Disco reflete a força indomável da cantora Carly Simon diante das adversidades
No primeiro álbum em quase duas décadas, ela reafirma seu talento em meio a uma batalha pessoal contra um câncer e a doença de Parkinson
Carly Simon sempre prezou pela honestidade. A união dessa característica com o talento musical fez dela uma das cantoras e compositoras mais apreciadas e influentes da história do pop — autora de canções incontornáveis, como a irônica You’re So Vain (“Você é tão vaidoso”, na tradução), sobre um amante narcisístico, uma alfinetada no ex-namorado, o ator Warren Beatty. Agora, aos 83 anos de idade, Carly voltou a se abrir — e trouxe notícias um tanto melancólicas, mas sem perder o brio. Longe da vida pública desde 2018, quando participou rapidamente de um show beneficente em Nova York, e sem lançar músicas inéditas desde 2008, Carly ressurgiu no mês passado revelando as causas do sumiço: ela removeu um carcinoma no rosto e fora diagnosticada com Parkinson. O primeiro entrave mexeu com sua vaidade — “veja a ironia de ter escrito You’re So Vain”, disse ela, bem-humorada, em um comunicado —; o segundo, com sua mobilidade e saúde mental. A aposentadoria, contudo, não era a resposta. As notícias ruins vieram acompanhadas de um belo refresco, o anúncio do lançamento do primeiro disco de inéditas da cantora em dezoito anos, Comes In Waves, agora disponível nas plataformas de streaming.
Gravado na casa de Carly, na Ilha de Martha’s Vineyard, na costa do estado americano de Massachusetts, com participações de Ben e Sally — filhos de seu casamento com o cantor James Taylor —, o novo álbum expõe a força da voz e da sabedoria marinadas pela passagem do tempo. Tocando piano, violão e até contrabaixo, Carly faz um inventário de afetos e rompimentos — em Howl convida à fúria e à catarse após a separação; Maybe I Never Loved You parece mirar diretamente em seu antigo par, James, com quem manteve um relacionamento, entre 1971 e 1983, de muita visibilidade e turbulência. Outros temas se desdobram, como a celebração da maternidade e uma declaração de amor pelo pai, Richard L. Simon, pianista amador e cofundador da poderosa casa editorial Simon & Schuster.
O álbum coroa seis décadas da carreira extraordinária de uma artista que sonhava, na verdade, ser jogadora de beisebol. Uma jornada iniciada em 1964, quando Carly formou a dupla folk The Simon Sisters com a irmã Lucy, depois direcionada à confecção de jingles publicitários, e deslanchada quando virou artista solo e passou a dominar as rádios e a vender milhões de discos com elegantes gemas de soft rock. No auge, ela realizou a façanha inédita de abocanhar ao mesmo tempo um Oscar, um Grammy e um Globo de Ouro (como compositora e intérprete) por uma mesma música: no caso, Let the River Run, da trilha do filme Uma Secretária de Futuro, em 1989. Seu alcance percorre gerações — seja no convite para regravar com Alanis Morissette Coming Around Again, sucesso de meados dos anos 1980, seja no surpreendente apreço do Radiohead por Nobody Does It Better, usada na trilha do filme 007 — O Espião que Me Amava, de 1977, seja até na tietagem explícita de discípulas como Taylor Swift e Olivia Rodrigo.
Entre altos e baixos, a vida de Carly reveza conquistas com perdas de impacto equivalente. Em 2022, morreram as duas irmãs mais velhas — Joanna, cantora de ópera, e Lucy —, com apenas um dia de diferença entre elas. O irmão caçula, Peter, havia falecido quatro anos antes. Não surpreende, portanto, que dor, êxtase, perda, triunfo, dúvida, saudade, amor e desamor desfilem pelas faixas do novo disco, traçando o estado de espírito e as direções do leme emocional da artista. São sentimentos que se alternam e se sucedem — os quais ela transforma em arte. Na faixa Love Has No Ending, Carly sublinha que viver “é uma bênção”. O disco termina em gargalhadas e festa em torno de um almoço de Ação de Graças, e da maneira mais positiva e desafiadora possível: “Se você acha que não consegue encarar o dia / Faça mesmo assim / Do jeito que puder”, aconselha em Do It Anyway.
Publicado em VEJA de 21 de agosto de 2026, edição nº 3009








