comunidade aberta, de portas abertas para quem quer que chegue.
Qual termo considera mais adequado? A igreja que eu frequento não se chama igreja. Não é um templo religioso, somos uma comunidade. Somos uma casa onde, uma vez por mês, depois da nossa celebração de domingo, trazemos mesas para dentro e fazemos um almoço comunitário. A grande mensagem de Jesus é a cruz, mas a mesa é onde Ele se faz vivo e presente. A cruz é o sacrifício único de Jesus, mas a mesa é onde Ele se faz um conosco, onde Ele parte o pão e nos olha e nos ama e se relaciona conosco. Eu acredito nisso. Eu fujo do termo “religiosidade” porque ele acaba me encaixotando. Parece quase uma barganha religiosa, que é muito comum hoje em dia, pagar ofertas e dízimos para Deus nos abençoar. A gente foge disso, porque Deus está me abençoando agora. É nisso que eu acredito. Quando eu vou dar minha oferta, meu dízimo, quando eu vou oferecer parte do dinheiro que eu ganho, é para o sustento da nossa comunidade, é para nossa ação social, reconhecendo que eu não vivo apenas do dinheiro que ganho, mas do amor e e da compaixão que eu posso ter. Isso me alimenta também, porque que sentido teria a vida se fosse só para ganhar dinheiro?
Como é viver numa família de atores? Sua dinâmica familiar com seus irmãos é influenciada pela profissão em comum? A gente troca muito e se respeita muito. Admiramos a trajetória de cada um, as escolhas não só profissionais, mas de vida também. Conversamos muito sobre elas. Sempre que a gente passa para algum filme, novela ou algum teste, nós somos os primeiros a saber, a gente faz questão de se ligar e falar das novidades. É muito precioso o que a gente tem. Eu que sou pai de três crianças hoje em dia, vejo a dificuldade que existe em cultivar uma relação entre irmãos. Eu olho ao redor e vejo muitas pessoas que mal falam com seus irmãos, são distantes um do outro. Eu acho que os meus filhos reconhecerem esse amor em nós também é um ensinamento. Quem sabe no futuro a gente não tem um projeto os três juntos, para sermos irmãos também no audiovisual, no teatro ou seja onde for.
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