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Como Bad Bunny se tornou o maior algoz de Trump – e reinventou o ativismo na arte

Ao atacar o presidente e celebrar a latinidade no Super Bowl, o cantor mostrou poder na era da polarização e das redes

Por Amanda Capuano Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 13 fev 2026, 06h00 • Atualizado em 13 fev 2026, 14h25
  • No domingo 8, Donald Trump sofreu um dos ataques políticos mais dolorosos de seu segundo mandato até agora — e a investida não veio da oposição democrata, nem de inimigos como Rússia e China. O algoz do presidente americano foi Benito Antonio Martínez Ocasio, porto-riquenho de 31 anos, mais conhecido globalmente pela alcunha artística de Bad Bunny. Em seu aguardado show no intervalo do Super Bowl, evento esportivo mais importante dos Estados Unidos, o astro do reggaeton fez um contundente manifesto contra a política anti-imigratória de Trump e a truculência das forças do ICE, notórias por perseguir e capturar estrangeiros ilegais e até cidadãos americanos que se opõem à sua brutalidade, como o enfermeiro Alex Pretti, cuja morte recente causou revolta em Minneapolis.

    No palco, Bad Bunny tomou para si uma frase repetida à exaustão na terra do Tio Sam. “Deus abençoe a América”, disparou, fazendo a seguir uma exaltação da cultura e da identidade dos cidadãos de origem latino-americana como ele — alvos primordiais das deportações de Trump. Elencou os nomes dos países do continente americano e ocupou o gramado com as bandeiras deles. “Ainda estamos aqui”, disse o pop star ao final da apresentação, mandando um recado óbvio — mas sem citar Trump. Horas depois, o presidente acusou o golpe. “Isso é uma afronta à grandeza dos Estados Unidos”, postou nas redes, denunciando que Bad Bunny teria dado “um tapa na cara” de seu país.

    arte Bad Bunny

    O incômodo de Trump, homem que concentra o maior poder do mundo na condição de presidente dos Estados Unidos, atesta a força de uma tradição singular: a capacidade da arte de influir nos desígnios da política, ao galvanizar corações e mentes com mensagens de protesto e ativismo em prol de causas coletivas. Músicos, atores, escritores e outros expoentes provaram, ao longo da história, que podem ser decisivos para influenciar os humores da opinião pública de um país, dos Estados Unidos ao Brasil.

    Raras vezes um artista teve tanto poder de fogo nesse sentido quanto Bad Bunny. Ele foi o músico mais ouvido do mundo em 2025, com quase 20 bilhões de reproduções no Spotify. Há poucas semanas, protagonizou um feito histórico: tornou-se o primeiro artista a conquistar o Grammy de álbum do ano com um trabalho cantado em espanhol, o álbum Debí Tirar Más Fotos — e na cerimônia não perdeu a chance de fustigar Trump. Com seu estilo de vida glamouroso, típico dos ídolos do reggateon, gênero que une o rap aos ritmos latinos, angariou uma legião de seguidores pelo mundo — 128,2 milhões de espectadores viram o show no Super Bowl. O sucesso vai além das fronteiras americanas: as duas apresentações que fará em São Paulo no estádio do Allianz Parque, no sábado 20 e no domingo 21, estão com seus cerca de 90 000 ingressos quase esgotados.

    PIONEIRO - No Grammy: trabalho do cantor é o primeiro integralmente em espanhol a levar estatueta de álbum do ano na premiação
    PIONEIRO – No Grammy: trabalho do cantor é o primeiro integralmente em espanhol a levar estatueta de álbum do ano na premiação (Emma McIntyre/Getty Images)
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    Nascido e criado em Porto Rico, território sem o status de ente federativo dos Estados Unidos, Bad Bunny triunfou no sonho da ascensão latina que tantos imigrantes almejam nos Estados Unidos — e faz questão de manter laços com a comunidade. Meses antes do anunciado espetáculo no Super Bowl, ele se negou a sair em turnê pelo país sob justificativa humanitária: não queria que os shows fossem um chamariz capaz de tornar os fãs hispânicos presas fáceis para a captura pelo ICE.

