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Cecilia Madonna Young: ‘Amo ser comparada à minha mãe’

Filha de Fernanda Young, a jornalista lida com o luto em seu primeiro livro

Por Thiago Gelli Atualizado em 4 jun 2024, 09h38 - Publicado em 3 fev 2024, 04h00

Assumo, sim, o apelido de nepo baby sem ressalvas. Acho uma bobagem ver gente como eu que credita suas conquistas totalmente ao “mérito próprio”. Faz o favor, aceita que foi sua família. Desde o começo, sem saber se me tornaria algo, quis deixar isso bem claro: sou filha dos roteiristas Alexandre Machado e Fernanda Young (criadores de Os Normais). O orgulho que tenho da minha família e escrever meu livro, Tudo o que Posso Te Contar, me ajudaram a lidar com o luto. Mas entrar em contato com o tema ainda é horrível — e acho que sempre será. Quando estava redigindo os diários que compõem a coletânea, definitivamente não tratava o luto de modo saudável. Sentia a obrigação de ser uma “continuação” da minha mãe, de não deixar os fãs dela sem nada. Quando ela morreu, em agosto de 2019, eu e minha família recebemos tantas mensagens nas redes sociais que minha compaixão pelas pessoas superava a que eu tinha por mim mesma. Queria ajudar esses estranhos em vez de me ajudar. Ao mesmo tempo, escrever o livro me forçou a focar em mim e a viver o que considero o luto que deveria ter vivido desde o começo — mesmo que não saiba até hoje qual o jeito “correto” de senti-lo.

Ainda assim, amo ser comparada à minha mãe. Recentemente, visitei minha avó, que estava recebendo alguns amigos, e todos me falaram: “Você está a cara da Fernanda quando tinha sua idade!”. Carregá-la é um alívio. Até mesmo quando leio seus livros, sinto catarse ao me identificar com certas partes. Eu era — e sou — parecida com ela. Se sou como sou hoje, devo muito à música alta que meu pai toca, aos filmes que eles nos forçaram a assistir e às visitas ao set do programa Irritando Fernanda Young quando era criança, que me maravilhavam com as câmeras, luzes e celebridades. Lembro até hoje de conhecer a Ivete Sangalo lá. O amor à cultura pop foi minha primeira herança. Não só nisso: meus pais foram essenciais à medida que fui compreendendo meus problemas. Lembro de ter 13 anos e estar a caminho da escola quando percebi que, talvez, a dor que sentia no peito não fosse normal, mas sintoma de ansiedade. Três anos depois, já fazia terapia, mas tive meus primeiros pensamentos suicidas e fui logo conversar com minha mãe, que sempre foi transparente sobre sua própria saúde mental. Tive muita sorte de ter alguém tão compreensiva.

A questão mais difícil de reconhecer foi o transtorno alimentar. Se você abrir o Instagram, vai encontrar 10 000 pessoas promovendo jejuns de doze horas. Esse tipo de conteúdo me fez acreditar que eu estava no caminho certo, apesar das dores de barriga e exercícios exaustivos que não me traziam nenhum prazer. O choque de realidade veio após desenvolver uma obsessão pela dupla Carpenters e descobrir que a Karen Carpenter havia morrido de anorexia. Notei que, entre mim e ela, não existiam muitas diferenças de rotina. O que me ajuda é que nunca consegui esconder meus sentimentos e, se não falo sobre eles, escancaro no meu rosto. Talvez minha falta de filtro seja até ruim. Me perguntaram outro dia se não tenho medo de estar romantizando doenças mentais, e levei um susto. Nunca pensei por esse lado. A meu ver, o importante é falar. Com o livro, queria justamente que me conhecessem, sem maiores pretensões, mas fico feliz com quem se identifica. A primeira leitora que conversou comigo após o lançamento foi uma amiga. Segundo ela, se tivesse lido meus relatos quando tinha 15 anos, teria buscado tratar seu transtorno de modo diferente. Me debulhei em lágrimas depois disso. Mesmo que o livro ajude apenas duas pessoas, já é o bastante para mim. Agora, o desafio é pular para a ficção, nas páginas e telas. Quero provocar tanto riso quanto choro, como fazem as melhores coisas da vida.

Cecilia Madonna Young em depoimento dado a Thiago Gelli

Publicado em VEJA de 2 de fevereiro de 2024, edição nº 2878

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