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Como Dua Lipa se tornou a cantora empoderada do momento

A estrela exótica, que lança seu segundo disco, superou a história familiar marcada pela guerra no Kosovo para dominar as paradas

Por Amanda Capuano Atualizado em 3 abr 2020, 12h12 - Publicado em 3 abr 2020, 06h00

A língua albanesa é um mistério que até hoje intriga os estudiosos. Falada por não mais que 5 milhões de pessoas em uma faixa diminuta dos Bálcãs, ela tem origem controversa e sua gramática peculiar desafia estrangeiros que se propõem a aprendê-la. De modo compreensível, a menina filha de refugiados do Kosovo abominava seu nome, típico dessa região de raízes albanesas, durante os tempos de infância em Londres — para onde os pais se mudaram em fuga da sangrenta guerra que arrasou seu país nos anos 90. “Eu queria me chamar Hannah, Sarah, Ella, ou qualquer outra coisa normal”, declararia mais tarde. A moça mudou de ideia quando, já crescida, percebeu que seu nome exótico caía com perfeição para uma cantora pop: Dua Lipa.

Aos 24 anos, Dua — que em albanês significa “amor” — é um nome que está na boca do povo atualmente. A cantora ostenta números de gente graúda na internet: 12,8 milhões de inscritos no YouTube, 41 milhões de seguidores no Instagram e 55 milhões de ouvintes mensais no Spotify. Seu álbum de estreia, lançado em 2017 e batizado simplesmente com seu nome, vendeu mais de 4 milhões de cópias no mundo todo e é o disco feminino mais reproduzido na história do Spotify — só o hit New Rules foi tocado mais de 1,3 bilhão de vezes. Agora, com o recém-lançado Future Nostalgia, seu segundo trabalho, Dua Lipa prova que o sucesso que alcançou tão rapidamente não era fogo de palha. Ouvido 3,6 milhões de vezes somente no Brasil, o novo disco atesta o poder de sua mistura de letras em tom fortemente pessoal com levadas dançantes de pop, eletrônica e R&B.

  • Não é à toa que a cantora é vista, entre as similares de sua geração, como alguém com potencial para se tornar a próxima Lady Gaga ou, quem sabe, uma Madonna. Para além do vozeirão grave e da beleza imponente, realçada pelo porte longilíneo (ela tem 1,73 metro), Dua Lipa exibe uma credencial valiosa para que aquelas antecessoras chegassem aonde chegaram: desde cedo, mostrou que sabe bem o que quer da vida e da carreira. Ela investe em letras e refrões empoderados, coisa que virou quase um modo default das jovens estrelas do pop atual. Mas, embora se diga feminista, não usa seu gogó para entoar os mantras de praxe da militância — como é do feitio, por exemplo, de Taylor Swift.

    Dua Lipa recorre à ironia ácida e ao humor debochado para mandar o recado de que não está nem aí para o que os outros acham de seu jeito de ser — incluindo os namoradinhos “tóxicos” que passaram por sua fila. Em Don’t Start Now, carro-chefe do novo álbum, ela proclama: “Se você não quer me ver dançando com alguém / Se você prefere acreditar que algo pode me parar / Não apareça, não saia de casa”. Garota segura de si é isso aí.

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    Dua Lipa tem revelado uma consciência rara sobre a responsabilidade que vem junto com o poder de espalhar mensagens para milhões. Já se mostrou incomodada com o fato de que muitas fãs se baseiam em letras nas quais ela se referia a relacionamentos específicos para fazer um ataque geral à masculinidade. “Me desculpem. Eu criei monstros”, disse ao jornal inglês The Guardian. A morena dos Bálcãs impressiona, sobretudo, pela firmeza com que conduz sua tenra trajetória musical. “É um trabalho que exige 24 horas de dedicação”, costuma afirmar.

    A vida dura numa família de refugiados ajudou nesse processo de empoderamento. A saga do clã é um resumo das atribulações étnicas e políticas naquela parte do mundo. Seu avô era um eminente historiador do Kosovo que, com a invasão do país pelos vizinhos sérvios na guerra da década de 90, se negou a reescrever seus livros de acordo com a versão do inimigo. O pai, Dukagjin Lipa, chegou a ter certa projeção como vocalista de uma banda de rock quando o conflito o obrigou a emigrar para a Inglaterra com a mulher. Dua nasceu no exílio, mas manteve laços com a cultura do Kosovo — que, apesar de ter pertencido à antiga Iugoslávia, é país-irmão da contígua Albânia. Os pais falavam albanês dentro de casa, enquanto sobreviviam trabalhando como garçons em bares e restaurantes. Quando a guerra acabou, a família decidiu retornar para o Kosovo. Não demorou muito, porém, para que a menina comunicasse sua decisão de voltar sozinha para Londres. Aos 14 anos, ela já tinha clareza: queria ser cantora pop. Ninguém segura a estrela dos Bálcãs.

    Publicado em VEJA de 8 de abril de 2020, edição nº 2681

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