As revelações do homem que foi vigia do Museu Metropolitan por 3.000 noites
Escrito por um ex-segurança do Metropolitan, em Nova York, Toda a Beleza do Mundo leva o leitor às entranhas de um dos mais famosos templos da arte
Após perder o irmão para um câncer agressivo, em 2008, Patrick Bringley deixou o emprego no setor de eventos da cultuada revista americana The New Yorker e foi em busca de um lugar que lhe permitisse se perder na própria dor e mergulhar nos questionamentos em sua mente. Apaixonado por museus, ele se candidatou então a um emprego de segurança no Museu Metropolitan, em Nova York. Contratado pela instituição, passou os dez anos seguintes sendo consolado pelos milhares de obras de arte e itens históricos que têm o local como morada. Agora, o escritor narra a jornada no belo Toda a Beleza do Mundo, que sai em 9 de março e já está em pré-venda no país. “Uma coisa que me atraiu foi a invisibilidade. Eu podia observar as pessoas e a arte e, se quisesse, passar o dia inteiro sem abrir a boca. Havia algo bonito e libertador nisso”, disse a VEJA o autor de 43 anos, que passou cerca de 3 000 dias trabalhando no museu.
Localizado ao lado do Central Park, em Nova York, o Met reúne mais de 2 milhões de obras de arte e artefatos históricos, espalhados por um espaço equivalente a 26 campos de futebol. Nesse organismo vivo de arte e história, 500 seguranças fazem uma vigilância atenta, para evitar que tesouros como os Ciprestes, de Van Gogh, ou relíquias de 5 000 anos sofram algum dano. O trabalho cotidiano, na prática, parece monótono: os guardas passam o dia chamando a atenção de visitantes descuidados ou respondendo a perguntas de turistas perdidos. As mais comuns, revela a obra, são indagações sobre a veracidade das antiguidades egípcias e visitantes desinformados à procura da Mona Lisa — que fica no Louvre, em Paris.
A função, no entanto, esconde um glamour apreciado por aqueles que amam a arte: a liberdade de testemunhar as entranhas de um dos museus mais importantes do planeta, criando uma relação íntima com as obras ali expostas. “Pessoas de todo o mundo passam diariamente pelas galerias, mas eu estava lá todos os dias. Era como se as pinturas fossem minhas companheiras”, explica o ex-segurança. Ele destaca o quadro Crucificação, de Fra Angelico, como uma de suas obras preferidas no museu. “É um corpo gracioso e quebrado, que nos lembra mais uma vez o óbvio: que somos mortais e sofremos; que há beleza na coragem diante do sofrimento; que a perda inspira amor e lamento”, atesta o autor no trecho sobre a obra.
Escrito em primeira pessoa, o livro é um mergulho delicioso para os amantes da arte, que são convidados a passear pelos cantos mais restritos da instituição. Não à toa, Bringley costuma usar sua bagagem para entreter os amigos em conversas banais. “O Met parece infinito. Você vira uma esquina e está no Camboja, e depois no Benin do século XVI, na África Ocidental. Mas, por mais grandiosas que sejam as galerias, é igualmente grandioso sob nossos pés”, explica o autor, revelando que o subsolo da instituição guarda oficinas, depósitos, estúdios de conservação e toda uma estrutura imensa que faz a instituição funcionar. Entre uma divagação e outra, a obra destaca ainda informações curiosas, como o fato de que os seguranças recebem 80 dólares por ano para comprar meias pretas — já que elas se desgastam pela andança diária entre as galerias. É uma viagem que vale o ingresso.
Publicado em VEJA de 20 de fevereiro de 2026, edição nº 2983





