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Bridgerton 4 e mais: as séries de época que fazem sucesso ao colorir a história

Hit da Netflix retorna com uma mocinha asiática em plena Inglaterra do século XIX, provando o apelo de séries que reveem o passado com diversidade

Por Kelly Miyashiro Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 24 jan 2026, 08h00 •
  • Na Inglaterra do século XIX, o libertino Benedict Bridgerton (Luke Thompson) comparece ao baile de máscaras organizado por sua mãe só para agradá-la, já que tem zero interesse em qualquer debutante — as belas jovens apresentadas à alta sociedade que estão atrás de um marido rico. O galã se encanta, porém, por uma moça misteriosa com traços asiáticos que ele flagra na multidão e batiza de Dama Prateada, dada a cor de seu vestido. Por baixo da máscara se encontra Sophie Baek (Yerin Ha), uma criada que entrou de penetra na festa da alta sociedade apenas para se divertir um pouco, mas acabou se apaixonando pelo solteirão mais cobiçado da nova temporada de Bridgerton.

    O fenômeno da Netflix chega à sua quarta fase na próxima quinta-feira, 29, atestando mais uma vez seu principal atrativo: para além dos enredos românticos rocambolescos e das cenas que abusam da sensualidade, a série criada por Shonda Rhimes tem como mote celebrar a diversidade étnica e sexual. Só que o faz de um jeito singular, ao injetar esse colorido tão ao gosto da correção política atual a um improvável ambiente de época. Com essa receita que abraça o anacronismo histórico sem pudor, a série virou arrasa-quarteirão em audiência e inspirou similares como Os Bucaneiros, da Apple TV, e A Idade Dourada, da HBO Max, além de gerar seu próprio spin-off, Rainha Charlotte.

    Baseada nos livros da inglesa Julia Quinn, a série diverge bastante da criação original, que narra os esforços da viúva Violet Bridgerton para casar seus oito filhos. Enquanto nos best-sellers todos os personagens são héteros e brancos, a adaptação da Netflix investe em mostrar outras etnias desde a primeira temporada, lançada em 2020 — que contou com um galã negro. Algo semelhante se repetiu na segunda fase com Simone Ashley, atriz de ascendência indiana que foi par romântico do primogênito da família. A terceira radicalizou ao “corrigir” o emagrecimento que a protagonista Penelope sofria no livro: a série não só a liberou da dieta, como empoderou a atriz irlandesa Nicola Coughlan. Agora, atinge novo pico de diversidade ao introduzir a jovem de origem sul-coreana como interesse amoroso de um nobre inglês — o mocinho, aliás, tem sexualidade fluida.

    A aposta em produções de época que fujam ao padrão estético clássico não é só um gesto bonzinho. Há uma sacada comercial por trás disso: com a estratégia, Bridgerton provoca identificação em assinantes da plataforma de vários cantos do mundo e os faz interessar-se por um gênero tradicionalmente anglo-saxão. Foi o que ocorreu com a própria Yerin Ha. “Nunca tinha assistido a muitos dramas sobre o período, pois não me conectava com os personagens”, disse a atriz a VEJA.

    Curiosamente, enquanto empresas de entretenimento dão passos atrás na diversidade com temor de irritar o público conservador e perder dinheiro, Bridgerton não se abala. A primeira e a terceira temporadas figuram no Top 10 de séries mais vistas de todos os tempos da Netflix. Num evento no ano passado na Bolsa de Valores de Londres, a plataforma divulgou que a série injetou 275 milhões de libras — quase 2 bilhões de reais — na economia britânica. Além da cadeia produtiva beneficiada pela produção, há os lucros com uma moda lançada por Bridgerton: o “Regencycore”, desejo de usar modelitos e acessórios coruscantes da era regencial britânica, popularizada pelo enredo.

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    O impacto cultural da série fez a concorrência correr atrás. Em 2022, a Apple TV encomendou uma adaptação de Os Bucaneiros, baseada no romance inacabado da escritora americana Edith Wharton. Lançada no ano seguinte, a trama se passa no final do século XIX e mostra coisas impensáveis para a época, como um romance lésbico e o casamento — sem nenhum entrave ou preconceito — de uma mocinha negra com um aristocrata branco. Já A Idade Dourada mostra famílias negras exercendo poder na elite nova-iorquina da virada do século XX. Mas nenhuma personagem sintetiza tanto as liberdades históricas dessa nova safra quanto a protagonista de Rainha Charlotte, spin-off de Bridgerton. O enredo toma como fato a ascendência africana da rainha consorte Carlota de Meclemburgo-­Strelitz (1744-1818), esposa do rei inglês George III, algo nunca inteiramente comprovado. O céu é o limite na arte de colorir a história.

    Passado açucarado

    Na esteira de Bridgerton, séries fazem sucesso ao mostrar sociedades inclusivas em tempos nos quais isso não existia

    MAJESTADE AFRICANA - Spin-off de Bridgerton, Rainha Charlotte parte de vaga especulação histórica para mostrar uma negra (Golda Rosheuvel) como monarca inglesa
    MAJESTADE AFRICANA – Spin-off de Bridgerton, Rainha Charlotte parte de vaga especulação histórica para mostrar uma negra (Golda Rosheuvel) como monarca inglesa (Liam Daniel/Netflix)
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    MUNDOS PARECIDOS - Conchita (Alisha Boe) e Richard (Josh Dylan) em Os Bucaneiros: jovem negra dos Estados Unidos se casa sem dificuldade com aristocrata inglês
    MUNDOS PARECIDOS – Conchita (Alisha Boe) e Richard (Josh Dylan) em Os Bucaneiros: jovem negra dos Estados Unidos se casa sem dificuldade com aristocrata inglês (Apple TV/.)
    AMOR RESISTENTE - De família negra de elite, Peggy (Denée Benton) ainda enfrenta preconceito para se relacionar com um médico charmoso em A Idade Dourada
    AMOR RESISTENTE – De família negra de elite, Peggy (Denée Benton) ainda enfrenta preconceito para se relacionar com um médico charmoso em A Idade Dourada (Karolina Wojtasik/HBO)

    Publicado em VEJA de 23 de janeiro de 2026, edição nº 2979

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