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Com 30 toneladas, mural de Diego Rivera é movido para museu

Em uma intricada e dificílima operação de quatro anos, 'Pan America Unity' foi transferido de uma universidade para o Museu de Arte Moderna de São Francisco

Por Tamara Nassif Atualizado em 24 jun 2021, 12h16 - Publicado em 24 jun 2021, 12h10

Em 1940, milhares de pessoas assistiram Diego Rivera, célebre pintor mexicano, dar vida a um afresco monumental formado por 10 painéis na Exposição Internacional Golden Gate, de São Francisco, na Califórnia. O mural Pan American Unity (“unidade pan-americana”), retrato de um continente interligado pela criatividade, iria se tornar a peça central de uma biblioteca na faculdade californiana City College, não fosse a Primeira Guerra Mundial no caminho. Por anos, a obra de arte de 30 toneladas, e 23 metros de largura por 6 metros de altura, ficou escondida em um galpão da instituição até parar, duas décadas depois, no saguão do teatro de lá, agora chamado Diego Rivera Theatre. Por décadas, a peça de dificílima locomoção esteve afastada do mundo da arte – até agora. Depois de uma operação de guerra, o mural passa a estampar o primeiro andar do Museu de Arte Moderna de São Francisco, em exibição a partir de 28 de junho.

“Esta é uma das coisas mais ambiciosas que este museu já fez: mover algo tão grande, tão frágil e tão importante”, disse Neal Benezra, o diretor do MoMA de São Francisco. O afresco, comparado a “uma casca de ovo de 21 metros”, deve permanecer no primeiro andar do museu até a exposição Diego Rivera’s America (a América de Diego Rivera, em tradução literal) ser inaugurada ano que vem, e, então, deve ser devolvido ao City College, em 2023, para integrar um novo centro de artes cênicas.

Painéis de 1 a 5 do afresco 'Pan America Unity', de Diego Rivera
Painéis de 1 a 5 do afresco ‘Pan America Unity’, de Diego Rivera City College of San Francisco/Divulgação

Formado por dez painéis, o afresco é um “caleidoscópio” dos pensamentos de Rivera. Estão presentes figuras como Coatlicue, deusa asteca da vida e da morte, artesãos mexicanos, operários americanos, líderes históricos do México e dos Estados Unidos, ele mesmo e sua esposa, a também célebre pintora Frida Kahlo. “Diego estava construindo uma ponte metafórica entre a cultura mexicana e a cultura tecnológica dos Estados Unidos”, explica ao The New York Times Will Maynez, o “guardião” de 74 anos do mural. Por anos, o Pan America Unity esteve sob os cuidados do ex-gerente do laboratório de física da faculdade, pesquisador de Diego Rivera de longa data e visitante assíduo do painel. Quase todos os dias da semana, desde que se aposentou nove anos atrás, ele se dirige ao City College para cuidar do mural sem remuneração. “Esse mural salvou a minha vida”, diz ele, que conseguiu superar o trauma de perder a esposa para o Alzheimer através do trabalho de conservação.

Foi em 2011 que ele decidiu dar o primeiro passo da operação de guerra que transportou o afresco para o MoMA de São Francisco. Querendo que mais pessoas pudessem visitá-lo, Maynez usou fundos de uma conta de Rivera na fundação da universidade, com aprovação dos administradores, para pagar um estudo sobre a viabilidade de mover o mural. A resposta de que custaria uma enorme quantia de dinheiro, e que seria uma empreitada quase impossível, não o desanimou: fez uma reunião com Neal Benezra, diretor do museu, e não foi preciso muito esforço para convencê-lo a topar o desafio.

O MoMA, então, entrou de cabeça no projeto e envolveu engenheiros do centro de design multidisciplinar da Universidad Nacional Autónoma do México, conhecido por tornar possível o impossível. Liderado pelo professor Alejandro Ramirez Reivich, o esquadrão da engenharia descobriu que o afresco, pintado em gesso com molduras de aço por Rivera, tinha sido embutido em uma parede de concreto através de pregos na parte de trás – uma fixação praticamente permanente, uma vez que qualquer tentativa de removê-lo com “métodos normais” colocaria a integridade da obra em risco. Sabendo que a maior ameaça ao mural seriam as vibrações, a equipe testou a remoção em maquetes, feitas por artistas universitários que usaram exatamente os mesmos materiais do pintor mexicano.

Os alunos construíram réplicas quase exatas de dois painéis, colocando e soldando parafusos nos mesmos locais, para determinar que tipo de ferramenta seria ideal para extrair o mural verdadeiro com o mínimo de vibrações possível. Em seguida, sacudiram, dobraram e martelaram as maquetes para aprender a resistência máxima dos materiais.

Foi esse ano que a equipe partiu para o desafio real. Usando fones de ouvidos para sincronizar os movimentos, os engenheiros torciam hastes roscadas em cima e embaixo do mural. Demorou duas horas para um painel, dos dez, se mover 15 centímetros. O trabalho foi finalizado só no mês passado – e um caminhão com amortecedores feitos sob medida, andando a 8km/h, finalmente entregou a peça ao museu, içada para o local em que está exibida. Confira abaixo um vídeo da operação:

Foram necessários incontáveis engenheiros mecânicos, arquitetos, historiadores da arte, especialistas em afrescos e manipuladores de arte, do México aos Estados Unidos, para pôr a operação multimilionária em funcionamento. Depois de quatro anos de trabalho, Pan America Unity agora pode ser visto por qualquer apreciador de arte moderna — que estiver de passagem por São Francisco.

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