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‘Benedito Ruy Barbosa escrevia chorando, sorrindo e sofrendo’, disse neto

Relato da professora e pesquisadora Bruna Aucar, da PUC-Rio, traz detalhes das singularidades do autor que consolidou sua marca na TV brasileira

Por Valmir Moratelli Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 7 jul 2026, 11h19 | Atualizado em 8 jul 2026, 14h09
‘Benedito Ruy Barbosa escrevia chorando, sorrindo e sofrendo’, disse neto Priorizar nos meus resultados Google

Por Bruna Aucar

A morte de Benedito Ruy Barbosa representa a despedida de um dos autores que ajudaram a construir a identidade e a singularidade da telenovela brasileira. Em um cenário tão diverso quanto o da nossa ficção televisiva, Benedito consolidou uma marca autoral imediatamente reconhecível. Seu universo narrativo era povoado por personagens míticos, fantasmagóricos e mágicos, mas nunca desconectados da realidade brasileira. Ao contrário, ele articulava o fantástico com os dramas sociais, afetivos e culturais do país, criando histórias que, ao mesmo tempo, emocionavam, ofereciam um espaço de escapismo e permitiam ao público refletir sobre si mesmo.

Sua obra mostrou que o Brasil profundo, rural e popular também era um espaço de elaboração de questões universais. Ao retratar conflitos familiares, disputas por terra, religiosidade, tradição, desejo e pertencimento, Benedito construiu um retrato do Brasil no qual os brasileiros se reconheceram e, ao mesmo tempo, puderam sonhar. Essa capacidade de fundir realismo social e imaginação é um dos elementos que tornam a telenovela brasileira um produto cultural único no mundo, e Benedito Ruy Barbosa foi um dos principais responsáveis por essa identidade.

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Em novembro de 2025, durante o IX Encontro Obitel Brasil (maior rede brasileira de pesquisadores de ficção seriada), realizado na PUC-Rio, seu neto e também autor Bruno Luperi deu um testemunho que ajuda a compreender a dimensão humana desse processo criativo. Ao recordar a infância, afirmou: “Cresci na casa dele, porque a vida dele era criar outras vidas, então a nossa era orbitar ao redor, pegar as migalhas da presença dele ali, então a casa dele e da minha avó sempre foi o espaço onde a família toda se reunia”. Para Luperi, Benedito era profundamente envolvido com seus personagens: “ele escrevia chorando, sorrindo, se emocionando e sofrendo. E ele falava sempre isso. Quando eu escrevo chorando… O diretor dirige chorando, o ator atua chorando e o público chora. É uma verdade absoluta”. Essa cadeia de emoções talvez sintetize como poucos a força de sua dramaturgia.

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Luperi também chamou atenção para um aspecto fundamental da trajetória de Benedito: a defesa da autoria como elemento central da telenovela brasileira. Ao refletir sobre os desafios atuais da indústria audiovisual, observou que seu avô pertenceu a uma geração em que “o autor era a voz do sim e do não”, tendo liberdade para sustentar uma visão artística própria. Para ele, o crescimento das exigências industriais e das inúmeras concessões impostas ao processo criativo pode comprometer justamente aquilo que tornou a novela brasileira uma referência internacional: a coragem de apostar em histórias profundamente autorais. Nas palavras de Luperi, é preciso “olhar para os mestres do gênero” e recuperar a disposição de investir em projetos que “ousem” e que não tenham medo de fracassar.

O legado de Benedito Ruy Barbosa demonstra que a força da telenovela brasileira nasce da combinação entre uma visão autoral consistente e a capacidade de traduzir, em personagens e narrativas inesquecíveis, as contradições, os afetos, os mitos e os sonhos do Brasil. Poucos autores conseguiram construir um universo ficcional tão próprio e, ao mesmo tempo, tão profundamente conectado à experiência do público brasileiro.

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