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As guitarras renascem na quarentena

Com as vendas em baixa há anos, ela parecia ter chegado ao fim de sua carreira musical. Até os solos serem reabilitados dentro de casa

Por Amanda Péchy Atualizado em 9 out 2020, 11h03 - Publicado em 9 out 2020, 06h00

Partiu da boca do próprio Eric Clapton, o “Deus”, a triste constatação, em 2017: “Talvez a guitarra tenha acabado”. No ano seguinte, a célebre fabricante Gibson entrou em recuperação judicial, sucumbindo a uma dívida de 500 milhões de dólares. Vítima da música eletrônica digitalizada e da multiplicação dos cantores em detrimento das bandas, o instrumento-símbolo do rock’n’roll parecia haver caído em desuso sem volta. Eis que a quarentena, sempre ela, prendeu todo mundo em casa, sacudiu os hábitos e costumes e reabilitou os acordes elétricos. No meio da contração geral das economias prevista para este ano, o mercado de instrumentos musicais saiu quase ileso graças às vendas de guitarras, violões e ukeleles — sim, aquela espécie de cavaquinho havaiano — para pessoas carentes de um hobby durante o isolamento social. “Foi uma retomada sem precedente”, diz Daniel Neves, presidente da Associação Nacional da Indústria da Música (Anafima).

Tanto a guitarra quanto o violão se encaixam no princípio do cocooning, ou “encasulamento”, que não é novidade, mas foi amplamente abraçado e consolidado no primeiro semestre deste incomparável 2020 por uma legião de consumidores interessados em instalar e aperfeiçoar dentro de casa atividades que costumavam desempenhar fora dela. Programador de 21 anos e guitarrista autodidata há oito, Hector Grecco mudou-se de Goiânia para o home office em São Paulo em julho e aproveitou o tempo no lar para, pela primeira vez, tomar aulas on-line. “Pude me reconectar com a música e tentar fazer algo diferente”, alegra-se Grecco, que desde então comprou mais duas guitarras e procura parceiros para formar uma banda. Não foi o único a pôr a mão na carteira. O site da megaloja de instrumentos e apetrechos musicais Made in Brazil acusou aumento de 300% nas vendas on-line entre abril e junho. A produção nacional cresceu 10% e o faturamento do mercado ultra­pas­sou 1 bilhão de reais entre janeiro e agosto. “É a primeira vez que vejo um boom como esse. A demanda chegou a tal ponto que às vezes não foi possível atender”, diz Luiz Valezin, CEO da WMS, distribuidora da Taylor Guitars no Brasil, que comemora alta de 23% nas vendas de violões e guitarras na pandemia.

SEM ESTOQUE - Fábrica da Gibson nos EUA: demanda maior do que a oferta – Jason Kempin/Getty Images

Nos Estados Unidos, a terra da guitarra elétrica, a Gibson, depois de fechar as fábricas e congelar as vendas em abril, informou em agosto que, retomadas as atividades, estava vendendo tudo o que produzia. A californiana Taylor decretou junho de 2020 o mês mais movimentado desde que a empresa foi fundada, em 1974. A Fender, que fabrica as icônicas Stratocasters e Telecasters, também celebrou a quarentena. “Caminhamos para o melhor ano da nossa história, o que nunca pensei que aconteceria quando a pandemia começou”, disse a VEJA o comandante da empresa, Andy Mooney. Além de vender guitarras como nunca, a fabricante abriu o acesso ao Fender Play, um aplicativo de aulas on-line, que ganhou 930 000 usuários. Engana-se quem pensou em uma multidão de velhos e nostálgicos roqueiros: 18% dos novos clientes do Fender Play têm entre 18 e 24 anos e 70% estão abaixo dos 45. A WMS do Brasil confirma a tendência. “Os perfis mais comuns desses guitarristas amadores são jovens entre 16 e 18 anos e adultos na casa dos 40”, diz Valezin.

Guitarra e violão se tornaram os instrumentos por excelência da quarentena porque são práticos, fáceis de carregar e de guardar e têm uma vasta faixa de preço — de 800 reais, para os exemplares mais comuns, a 30 000 reais. Sem falar no componente emocional, muito presente neste ano difícil. “O repertório de música popular para guitarra é extenso e familiar, o que torna o aprendizado mais prazeroso”, explica a americana Leigh VanHandel, pesquisadora de psicologia da música. Segundo Leigh, durante a peste negra, no século XIV, a Igreja Católica tratava pacientes em quarentena nos lazaretos da Itália fazendo-os cantar e tocar juntos, ao soar dos sinos das capelas. “A música em geral ameniza sentimentos de ansiedade, solidão e stress, e tocar cria uma sensação de conexão, vital durante o isolamento”, acrescenta. A indústria torce agora para que, passada a pandemia, os riffs não voltem a emudecer. Diz Valezin, ele próprio guitarrista: “Sempre pode haver um recuo, mas acredito que a guitarra nunca vai morrer”. Nem o rock’n’roll, baby, tampouco os riffs eternos de Van Halen.

Publicado em VEJA de 14 de outubro de 2020, edição nº 2708

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