As polêmicas iniciativas para tornar a música clássica mais palatável aos jovens
Dos chamados 'Concertos Candlelight' até maestros fantasiados, diferentes ideias buscam atrair ouvintes pouco familiarizados com o cânone
Longe dos sons sintéticos e urbanos que regem a indústria musical de hoje em dia, músicos devotos ao clássico buscam formas de renovar seu público, mas nem sempre a modernização é bem-vista — ou fortuita. Dentro do meio, especialmente, iniciativas dividem opiniões entre os mais maleáveis e aqueles que as encaram como esforços fúteis ou até prejudiciais. Conheça quatro vertentes polêmicas desde esforço:
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Concertos instagramáveis
“Nada é pior do que um quarteto de cordas tocando Beyoncé. Os dois elementos são bons, mas a junção os anula terrivelmente”, opinou a VEJA o pianista anglo-americano Evan Shinners de modo enfático sobre o que se vê, por exemplo, nos famigerados (e altamente pop) Concertos Candlelight, realizados à luz de velas, como diz o nome em inglês. Apesar da reputação ruim entre puristas, as apresentações lotam salas ao redor do globo. Em São Paulo, múltiplas apresentações estão agendadas, com repertório que vai de Bridgerton até Linkin Park.
Trilhas pop nas salas de concerto
De modo parecido, o repertório popularizado pelo audiovisual ocupa mais e mais espaço entre o que é apresentado em salas de concerto respeitáveis. Em 2024, por exemplo, a Sala São Paulo foi palco do Sinfonia de Anime, com direito ao maestro Wagner Polistchuk fantasiado como o herói Naruto. Não é impensável que, dali, um dos jovens aficionados por desenhos descubriu que Joe Hisaishi, compositor do estúdio Ghibli, bebeu do minimalismo de Philip Glass — que, por sua vez, bebeu do classicismo de Franz Schubert (1797-1828). Por outro lado, o estigma permanece. Ao fim do excelente filme Tár (2023), por exemplo, a decadência da protagonista é confirmada por um trabalho que seus colegas da Orquestra Filârmonica de Berlim considerariam degradante: a regência de composições de um videogame perante o público fantasiado de uma convenção.
Playlists no streaming
Recurso que melhor incorpora a música clássica ao dia a dia dos mais jovens, o streaming oferece múltiplas playlists que prometem aguçar o foco, a concentração e até a paz de espírito de seus ouvintes com trabalhos de Bach, Mozart e outros gênios. Esta é uma das iniciativas aprovadas por Shinners, que vai além e sugere a incorporação da música clássica a espaços públicos, ocupando o lugar da inócua música ambiente comum a elevadores e aeroportos.
Artistas híbridos
Do outro lado da dinâmica, jovens artistas recorrem à música clássica em busca de inspiração e acabam, por acaso, informando seu público. A islandesa Laufey, por exemplo, tem treinamento clássico e já foi solista de violoncelo da orquestra sinfônica de seu país natal. Quando toca seu pop romântico para as milhões de garotas que a escutam, influencia algumas delas a estudar o instrumento. Trabalhos de André 3000, Jacob Collier, Jon Batiste e Rosalía atingem efeito similar. Para os estudiosos do clássico, tais projetos são fortuitos — desde que não reescrevam ou desrespeitem a grandiosidade histórica do que veio antes.
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