Denise Fraga celebra maturidade e raízes lusitanas: “Tentando entender quem eu sou”
'Livros Restantes' é o segundo filme protagonizado pela atriz em 2025
Denise Fraga teve um ano e tanto em 2025. A atriz de 61 anos viveu uma jornada dupla no teatro com as peças Eu de Você e O Que Só Sabemos Juntos — esta ao lado de Tony Ramos —, ambas em São Paulo, e protagonizou nos cinemas a dramédia Sonhar com Leões, sobre uma mulher em estado terminal que busca a possibilidade da eutanásia. Pouco tempo depois do lançamento de Sonhar com Leões, em 11 de setembro, Denise foi surpreendida com a notícia de que um outro filme que tinha gravado, Livros Restantes, chegaria aos cinemas exatos três meses depois, em 11 de dezembro de 2025.
Quando procurada pela diretora Marcia Paraiso, Denise rapidamente deu um jeito de encaixar novas filmagens na rotina atribulada para viver Ana Catarina, uma mulher que chega à maturidade com planos grandiosos. Após uma vida lecionando para crianças e vivendo unicamente na Barra da Lagoa, em Florianópolis, perto de sua mãe e do ex-marido, ela decide largar tudo e ir morar em Portugal sozinha. Leitora assídua, ela se desfaz de toda sua estante antes da mudança, deixando consigo apenas 5 livros que ganhou de pessoas especiais ao longo de sua vida. Para se despedir, ela resolve devolver os livros para aqueles que a presentearam, como forma de relembrar o passado e abrir caminhos para o futuro.
O filme, que já está em cartaz nos cinemas, mostra uma mulher buscando autoconhecimento no auge de seus 50 e poucos anos. Denise, que já vinha refletindo sobre a finitude da vida desde Sonhar com Leões, identificou-se de cara com o novo projeto. “A Ana Catarina quer entender quem ela é. Esse movimento faz parte da complexidade feminina, e eu ando também tentando entender quem eu sou”, revela à VEJA. Para além da identificação com o roteiro, o cenário em Portugal — que também ambienta o antecessor Sonhar com Leões — lembra a atriz da própria infância e das suas raízes familiares. Confira, a seguir, a conversa de VEJA com Denise Fraga sobre Livros Restantes, seu novo filme.
A senhora protagonizou dois filmes neste ano, com lançamentos próximos e que são resultado de uma parceria luso-brasileira. Como embarcou nesses projetos? Na verdade, a minha parceria com Portugal veio no meio da pandemia com um convite para um outro filme que eu fiz lá, anterior ao Sonhar com Leões, que foi Índia, do Telmo Churro, um filme muito bonito. Eles chegaram a mim pesquisando atrizes, mas o que bateu o martelo foi o Horas em Casa, um programa que eu fiz durante a pandemia no YouTube, em casa. Fizemos eu, o Luiz Villaça, meu marido e cineasta, e meu filho Pedro, também formado em cinema. A gente fez por pura angústia na época da pandemia, era um programa sem dinheiro, que a gente achou que não ia dar em nada. Fizemos 27 episódios durante o ano de 2020 e eles lá em Portugal viram. Quando eu estava filmando o Sonhar com Leões, a Marcia Paraiso [diretora de Livros Restantes] me ligou para fazer um filme de uma mulher que vai para Portugal. Eu achei aquilo muito curioso, esse Portugal na minha vida me chamando.
Existe alguma relação sua com Portugal para além do trabalho? Eu tenho ascendência portuguesa, a grande casa da minha infância era a casa da minha bisavó portuguesa. Eu fui criada por essa mulher e ela tinha um sotaque. A filha dela era casada com o meu tio, que também era português e tinha sotaque. O meu avô, que casou com a filha dela, minha avó, também era português e tinha sotaque. Ou seja, eu fui criada numa casa que tinha sotaque português. Até hoje eu tenho expressões no falar que os meus filhos caçoam de mim. São expressões que até hoje ficaram encrustadas em mim por causa da minha infância, às vezes eu uso um pronome de uma maneira aportuguesada por causa disso. E o que aconteceu de muito curioso é que quando eu cheguei lá para filmar Índia, eu era a única brasileira e nunca tinha estado com os portugueses. E de repente aquilo me deu uma nostalgia dessa casa, da minha infância, daquelas pessoas que eu estava acostumada a ouvir. Recuperou em mim um negócio muito louco, raiz mesmo. Eu vejo que eu tenho uma raiz lusitana, tenho alma lusitana em algum lugar.
