Ana Paula Maia: quem é a escritora brasileira de terror que faz sucesso no exterior
Finalista de um dos maiores prêmios literários do mundo, ela colhe os frutos da aposta num gênero incomum nas letras nacionais
Como a maioria das crianças no Brasil do final da década de 1980, Ana Paula Maia foi criada com a ajuda da famigerada “babá eletrônica”, a televisão. Junto do irmão, a menina consumia não só programas infantis, mas novelas da Globo e atrações como Chaves, no SBT. Mas ela logo demonstrou um pendor incomum: gostava mesmo era de assistir a filmes de terror exibidos na faixa adulta das 23 horas, de Tubarão (1975) a Poltergeist (1982). Esse detalhe se revelou decisivo para Ana Paula ser quem é hoje: uma rara escritora brasileira de sua geração com reconhecimento no exterior — e que o fez por meio de um gênero inusual na literatura nacional.
Na contramão do regionalismo abraçado por colegas como Itamar Vieira Junior, ou dos romances urbanos de viés psicológico que bebem de Rubem Fonseca, ela prefere se aventurar pela seara do terror. Suas obras são protagonizadas por personagens pitorescos, como o recolhedor de animais atropelados em estradas, de Enterre Seus Mortos, livro adaptado para um filme de 2025 estrelado por Selton Mello. “Minha cabeça não pensa uma história de amor convencional. Eu gosto do lado sombrio e estranho das coisas. Adoro cemitérios”, explicou Ana Paula em entrevista a VEJA.
Hoje aos 48 anos, a fluminense de Nova Iguaçu colhe os frutos dessa ousadia: é semifinalista do International Booker Prize, uma das maiores premiações literárias do mundo (e cujo resultado será conhecido em 19 de maio), com a versão em inglês de Assim na Terra como Embaixo da Terra, lançado no Brasil em 2017 pela editora Record. A história narra como uma colônia penal se tornou um campo de extermínio nas mãos de um carcereiro sádico que gosta de caçar presos como se fossem animais. O enredo disseca temas atuais como neofascismo, racismo e violência estrutural. A proximidade da narrativa com o mundo real foi o que chamou a atenção de críticos internacionais, reconhecimento que Ana conquistou também com outras obras em diversos territórios. Atualmente, ela tem publicações em quinze países, entre os quais Argentina, Espanha, Inglaterra e Itália.
Filha de uma professora de português e literatura e de um comerciante de bebidas, Ana Paula cresceu num ambiente de classe média em que a criatividade era estimulada ao máximo. Desde cedo, suas referências iam de Edgar Allan Poe a H.P. Lovecraft, passando por Kafka e Dostoiévski. As questões existenciais permeiam seus livros. Em De Gados e Homens (2013), ponto de virada em sua trajetória, a autora se vale do ambiente de um matadouro para questionar a desumanização e a mecânica da vida periférica.
A carreira de Ana Paula tomou novos rumos desde 2008, quando ela se mudou do Rio de Janeiro para um cenário mais gelado: Curitiba. Vive na capital paranaense com o marido e dois cachorros e fez dos novos ares a inspiração para sua estreia bem-sucedida como roteirista de TV. Ela criou e desenvolveu a série Desalma, do Globoplay, que fala de acontecimentos tenebrosos numa comunidade ucraniana no Paraná. Atualmente, trabalha no livro Tenebroso Brilho de Sol, que falará de uma prática ritualística de descendentes açorianos no Sul do país, na qual pessoas usam roupas de um ente querido que morreu em seu velório ou missa. A obra sairá pela Companhia das Letras no segundo semestre. Eis um talento verdadeiramente assombroso.
Publicado em VEJA de 6 de março de 2026, edição nº 2985





