Cillian Murphy, astro de Peaky Blinders e Oppenheimer, a VEJA: ‘A arte deve provocar’
Em entrevista exclusiva, ator fala sobre a vitória no Oscar e o desafio de manter a discrição pessoal em meio à fama
Cillian Murphy não era a escolha óbvia para dar vida a Thomas Shelby (Tommy, para os íntimos), o líder calculista da gangue que dá nome à série Peaky Blinders (2013-2022). Esguio, com 1,75 metro de altura e rosto anguloso, o ator irlandês estava ciente de sua desvantagem na disputa pelo papel — o favorito, então, era o inglês Jason Statham, ex-lutador com cara de mau e popular em franquias de ação como Velozes e Furiosos. Num rompante ousado, Murphy enviou uma mensagem sucinta ao criador do programa, Steven Knight: “Lembre-se, Steve, eu sou um ator”. Ou seja: era capaz de se transformar no que o papel exigia. O apelo deu certo — e seu desempenho foi nada menos do que soberbo. A enorme popularidade do protagonista de figurino elegante é coroada agora por um filme derivado que encerra sua trajetória — Peaky Blinders: o Homem Imortal (Peaky Blinders: The Immortal Man, Reino Unido/França/Estados Unidos, 2026), que chega à Netflix no próximo dia 20.
Ambientado após o final da série, o longa se embrenha nas tensões do início da década de 1940, com a Segunda Guerra em curso e o medo do avanço nazista. Uma realidade que se conecta com a atmosfera opressiva da série original. Ambientada na cidade inglesa de Birmingham, Peaky Blinders expõe, ao longo de seis temporadas situadas entre 1919 e 1934, a cratera econômica e moral causada pela Primeira Guerra, que abriu espaço para o poder de mafiosos como os da família Shelby — clã fictício, mas com inspirações reais. “Muito do meu trabalho é no campo histórico. Olhando para trás entendemos o presente”, disse Murphy em entrevista a VEJA (leia mais abaixo).
Introvertido e reservado, o irlandês de 49 anos usa a atuação para extravasar opiniões e sentimentos — além de levantar questões sem respostas fáceis. Tal pendor o levou ao filme Oppenheimer (2023), que lhe rendeu o Oscar de ator. O longa aclamado do diretor Christopher Nolan explorou o temor ainda atual de conflitos nucleares ao retratar a vida de J. Robert Oppenheimer, pai da bomba atômica — que, apesar de ciente do perigo de sua criação, a fez mesmo assim.
A vitória na premiação tornou Murphy o primeiro irlandês a ganhar a estatueta na categoria. Território marcado por profundas tensões políticas e disputas identitárias, a Irlanda possui, em contrapartida, uma produção cultural vibrante, de forte teor crítico, mas sempre careceu de maior repercussão fora de sua ilha. De tempos em tempos, essas barreiras são rompidas graças a talentos locais que triunfam em Hollywood — sendo Murphy o padrão-ouro na atual geração, seguido por Jessie Buckley, favorita ao Oscar de atriz deste ano, e os jovens Paul Mescal e Barry Keoghan. Este último é parte do elenco de Peaky Blinders: o Homem Imortal. Na pele de Duke Shelby, filho de Tommy, Keoghan encarna a decadência da família, quebrando códigos caros ao clã e flertando com o nazismo não de forma ideológica, mas como sintoma de desalento: se não dá para consertar o mundo, o jeito seria lucrar com o caos.
A frustração humana perante grandes conflitos políticos é parte intrínseca da série. Na vida real, ao se ver diante de dilemas assim, Murphy escolheu a arte como arma. Roqueiro na juventude, migrou para o teatro e o cinema independente, trajetória que culminou no filme de zumbis cult Extermínio (2002) — saga ressuscitada recentemente com a ajuda dele, como produtor. Criterioso, recusou um papel na Marvel e escolheu produzir e atuar nos longas dramáticos Pequenas Coisas como Estas (2024) e Steve (2025), projetos de pouca repercussão, mas que lhe deram orgulho pelo cunho social. Pouco afeito a entrevistas e eventos sociais, Murphy caiu inadvertidamente nas graças das redes sociais, que se deliciam com memes de suas feições, digamos, lacônicas. Um efeito irônico da fama que atingiu justamente o mais discreto entre os astros do cinema.
“A arte deve provocar”
Ator analisa sua trajetória — e diz o que achou do brasileiro O Agente Secreto.
Como o período entre guerras influencia Peaky Blinders? Tommy esteve na Primeira Guerra, na qual as pessoas foram vertidas em máquinas de combate; depois, voltaram para casa sem amparo ou terapia. Um cenário catastrófico. Logo, a mesma geração testemunhou um novo conflito. Tommy não se apega a ideologias. Porém, sua origem cigana, etnia alvo dos fascistas e dos nazistas, o leva a agir.
Seus personagens de maior repercussão são homens problemáticos. O que o atrai nesse tipo? Eu não diria problemáticos, diria que são humanos. Todos temos nossas lutas. Há muita identificação possível de se ter com os Shelby: a trama fala de trauma, de família, ideais políticos e até automedicação.
Como se sentiu ao ganhar o Oscar com Oppenheimer? Me senti orgulhoso de ser irlandês naquele dia e de poder representar o meu país. Ganhar o Oscar é como uma alucinação estranha, quase não me lembro de como aconteceu.
No Brasil, temos sentido esse tipo de orgulho com O Agente Secreto, indicado em quatro categorias. Assistiu ao filme? Sim, achei excelente. Ele é inesperado e imprevisível, fugindo dos padrões de ritmo e de montagem do cinema atual. O diretor (Kleber Mendonça Filho) é um autor. E o elenco, incrível.
A Irlanda e o Brasil têm a tradição de expor políticas nefastas do passado no cinema. O que pensa dessa questão? Nossos países têm cicatrizes políticas profundas. É importante encarar o passado e tirar do esquecimento o que precisa ser tratado. Muito do meu trabalho é no campo histórico. Olhando para trás entendemos o presente.
Dado o atual estado do mundo, com ameaças de conflitos nucleares, o que espera que filmes como Peaky Blinders ou Oppenheimer causem nos espectadores? Não tenho a intenção de ser dogmático. A arte deve provocar e levantar questões sem dar respostas definitivas. Fico feliz se a pessoa olhar com mais profundidade, além do entretenimento.
Suas expressões faciais se tornaram memes nas redes. Como lida com esse tipo de fama? Eu não lido, na verdade. Busco trabalhar bem e com ética. Já o que vem com isso, como a fama, para isso não sou muito bom.
Publicado em VEJA de 13 de março de 2026, edição nº 2986