    Com tal postura, ele obviamente se tornou um herói para os latinos. O que agora se revela um problema para o partido do presidente: os republicanos temem que o embate com Bad Bunny os leve a perder as eleições de meio de mandato deste ano. O temor faz sentido: segundo dados do Pew Research Center, a população latina nos Estados Unidos chegou a 20% do contingente total em 2024, fazendo do grupo uma peça-chave para qualquer eleição. Não à toa, eles foram essenciais para a vitória de Trump, que conquistou 48% dos votos do segmento na eleição do segundo mandato. O avanço das políticas anti-imigração, no entanto, criou um contingente de eleitores arrependidos e aumentou a desaprovação do republicano entre os latinos para 70%, aponta a pesquisa mais recente do Pew Research.

    Em outros momentos da história, o ativismo político nas artes também constrangeu poderosos. Os Estados Unidos fornecem exemplos eloquentes disso. Foi assim nos anos 1950 e no início dos 60, quando a luta pelos direitos civis mobilizou grandes artistas. Músicas como We Shall Overcome e Mississippi Goddam, da cantora Nina Simone, viraram libelos contra o racismo, abrindo caminho para que Bob Dylan e John Lennon protestassem mais adiante contra a Guerra do Vietnã, no final da década e virada dos anos 1970, com canções emblemáticas — ou para que, na mesma época, Jimi Hendrix chocasse ao tocar o hino americano com sua guitarra, simulando sons de bombas e ataques aéreos, no festival de Woodstock. Já no início da década de 2000, a invasão do Iraque promovida pelo governo de George W. Bush provocou reações de músicos como os roqueiros do Green Day — curiosamente, o mesmo hit deles na época, American Idiot, hoje é resgatado como hino anti-Trump. No Brasil, o protesto musical atingiu o auge na ditadura militar, quando nomes como Geraldo Vandré, Chico Buarque, Caetano Veloso e Gilberto Gil driblaram a censura para denunciar o regime.

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    O mundo em que Bad Bunny impõe seu ativismo, porém, é outro. O ambiente de animosidade alimentado pela polarização política nas redes sociais criou uma algaravia em que quem grita mais alto tem mais impacto — e isso não é diferente na seara dos artistas. Eles são peças fundamentais na chamada guerra cultural, o embate entre visões de mundo, valores e narrativas que opõe esquerda e direita. Em meio a essa batalha, tomar posições se tornou um negócio arriscado para muitos artistas: uma coisa era protestar pela paz nos tempos da Guerra do Vietnã, algo que conquistou apoio quase unânime na sociedade; outra é se posicionar contra governos populistas de viés autoritário, mas com base sólida entre os eleitores, como o de Trump.

    EM CAMPANHA - A dupla Wagner Moura e Kleber Mendonça Filho (acima), Pedro Pascal (abaixo, à esq.) e Rachel Zegler: novos rostos do proselitismo de esquerda
    EM CAMPANHA - A dupla Wagner Moura e Kleber Mendonça Filho (acima), Pedro Pascal (abaixo, à esq.) e Rachel Zegler: novos rostos do proselitismo de esquerda (Gareth Cattermole/Getty Images; S.Cardinale/Corbis/Getty Images; Marsha Bernstein/WWD/Getty Images)

    O resultado é que, assim como ocorre na sociedade em geral, a classe artística se divide entre diferentes fronts nessa batalha (confira o quadro). Além do onipresente Bad Bunny, há uma brigada estridente de celebridades da música e de Hollywood entrincheiradas no combate às ideias do presidente. Entre os notórios defensores dessa cartilha estão desde uma jovem cantora como Billie Eilish, que fez coro com Bad Bunny na denúncia contra o ICE durante o Gram­my, a um veterano da música (e do engajamento político) como Bruce Springsteen. Que, como de praxe, foi rápido no gatilho: mal os Estados Unidos viveram a comoção com as mortes de ativistas americanos pela polícia imigratória, lançou a canção de protesto Streets of Minneapolis.

    Na outra ponta do espectro político, à direita, também há artistas famosos ávidos para sair em defesa de Trump e das bandeiras conservadoras. São figuras como Nicki Minaj, rapper de origem latina (ela é de Trinidad e Tobago) que já acusou seus colegas de esquerda de satanismo e adora posar com Trump. O mandatário conta também com suporte maciço dos representantes de um gênero popular no país, a country music — mais ou menos como boa parte dos sertanejos não esconde seu pendor pelo bolsonarismo no Brasil. Carrie Underwood, uma das estrelas do ramo, cantou orgulhosamente na posse do republicano. Em Hollywood, vale lembrar, o apoio a Trump é baixo, mas não inexistente: suas políticas são defendidas por astros como Mel Gibson e Jim Caviezel — que, aliás, também é fã de Jair Bolsonaro e viverá o ex-presidente brasileiro no filme Dark Horse, concebido pelo ex-secretário de Cultura Mario Frias.

