De Pedro Sampaio ao k-pop: por que os hits das paradas estão encolhendo
A influência das redes é marcante — ironicamente, voltando à duração dos tempos do compacto de vinil
Quando os oito indicados a artista revelação se reuniram para apresentação conjunta no palco do Grammy 2026, cada um foi desafiado a condensar seu maior hit em cerca de 2 minutos de cantoria, para que assim evitassem a morosidade de um show de talentos. Nenhum deles, contudo, teve de cortar muito material. As seis integrantes do grupo Katseye, em particular, nem tinham motivo de preocupação. Criadas em laboratório pela gravadora Universal com a empresa Hybe, gigante do k-pop, elas optaram por cantar Gnarly, uma faixa barulhenta e nada coesa que sugere que todas as coisas do mundo — de frango frito aos carros da marca Tesla — podem ser descritas pela palavra-título. Para se transformar em hit no TikTok, a canção precisou do carisma das garotas, de uma coreografia reprodutível e da brevidade: dura apenas 2min17seg, que nas redes sociais costumam ser reduzidos mais ainda para musicar vídeos diversos. Mais que exemplo da vacuidade da música comercial, porém, as jovens são sintoma da transformação em curso no mercado fonográfico. Dos fazedores de hits do Carnaval brasileiro, como o DJ Pedro Sampaio, a astros do pop global, como The Weeknd e Bruno Mars, hoje menos é mais quando se fala em duração de uma faixa de sucesso.
O fenômeno não é exatamente inédito. Nos tempos da brilhantina, era difícil esperar que um hit excedesse 3 minutos — mas por limitação física dos vinis. Inventados em 1949, os compactos simples suportavam faixas de até 5 minutos. A rapidez também agradava às estações de rádios, que conseguiam preencher as horas com mais intervalos comerciais entre canções. A concisão chegou ao auge em 1960, quando o grupo de doo-wop Maurice Williams & The Zodiacs preencheu o formato com os meros 98 segundos do single Stay, até hoje o hit mais curto a liderar a Hot 100 nos Estados Unidos.
A trajetória da maior banda do período, os Beatles, ilustra as mudanças dramáticas que vieram nos anos 1960: eles foram da brevíssima I Want to Hold Your Hand (2min26s), em 1964, à extensa Hey Jude. Lançado em 1968, o single tinha 7 minutos. Aos poucos, os long plays (LPs) começaram a ganhar espaço, ampliando as possibilidades de expressão artística. Com as vendas em alta, eles passaram a servir de veículo para viagens sonoras ambiciosas.
Longas suítes musicais brotaram entre o final dos anos 60 e o início da década de 70. Dinossauros progressivos elevaram a história ao ponto máximo, criando álbuns conceituais. Os ingleses do Yes, por exemplo, lançaram em 1973 o disco duplo Tales from Topographic Oceans, contendo apenas quatro faixas, cada uma delas ocupando um lado do vinil. Ainda que não chegassem ao topo das paradas, esses trabalhos prepararam terreno para a era de ouro dos hits longos. É o caso de Bohemian Rhapsody, do Queen, que virou fenômeno em 1975 com seus quase 6 minutos. Logo depois, em 1978, foi possível dançar ao som dos 8 minutos de I Will Survive, de Gloria Gaynor.
Pelas décadas seguintes, a evolução tecnológica estimulou o domínio de hits de duração portentosa. Com o advento da MTV, as longas introduções viraram moda. Michael Jackson emplacou três versões de Thriller, indo do single compacto (4min40s) ao célebre videoclipe (13min42s). Com a chegada dos CDs, no fim do século XX, o céu parecia ser o limite para a experimentação com músicas acima dos 4 minutos. Mas aí surgiram os smartphones e o iTunes — e o jogo começou a virar.
Hoje, o zeitgeist é regido pelo streaming e pelas redes sociais, fatores que diminuem a capacidade de atenção dos mais jovens. Ironicamente, o comportamento deles fez os hits caminharem de novo para a curta duração que tinham lá nos idos do limitado compacto de vinil. Para serviços como o Spotify, isso é um sonho de consumo: músicas curtas podem ser ouvidas mais vezes e o sucesso cresce caso uma faixa esteja ligada a tendências virais velozes.
Em 2021, analistas avaliaram 211 000 faixas lançadas no século XXI e observaram que seu tempo médio caiu dramaticamente desde a primeira metade dos anos 2010. Nesse cenário, foram alçados à fama nomes como Lil Nas X, de Old Town Road (2019). O rapper cresceu graças a memes que produzia no TikTok, estimulando seu público a vestir trajes de cowboy em vídeos de menos de 1 minuto. De post em post, foi parar no topo da Hot 100 por dezenove semanas.
Fã de Nas X, o brasileiro Pedro Sampaio também prioriza as batidas e raramente se alonga por mais de 3 minutos, receita que lhe garantiu o maior hit do Brasil no momento: Jetski, cantado por uma figura viral constante da última década, a precoce Melody. Sampaio elenca três elementos do sucesso: a alegria, um refrão chiclete e uma coreografia. “Sou um artista comercial e amo isso”, diz. Que seja bom enquanto a música dure.
Publicado em VEJA de 20 de fevereiro de 2026, edição nº 2983





