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Em ‘A Bela e a Fera’, um desafio inédito: dar vida a objetos

Os atores do novo filme falam como foi o processo de interpretar espanador, guarda-roupa e relógio

Por Mariane Morisawa, de Los Angeles Atualizado em 17 mar 2017, 17h09 - Publicado em 17 mar 2017, 10h18

Para a sua adaptação de A Bela e a Fera, clássica animação da Disney de 1991, o diretor Bill Condon recorreu a atores de peso, a começar por Emma Watson no papel principal. Mas boa parte desse elenco estelar foi, na verdade, escalada para viver objetos animados, antigos funcionários do castelo da Fera transformados por uma maldição contra o Príncipe arrogante, aqui vivido por Dan Stevens. Assim, o valete Lumière vira um candelabro (com voz de Ewan McGregor), e sua grande paixão, a faxineira Plumette, transforma-se em espanador (Gugu Mbatha-Raw). O mordomo torna-se Horloge, o relógio (feito por sir Ian McKellen), a governanta Madame Samovar vira um bule de chá (com voz de Emma Thompson), e seu filho Zip, uma xícara (Nathan Mack). Na nova versão, até quem se apresentava no palácio é enfeitiçado, como o músico Cadenza (Stanley Tucci), que vira um cravo, e a cantora lírica Madame de Garderobe (Audra McDonald), que se torna um guarda-roupa. A transformação já era parte da animação, mas lá todos os personagens só existiram na cabine de gravação de voz, inclusive a Bela e a Fera. Aqui, os atores passaram por um processo um pouco diferente. “A nossa proposta para o filme inteiro era tudo parecer real. Não havia razão para refazer esta história se fosse tudo igual à animação”, disse Bill Condon em entrevista ao site de VEJA, em Los Angeles.

  • Primeiro, os atores que interpretam objetos foram ao estúdio de gravação, onde sua voz e também suas expressões faciais foram registradas. “Quando estava fazendo o trabalho de dublagem, precisava abordar de maneira diferente porque tinha de me imaginar como objeto”, contou Audra McDonald, vencedora de seis prêmios Tony, o Oscar do teatro. Condon ia dando dicas sobre o momento vivido pela Madame de Garderobe. “Por exemplo: ‘Agora, ela está caindo no sono’. Eu precisava fazer com que os roncos parecessem grandes e pesados como uma peça de mobiliário de madeira”, disse a atriz.

    Era um desafio oposto ao da inglesa Gugu Mbatha-Raw, conhecida pelo episódio San Junipero, da última temporada da série Black Mirror. “Nossa Plumette é diferente da animação, aquela parecia mais um esfregão, a nossa é mais leve, toda branca, quase como uma pomba ou uma pavoa”, disse a atriz. “Isso foi muito inspirador para mim, tentei incorporar esse visual na voz, colocar essa noção de leveza na sua risada e no seu sotaque, aquele flerte brincalhão que tem com Lumière. Às vezes, quando estava cansada ou precisando de inspiração, batia meus braços, como se fossem asas, para ter a sensação de voar”, completou, rindo. Mbatha-Raw passou por um treinamento junto com Ewan McGregor para falar inglês com sotaque francês.

    Na maior parte da filmagem, Emma Thompson, Audra McDonald e companhia não estavam no set. Um poste com uma luz indicando a posição dos olhos e os diálogos gravados em estúdio foram então os guias para Emma Watson

    O filme aprofunda um pouco mais os relacionamentos entre os personagens e dá uma espiada em sua vida no passado, com a ajuda de uma nova música, Days in the Sun, composta por Alan Menken (autor da trilha original em parceria com Howard Ashman, que morreu antes da estreia do filme em 1991) e Tim Rice. “A Madame Samovar, por exemplo, é uma figura extremamente calorosa, mas, porque ela basicamente era a babá, sente-se culpada pela forma como fechou os olhos para o que estava acontecendo durante a infância do príncipe, quando ele se transformou em quem é hoje”, afirmou Condon. “De certa maneira, ela não o protegeu o suficiente. Essa é uma nuance que não poderia existir em uma animação.”

    O valete Lumière como candelabro (com voz de Ewan McGregor), mordomo Horloge como relógio (Sir Ian McKellen), a governanta Madame Samovar como bule de chá (voz de Emma Thompson) e a faxineira Plumette como espanador (Gugu Mbatha-Raw) Reprodução/Divulgação

    Uma sequência no início de A Bela e a Fera mostra claramente como era o Príncipe antes de ser transformado em Fera. Durante um baile de debutantes numa noite fria, uma mulher idosa pede abrigo, dando, em troca, uma rosa vermelha. Arrogante, o Príncipe se nega a receber em seu castelo uma velha pobre, e ela se revela uma feiticeira: apenas se ele encontrasse um amor verdadeiro e fosse digno desse amor antes da queda da última pétala daquela rosa vermelha, ele estaria livre da maldição. Os atores que interpretam os objetos estão presentes na cena, e essa foi a segunda etapa de seu trabalho: filmar em estúdio as sequências do baile e as finais.

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    Condon fez questão de oferecer também aos outros atores a possibilidade de contracenar com os objetos. “Quando Madame Samovar está em cena, nós ensaiamos com Emma Thompson”, disse o diretor. “Se ela e Madame Garderobe estão falando com Bela, ensaiamos a cena juntas. Só depois a gente foi descobrir como transformar Emma Thompson no bule de chá. Queríamos chegar à conexão humana antes.” Na maior parte da filmagem, porém, Emma Thompson, Audra McDonald e companhia não estavam no set. Um poste com uma luz indicando a posição dos olhos e os diálogos gravados em estúdio foram então os guias para Emma Watson.

    Ainda houve uma terceira etapa, quando os objetos já tinham sido criados pela equipe de computação gráfica, e os atores voltaram ao estúdio de gravação para dar toques finais na dublagem, de acordo com o que tinha sido criado pelos animadores. Audra McDonald, por exemplo, teve chance de ser mais específica ao fazer as cenas em que a Madame de Garderobe usa tecidos para atacar intrusos. “Pude adicionar coisas que ela podia gritar enquanto fazia isso”, explicou. Para sua surpresa, os animadores incorporaram alguma coisa da atriz na personagem animada. “Ela gesticula bastante, que é algo que eu faço e cabia bem numa personagem italiana, mesmo interpretada por uma afro-americana”, disse. “E a boca grande!”, completou, brincando.

    Para Gugu Mbatha-Raw, toda a experiência de viver um objeto foi libertadora. “Dá para voltar à infância, aquela imaginação de faz de conta, tipo, o.k., sou um espanador de pó! É um salto da imaginação, mas te liberta para brincar mais, sem as limitações de seu próprio corpo ou face, coisas que se pode mudar pouco.” Certamente, nenhum desses atores imaginou que em sua filmografia, junto com Gandalf (no caso de Ian McKellen), Jesus Cristo (McGregor) e Billie Holliday (McDonald), estariam também um candelabro, um relógio ou um guarda-roupa.

    O valete Lumière como candelabro (com voz de Ewan McGregor), mordomo Horloge como relógio (sir Ian McKellen) e o músico Cadenza como um cravo (Stanley Tucci) Reprodução/Divulgação

     

     

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