Como foi para você trabalhar com atores, diretores e produtores que compartilham de uma outra bagagem cultural? Foi muito bom filmar lá. Eu saí de lá chamando eles de ‘cinemistas’. Eu fiquei muito impressionada, principalmente no Índia e no Sonhar com Leões , sobre como eles têm uma maneira de produção enxuta. A equipe é menor, mas não é porque um diretor fez um longa que ele não faz mais um curta. Não é porque eu já dirigi três filmes que eu não vou ser continuísta no filme do meu amigo. Eles trabalham em várias funções em vários filmes. Isso é muito bonito porque, na verdade, eles criam uma rotatividade de trabalho e produção para eles mesmos.
O que a atraiu a Livros Restantes? Eu fiquei completamente tocada com o filme porque ele fala de uma pessoa que se reinaugura aos 50+. Então quem acha que já deu, que não dá mais tempo, esse é um filme que fala que dá tempo. Dá tempo de você pegar a rédea da sua vida e colocar no eixo que você quer. Além de tudo isso, ele faz essa homenagem à literatura que é linda. O plot do filme eu acho uma beleza. Quando ela resolve ir atrás dessas pessoas que escreveram suas dedicatórias, ela constrói meio que um quebra-cabeça de si mesma, em que ela descobre quem ela foi, quem ela ainda é e o que ela ainda pode ser, para só assim ela seguir em frente.
Esse é um filme que retrata a maturidade, mas uma maturidade que não está necessariamente associada à velhice ou à menopausa. O que isso representa para a senhora enquanto atriz e mulher? Eu fiz bastante cinema na minha vida, mas eu tenho feito mais cinema depois de velha, e, principalmente, protagonistas. E aí eu fico pensando: ‘Nossa, que sorte’. Mas eu comecei a achar que não é só sorte. Esse é o segundo filme que eu lanço como protagonista este ano. Ano que vem eu vou filmar mais dois como protagonista. Não é só sorte, o fato é que as mulheres estão mais protagonistas em suas vidas. As mulheres 50+ hoje estão mais na pista, digamos assim. A gente precisa contar essas histórias. E ter filmado com a Marcia, que é mulher, não é uma questão de sororidade, de simplesmente falar dessa invisibilidade feminina. O fato de estarmos protagonizando mais filmes, nós, atrizes, mais velhas, é porque as mulheres mais velhas estão aí. Quem achava que elas estavam na época de se aposentar e cuidar dos netos, elas estão indo para a balada com os filhos. É uma tendência dupla, de ter protagonistas no cinema por conta desse empoderamento 50+, mas também porque isso já está acontecendo na vida.
E qual a sua relação pessoal com livros? Eu sempre li, mas como qualquer um de nós, eu tenho tido que me esforçar para ler porque o celular é um demônio na vida da gente. A nossa atenção foi dinamitada pelo uso do digital. Eu lia mais do que eu tenho lido, a pilha em cima da minha mesa cresce com os livros que eu quero ler, mas eu sempre li. Eu tenho livros que foram fundamentais na minha vida e autores que foram meus companheiros de desespero, poetas que me ensinaram a viver melhor por me darem a língua, na boca, nos olhos, a possibilidade de pensar naquele conto da Clarice, naquele poema do Drummond, do Walter Hugo Mãe, do Machado [de Assis], autores que me fortaleceram como pessoa. Eu acho que a arte, de uma maneira geral, fortalece a tua capacidade de compreensão da imperfeição humana, por isso ela te ajuda a viver, a ser menos ranzinza, a ser menos egocêntrico. A lucidez não nos livra dos dramas, mas ela ajuda a gente a transitar por eles. E eu acho que, no filme, a Marcia faz uma coisa muito linda, porque ela conta quem são esses personagens por meio do livro que eles dão para Ana Catarina e pelo que eles escrevem na dedicatória. E a Ana Catarina recupera aquele autor junto com aquele amigo ou amiga para entender-se, entender o que ela foi e o que ela não é mais.
O filme lhe trouxe alguma reflexão pessoal? Eu ando tentando entender quem eu sou, assim como a Ana Catarina. Tenho pensado muito sobre como eu quero viver o resto da minha vida. Eu fiz 60 anos, minha mãe morreu no mesmo ano. Eu fiz o Sonhar com Leões, que é um filme que fala de finitude, enquanto atravessava toda a decadência física da minha mãe. Eu não tinha como não pensar na vida. Fiz o Sonhar com Leões e em seguida o Livros Restantes. E a Marcia me conta que vai lançar o filme agora, quando eu tinha acabado de lançar o Sonhar com Leões. Ou seja, 2025 é um ano na minha vida que eu falo: “Meu Deus, o que estão querendo me dizer?”. Os personagens não chegam para a gente à toa. Parece que um ator é uma espécie de antena aberta, poros abertos para si, para o seu autoconhecimento, para conseguir, através desse autoconhecimento, ser espelho para o outro. Os atores são uma espécie de espelho da humanidade. É isso que a gente tenta ser.
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