De Britney a Gil: o que move mercado milionário da venda de catálogos musicais
Mercado se tornou um negócio lucrativo e que diz muito sobre as mudanças dessa indústria na era digital
Aos 16 anos, no fim da década de 1990, Britney Spears estourou mundialmente com o hit …Baby One More Time. A música pavimentou uma carreira de sucesso, que rendeu a ela o apelido de “princesinha do pop”. Hoje, aos 44 e afastada dos palcos, a cantora tomou uma decisão típica de quem percebe que o melhor da carreira passou e os boletos não vão parar de chegar: vendeu os poderes sobre todo seu catálogo musical, que contabiliza mais de 150 milhões de discos comercializados e nove álbuns, para a Primary Wave, gigante americana especializada na gestão de direitos musicais e que hoje controla um portfólio de 5 bilhões de dólares, incluindo os acervos de Prince, Bob Marley, Whitney Houston e Stevie Nicks.
Anunciado há algumas semanas e estimado em 200 milhões de dólares, o negócio com Britney é o exemplo mais recente de uma tendência que ganhou relevo nos últimos anos: o comércio lucrativo de catálogos musicais para empresas que assumem a gestão do legado de artistas — e os rendimentos futuros da obra adquirida — mediante contratos multimilionários. A estratégia ganhou força em uma indústria cada vez mais digital e segmentada, em que a música deixou de ser uma mídia restrita às rádios e passou a exigir uma divulgação multiplataforma complexa, com estratégias voltadas para as redes sociais e acordos com os streamings.
Nesse cenário, nomes como Justin Bieber, Bruce Springsteen e Bob Dylan venderam seus catálogos não apenas visando à liquidez financeira, mas também a uma gestão especializada do próprio legado sob a nova lógica de consumo. Consolidada lá fora, com transações como a de Springsteen com a Sony Music ultrapassando os 500 milhões de dólares, a estratégia também ganhou fôlego no Brasil: nos últimos três anos, o Nas Nuvens Music Group, uma das principais empresas brasileiras do ramo, passou de 35 para 85 catálogos graças a uma sociedade com a Primary Wave. A transação mais recente foi a aquisição de parte dos direitos de Gilberto Gil, que não teve valores divulgados. “Nosso objetivo é trabalhar na internacionalização desse catálogo, que tem espaço para crescer fora do país”, diz Ricardo Queirós, diretor artístico da empresa.
A compra e venda de um catálogo pode acontecer em diversos formatos. Entre as possibilidades estão as cessões parciais da arrecadação sobre reproduções das músicas e os direitos de licenciamentos em plataformas de streaming, além do uso em novelas, filmes, séries e publicidade. No mais abrangente deles, todos os direitos patrimoniais relacionados à obra são adquiridos, com o valor pago ao artista calculado com base em uma projeção dos ganhos que ele receberia no longo prazo, eliminando o risco das flutuações do mercado musical. Para o advogado Scott Rocco Dezorzi, especialista em propriedade intelectual, o negócio troca a renda futura por liquidez imediata. “O artista continua sendo autor, mas negocia a exploração econômica da música”, explica.
A estratégia, porém, não agrada a todos os artistas. É clássica a batalha de Paul McCartney para recuperar, em 2017, parte dos direitos da discografia dos Beatles — que haviam sido comprados por Michael Jackson em 1985 e, mais tarde, vendidos à Sony. Recentemente, a poderosa Taylor Swift comprou os direitos de reprodução de seus primeiros álbuns, as chamadas masters das gravações em estúdio, por 360 milhões de dólares, após longa batalha para ser “dona do trabalho da sua vida” — o acervo havia sido vendido à sua revelia pela antiga gravadora para o produtor Scooter Brown. A estratégia também foi adotada por Dua Lipa, que adquiriu suas masters buscando maior autonomia e poder de decisão sobre a carreira.
A diferença de visões nesse tópico é clara: enquanto alguns artistas preferem usufruir em vida os valores que suas músicas só renderiam ao longo de décadas, outros não abrem mão do idealismo e do controle sobre o trabalho. No meio do caminho, há aqueles que expressam algum desconforto por terem vendido seus direitos. A cantora Stevie Nicks, da lendária banda Fleetwood Mac, já declarou que abriu mão de 80% de seu catálogo, por 100 milhões de dólares, porque estava sob o impacto da pandemia, e hoje não sabe se faria o mesmo. Cada legado tem seu preço — mas às vezes nem uma montanha de dólares faz um artista desapegar de seus hits.
Publicado em VEJA de 13 de março de 2026, edição nº 2986





