Entenda o final de ‘Digger’ e a reviravolta do personagem de Tom Cruise
No longa de Iñárritu, a história do magnata que causou o fim do mundo é, na verdade, uma peça encenada décadas depois do desastre
Tom Cruise dá vida ao extravagante protagonista de Digger, novo filme de Alejandro G. Iñárritu, que estreia nesta quinta-feira, 1º, no Brasil. Em tom satírico, o longa acompanha um bilionário que tenta salvar a própria imagem pública depois de provocar um desastre climático de proporções nunca vistas. Os diálogos empolados e as atuações exageradas, porém, podem deixar a plateia confusa com a metalinguagem da história. Entenda o final da trama.
Atenção: a partir daqui, o texto contém spoilers.
Digger Rockwell, herdeiro de um império do petróleo nos Estados Unidos, descobre que uma fenda que crescia rapidamente em uma plataforma de exploração na Groenlândia provocou uma explosão. O acidente lança uma calota de gelo de tamanho inédito, em alta velocidade, em direção ao norte da Europa.
A destruição se concretiza, mas logo ganha novas proporções. Com os abalos do desastre, uma nova calota de gelo aparece, agora em direção à própria Groenlândia. O risco já não é atingir pessoas, e sim as plataformas de petróleo que receberam grandes investimentos do próprio Digger. A solução do governo americano é bombardear o bloco de gelo, que se parte em dezenas de pedaços e atinge vários pontos do globo. O resultado são inundações e um ar contaminado por metano, impossível de respirar. Com a catástrofe, Digger se muda para uma plataforma abandonada em alto-mar. Sem recursos ou apoio do governo, não tem como sustentar a família e morre se lançando ao mar.
O filme ganha traços de metalinguagem depois da sua primeira meia hora, quando é revelado que tudo o que se viu até ali não é real, mas apenas o ensaio geral de uma peça, que estreia para o público naquela mesma noite. Cruise é, na verdade, Curtis, ator que interpreta Digger e aproveita os intervalos para tentar descobrir o paradeiro da filha. Ela embarcou em um pequeno voo no Caribe, que desapareceu em meio às mudanças climáticas na região.
Pouco antes do desfecho, o filme faz uma nova revelação: a peça é baseada em uma história real dentro do universo da trama. Depois da tragédia, o episódio virou uma sátira teatral que se tornou clássico cult. A nova montagem, de grande orçamento, é bancada por um investidor secreto: Kenny Rockwell, sobrinho e herdeiro do verdadeiro Digger. Fã de Curtis, é Kenny quem consegue localizar o avião da filha do ator e garantir que ele pouse em segurança.
O filme termina com a peça encenada em um teatro lotado, cuja plateia aplaude a morte de Digger, convertido em vilão da história da humanidade. Após a última reverência do elenco, as cortinas se fecham e uma voz no alto-falante anuncia “nível 4”, código para que todos coloquem as máscaras de ar necessárias para respirar do lado de fora. Durante os créditos, o filme mostra o mundo décadas depois da catástrofe: ruas alagadas por mais de um metro de água, pessoas circulando de bote, pilhas de carros e robôs destruídos.
O fim do mundo, tão temido na trama, se mostrou inevitável. O que parecia impossível de sobreviver virou o “novo normal”, e a humanidade se adaptou a viver de máscara e de barco. Ao menos, a arte resistiu.
Quem ficar no cinema até o fim dos créditos ainda ouve, nos alto-falantes da sala, a mesma voz repetindo “nível 4” antes de as luzes se acenderem. É um recado de Iñárritu de que os desastres do filme podem não estar tão distantes do mundo real.







