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Drogas, nudes e tudo o mais

A série 'Euphoria' quebra tabus ao mostrar a adolescência

Por Fernando Grostein Andrade 9 ago 2019, 07h00 | Atualizado em 3 jul 2026, 14h14
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A barra de qualidade das produções em torno da vida adolescente subiu. Confirmando sua tradição de fazer séries de alto valor cinematográfico (concorrentes, mirem-se no bom exemplo), a HBO lançou um título, Euphoria, capaz de quebrar diversos tabus ao retratar a juventude. Para começo de conversa, a produção não se acovarda: mostra drogas, expõe nudes e tudo o mais, sem preocupação em dar lições de moral — aquela velha desculpa para tratar jovens como burros e exibir retratos esterilizados da vida real. Afinal, se não podemos falar no assunto, como combater o abuso de drogas? Há um belo avanço ao abordar o sexo, sobretudo a nudez masculina. Devido à visão heteronormativa dos diretores héteros que grassam por aí, a nudez na tela tem somente quatro graus: seios, bunda, vagina e, quando a produção quer ousar mesmo, uma bunda masculina. Parece que os atores não têm pênis e que, se um pênis for mostrado na tela, os casamentos vão se dissolver.

Euphoria encara esse assunto sem delongas, não só trata o pênis como ele é, uma coisa normal da vida, como debate nudes de pênis, formatos e até etiqueta na hora de mostrar fotos do pinto. O assunto é tão embaraçoso que não duvido que alguns leitores estejam incomodados com este texto. Calma, está tudo bem, é só uma parte do nosso corpo. O próximo tabu a ser demolido pela série gira em torno dos protagonistas: um dos personagens mais fortes é Jules (Hunter Schafer), uma garota trans, nascida menino, mas que sempre se identificou como mulher e fez adequação de gênero na adolescência.

“A HBO revela a juventude como ela merece: inteligente e capaz de tomar as próprias decisões”

Ao pôr uma adolescente trans na vitrine, vem à tona a prisão masculina ao lidar com o assunto. A série começa mostrando o pai de uma família conservadora que leva uma vida secreta como “daddy dominador” (daddy é uma gíria gay para homens mais velhos). Todos com o mesmo discurso e vítimas das mesmas amarras: “Não sou gay”, “Ninguém pode saber”, “Não destrói minha família”. Ao mesmo tempo, Euphoria revela uma tendência nos aplicativos de paquera gay: a imensa quantidade de meninos e homens heterossexuais que querem se relacionar com garotas trans: se antes isso era feito na sombra, em alguns lugares do mundo, como em Los Angeles, a nova geração aborda o tema com tranquilidade, valoriza a mulher trans como algo belo, poderoso, multidimensional e, o mais decisivo, normal.

Aos olhos de um desavisado, tudo isso parece muita modernidade dos dias atuais. Não é verdade, seja nas fotografias de Robert Mapplethorpe, seja nas ruas em torno do Jockey Club de São Paulo, seja nas escolas de elite, a transexualidade nunca deixou de ser assunto. A diferença hoje é que, com tanta informação circulando por aí, nada falso cola com os jovens, e a HBO teve a sacada de não ficar para trás e trazer um olhar para os adolescentes como eles merecem: seres humanos inteligentes e capazes de se informar e tomar as próprias decisões. Tomar as próprias decisões é algo fora de moda, é verdade, mas com a internet acabou a farsa das produções edulcoradas.

Publicado em VEJA de 14 de agosto de 2019, edição nº 2647

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