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Amigos e especialistas lamentam a ‘miserabilidade’ de João Gilberto

Caetano liga com jeito para o amigo, e pede que ele vá ao médico. Mas João prefere o confinamento e o violão. Aos 86 anos, nunca entrou em um hospital

Por Estadão Conteúdo - Atualizado em 3 Maio 2018, 12h10 - Publicado em 3 Maio 2018, 12h09

Afinal, o que pode ser feito pelo homem mais importante da música brasileira? João Gilberto, por ser patrimônio, não seria caso de mobilização popular? Por ter elevado o Brasil da condição de país exótico até os anos 1950 à de superpotência criativa não lhe caberia intervenção? O interesse público por sua saúde não seria soberano até aos próprios direitos de família? Não poderia a classe artística se juntar em um grande show com arrecadação voltada para pagar parte dos 9 milhões de reais de dívidas que o assolam?

João está agora em outro endereço, supostamente melhor cuidado do que em seu exílio no Leblon. Foi retirado nas sombras de uma madrugada silenciosa, em carro de amigos e um coração em descompasso. Agora, duas médicas se desdobram para atendê-lo com o mínimo de invasões na maior missão de suas carreiras. Caetano liga com jeito, de baiano para baiano. “Você precisa ir ao médico, João…” Mas ele prefere o violão. Aos 86 anos, João nunca entrou em um hospital.

Amigos falam com abatimento ao ver a agonia do músico. “Eu sinto uma consternação enorme, porque sei da verdade que é essa dimensão reclusa do João, o quanto isso faz parte de uma escolha, de um modo de vida. Ele está lá para se preservar e preservar o mundo ao seu redor. João não quer atrapalhar o mundo”, diz Gilberto Gil.

Um show para João? Uma voz amiga diz: “Seria preciso um Rock in Rio inteiro para pagar suas de dívidas”. E por que não? “Porque a Justiça bloquearia o repasse do dinheiro para pagar credores.” O pesquisador Zuza Homem de Mello reconhece a missão intrincada: “Imagino que deva existir uma espécie de gestor para encaminhar tal quantia ao destino certo e ajudar João a sair da embrulhada em que, é forçoso reconhecer, ele teve sua parcela de culpa por cancelar shows contratados”.

O escritor Ruy Castro, que costurou Chega de Saudade com a vida de João Gilberto, preocupa-se com a superpopulação, para os padrões gilbertianos, que pode estar a seu redor nesse momento. “Deus livre João Gilberto de ver estranhos batendo à sua porta tentando ‘ajudá-lo’. E, entre os estranhos, incluo todo mundo.” Dentre os cuidadores possíveis, o escritor só confia na filha, Bebel Gilberto. “O problema de João compete exclusivamente à Bebel, a única pessoa lógica e confiável em toda essa história, e aos médicos a que ela entregar seu pai.” Mais do que um caso de saúde pública, João, para Ruy, seria vítima de um caso de polícia: “Quanto ao dinheiro que ele tinha e sumiu, quem deve cuidar disso é a polícia. Se o dinheiro aparecer, todas as suas dívidas serão saldadas e ainda lhe sobrará troco.”

Tom Zé, outro joãoniano de criação, lembra que não se trata do primeiro derretimento de João Gilberto. Em 1999, ao inaugurar com Caetano Veloso o Credicard Hall, “a maior casa de espetáculos da América Latina”, João não se intimidou com o tilintar das joias da primeira fila e, mesmo recebendo 60 000 reais de cachê e pisando em tapetes reais, resolveu ser fiel apenas ao seu violão. “Nunca mais piso aqui”, disse, ao ouvir o eco que não deixava suas pausas em paz.

E então, quando a vaia da plateia parecia enterrá-lo, devolveu com um gesto desconcertante: “Vaia de bêbado não vale”, cantarolou, mostrando a língua. Em Juazeiro da Bahia, há 70 anos, João se emocionava ao ver os caminhões chegando pela estrada de terra sob as aroeiras: “Olha só como as árvores acariciam a cabeça daqueles caminhões”, dizia aos amigos. Gil está certo. Era delicadeza demais para o mundo que está fora de seu apartamento.

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