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    HISTÓRICOS - John Lennon com Yoko e Hendrix em Woodstock: ativismo pelo fim da guerra no Vietnã
    HISTÓRICOS – John Lennon com Yoko e Hendrix em Woodstock: ativismo pelo fim da guerra no Vietnã (Frank Barratt/Getty Images; Zumapress/Alamy/Fotoarena/.)

    O maior barulho do momento, no entanto, é feito pela turma da esquerda. Principais nomes do pop no país, Beyoncé e Taylor Swift fizeram campanha para a democrata Kamala Har­ris e já se posicionaram a favor de causas condenadas por Trump, como o feminismo, os direitos LGBTQIA+ e o combate ao racismo. Swift, inclusive, chegou a lançar uma canção anti-Trump em 2020, denominada Only the Young, e Beyoncé participou de um comício dos democratas em 2024. Recentemente, no entanto, em meio ao avanço da brutalidade do ICE e à escalada de violência em Gaza, ambas se mantiveram em silêncio, despertando acusações de oportunismo e críticas sobre a ausência de manifestações políticas em suas plataformas nas redes.

    De qualquer forma, um bom exemplo da medição de forças na guerra cultural americana se deu durante a apresentação histórica de Bad Bunny no Super Bowl. Enquanto ele celebrava o orgulho latino para mais de uma centena de milhão de pessoas ao redor do globo, Kid Rock, músico e apoiador ferrenho de Trump, tocava em um show alternativo para os “verdadeiros americanos”, nas palavras de seus organizadores. Batizada de All-American Halftime Show, a apresentação montada pela ONG Turning Point, fundada pelo ativista conservador Charlie Kirk — assassinado em setembro passado —, foi uma resposta à escalação de Bad Bunny pela NFL, liga nacional do futebol americano, e também contou com os músicos country Brantley Gilbert, Gabby Barrett e Lee Brice. No YouTube, teve um pico de 5 milhões de espectadores. É um número respeitável, mas passa longe da repercussão do empoderado concorrente porto-riquenho.

    À DIREITA - Mel Gibson e Jim Caviezel: apoio a Donald Trump e conservadorismo no cinema
    À DIREITA – Mel Gibson e Jim Caviezel: apoio a Donald Trump e conservadorismo no cinema (Steve Granitz/FilmMagic/Getty Images; @therealjimcaviezel/Instagram)
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    Uma parcela essencial dessa guerra entre os ativistas da arte não se dá em palcos de verdade, mas na arena que define nossos tempos: as redes sociais. Na campanha anti-Trump, atores como o chileno Pedro Pascal e a americana Rachel Zegler têm presença aguerrida nelas. No caso de Rachel, a postura rendeu um efeito colateral: a militância da atriz pôs a mais recente versão de Branca de Neve, que ela protagoniza, na mira dos conservadores. O fracasso do filme nas bilheterias foi comemorado por eles. Esse ativismo moderno é bem representado, ainda, pela dupla brasileira em evidência com o sucesso do filme O Agente Secreto: enquanto o diretor Kleber Mendonça Filho é uma voz para lá de ativa nas redes, Wagner Moura não perde uma oportunidade de expor críticas à direita brasileira em seu périplo rumo ao Oscar, de entrevistas a talk shows americanos ao seu discurso no Globo de Ouro.

    No caso dos Estados Unidos, há uma grande ironia no atual estágio da batalha cultural. O país tem uma comunidade de latinos estimada em 68 milhões de pessoas, público que, por motivos naturais, consome cada vez mais estrelas com sotaque hispânico, do mexicano Peso Pluma à colombiana Karol G — ambos com presença forte nas paradas americanas e cantando em espanhol. A dura política de Trump contra a imigração ilegal está transformando tais astros em grandes vozes de oposição. “Esses artistas usam ritmos como o reggaeton e o trap para protestar contra os abusos e a estigmatização”, diz o pesquisador Henry Durante, doutor em integração da América Latina pelo Prolam USP. Com novos atores, choques típicos dos tempos polarizados e a força das redes, o ativismo cultural voltou com mais força do que nunca.

    Publicado em VEJA de 13 de fevereiro de 2026, edição nº 2982

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