Bruno Gagliasso: “Fazer arte é fazer justiça”
Protagonista do filme Honestino, a respeito do líder estudantil morto pela ditadura, o ator reflete sobre democracia e a função social de sua atividade
O que o motivou a aceitar o papel de Honestino Guimarães, o presidente da União Nacional dos Estudantes, uma das vítimas do regime militar, sequestrado e morto em 1973? Foi uma escolha artística e política. O convite veio do diretor Aurélio Michiles, que me viu em Marighella, e não houve como recusar. Hoje, escolho projetos que façam sentido para a minha vida. Essas histórias são o maior legado que posso deixar para os meus filhos e para quem acompanha o meu trabalho.
O filme surge em um momento do país em que se discute a democracia, com um ex-presidente em prisão domiciliar condenado por tentativa de golpe. Qual é o papel da arte nessa discussão? A arte é a narradora da nossa história. É por meio dela que levantamos discussões e fazemos política. A democracia precisa ser reconquistada todos os dias, e o cinema é ferramenta poderosa nessa batalha constante.
Além de Honestino, você está à frente de Chico Vive, sobre Chico Mendes. O que torna essa história tão urgente? Chico Mendes falava sobre sustentabilidade há cinquenta anos, quando quase ninguém tocava no assunto. O filme se tornou uma plataforma com cinco frentes, incluindo um longa, um documentário e um prêmio para boas iniciativas.
Honestino e Chico Mendes são mártires de suas causas. O que significa dar voz a essas figuras hoje? É isso que me move como artista e ser humano. Fazer arte é levantar discussões e fazer justiça. Acredito numa arte que incomoda, não apenas entretém. São histórias que tentam apagar o tempo todo, mas essas pessoas deram a vida para mudar o mundo, e recontá-las é uma forma de resistência.
Com a COP30 no Brasil, qual é a nossa responsabilidade como país? A COP30 é a nossa grande chance de mostrar que somos protagonistas nessa área. Precisamos dominar esse debate, conhecer nossas florestas e nossos projetos. Outros países devem ser parceiros, não “salvadores da pátria”. Somos nós que temos o poder e a responsabilidade de preservar nossa biodiversidade, especialmente com o mundo nos observando.
Seu envolvimento com causas ambientais e sociais marca uma nova fase na sua carreira? Sempre busquei personagens que provocassem reflexão, desde um esquizofrênico, em Caminho das Índias, até o primeiro beijo gay na TV, em América. A diferença é que hoje, com mais autonomia, posso mergulhar de cabeça em projetos que me representam por completo. Tenho orgulho do tempo nas novelas, claro que sim, mas o cinema me dá essa liberdade.
O que, de fato, o move hoje: a arte ou a política? Minha família. Tudo o que faço é para eles, por eles e com eles. Talvez por isso eu fale tanto em legado — porque o exemplo é o que fica. O que ensino aos meus filhos vem muito mais das minhas ações do que das minhas palavras.
Publicado em VEJA de 7 de novembro de 2025, edição nº 2969





