De Esopo à nova animação da Pixar: por que as fábulas se renovam – e nunca deixam de fascinar
Filme usa um mote que vem desde a Antiguidade: as histórias que usam animais para expor as mazelas humanas
Deslumbrado com a folhagem ao redor e a cacofonia da biodiversidade, um castor corre pela floresta em êxtase, até se ver diante de uma cena aterrorizante: uma ursa abocanha outro roedor indefeso, que pouco faz para se defender. Em breve, a cadeia alimentar mostrará sua lógica dura, mas inevitável, e aquela fofa criatura será devorada. Mas, ao testemunhar o lance que sintetiza a vida como ela é na natureza, o castor resolve interferir na ordem das coisas, constrangendo tanto a presa quanto o predador. Eles então perguntam em uníssono: “Por quê?”.
O espanto do intruso entrega por que ele é um estranho no ninho ali. O tal castor não é feito de carne e osso, e sim de aço: é, na verdade, um robô altamente realista que, por um milagre da tecnologia à la Avatar, carrega a consciência da garota Mabel, universitária alienada da humanidade e fascinada pelo reino animal, que quer protegê-lo contra investidas da urbanização. Na animação Cara de Um, Focinho de Outro (Hoppers, Estados Unidos, 2026), já em cartaz nos cinemas, essa é apenas uma das lições que a jovem terá de aprender numa jornada leve e irresistível, como se espera das criações da Pixar.
Mas, assim como as melhores dessas produções — vide os conceitos sobre as emoções humanas tratados no sucesso Divertida Mente e sua continuação —, o novo filme do estúdio apresenta algo de mais profundo e relevante por baixo de seu colorido. Com sua mensagem sobre a relação do homem com o meio ambiente, Cara de Um, Focinho de Outro atesta como as tramas de hoje estão reinventando com brilho uma forma narrativa tão antiga quanto essencial: a fábula. No senso estrito, o gênero diz respeito a histórias morais nas quais os animais são personagens usados para traduzir as mazelas e os comportamentos reprováveis dos seres humanos, expondo sua arrogância e soberba — a garota que quer se passar por um castor para “consertar” a natureza que o diga. “Ela aprende, por exemplo, que ver o bem nas pessoas não faz mal”, disse a VEJA o diretor Daniel Chong (leia a entrevista).
Com um quê de ficção científica descontraída, o filme da Pixar engrossa uma tradição que vem desde a Antiguidade. Popularizadas pelo grego Esopo (620 a.C.-564 a.C.) e registradas por escrito séculos mais tarde, as fábulas sempre foram utilizadas para educar crianças — que aprendem a importância do trabalho graças a A Cigarra e a Formiga, ou o perigo da arrogância por meio de A Lebre e a Tartaruga. Com o passar do tempo, o formato se tornou mais rebuscado e deu origem a romances extensos — que, mais que alertas genéricos, espelham agruras sociopolíticas.
Nos anos 1920, o escritor austríaco Felix Salten publicou Bambi, sobre um cervo que sobrevive à brutalidade da selva e aos ataques de humanos. Anos mais tarde, o livro foi banido e queimado por autoridades nazistas na Alemanha, que enxergaram na trama críticas ao antissemitismo. A obra ganhou uma adaptação animada clássica da Disney em 1942 — três anos antes do surgimento de outra fábula potente, A Revolução dos Bichos, publicada por George Orwell (1903-1950) como denúncia dos perigos do regime totalitário de Josef Stalin na União Soviética. Olhando para as diferentes espécies reunidas em uma fazenda, o genial escritor inglês teceu uma metáfora que transformou porcos em guerrilheiros e imortalizou o chavão: “Todos os animais são iguais, mas alguns são mais iguais que outros”. Em 2026, o diretor Andy Serkis levará a história às telas novamente, com elenco de peso na dublagem americana — que inclui as vozes de Seth Rogen, Woody Harrelson e Glenn Close. O trailer da produção, porém, mais investe em piadas escatológicas que na alegoria política. Em razão disso, tem sido duramente criticado nas redes sociais antes do lançamento, em maio.
Hoje, o sucesso é maior quando essas histórias não têm de fazer jus a clássicos. A franquia Zootopia, que tece paralelos ao racismo com seus personagens de quatro patas, já arrecadou mais de 2,8 bilhões de dólares ao redor do globo, enquanto o encantador longa Okja (2017), do diretor sul-coreano Bong Joon-Ho, conquistou fãs com seu libelo contra os maus-tratos aos animais. Cara de Um, Focinho de Outro já é o maior sucesso de crítica da Pixar desde Viva — A Vida é uma Festa (2017) e especialistas preveem a melhor bilheteria do estúdio desde Divertida Mente 2 (2024). Se assim for, será mais uma prova do fascínio sem fim despertado pelas fábulas.
“Ver o bem nas pessoas não faz mal”
Em entrevista a VEJA, o diretor Daniel Chong detalha as mensagens morais de Cara de Um, Focinho de Outro:
Por que se interessou por castores? Queria fazer um filme com pinguins, mas o chefe da Pixar, Pete Docter, achou que eles estavam batidos. Pesquisando, descobri que os castores são incríveis, peças-chave de seu ecossistema. Eles criam represas, acolhem a biodiversidade e coexistem com várias espécies. São uma boa metáfora sobre a persistência da natureza — e são adoráveis.
A protagonista se sente mais conectada aos animais que à humanidade. O que a jornada dela diz sobre nossos tempos? Mabel está no lado extremo do cinismo, mas o castor-rei que encontra é o oposto. Ele tem fé na humanidade, o que ela acha ingênuo — assim como boa parte do público. Mas Mabel aprende que ver o bem nas pessoas não faz mal. A jornada a faz ter esperança sobre segundas chances.
O que o fez olhar para a cadeia alimentar com humor? É culpa da minha geração: os filmes infantis eram um pouco malucos, como Gremlins e Os Fantasmas Se Divertem.
Publicado em VEJA de 6 de março de 2026, edição nº 2985





