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Alexandre Rodrigues, ator de ‘Cidade de Deus’: ‘Se apertar, viro Uber’

O intérprete de 36 anos foi do sucesso no filme brasileiro a motorista de aplicativo

Por Alexandre Rodrigues - Atualizado em 13 dez 2019, 11h01 - Publicado em 13 dez 2019, 06h00

As pessoas se lembram de mim por causa do meu personagem em Cidade de Deus, o Buscapé. Vivi meus anos dourados por volta de 2004, quando o filme foi indicado ao Oscar em quatro categorias. Não consegui ir à festa do prêmio em Los Angeles. Mas, para quem nasceu e foi criado em Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense, em uma casa de família pobre, chegar aonde eu cheguei já é uma vitória imensa. Só que eu cresci, não sou mais aquele garoto de 18 anos do filme. Hoje tenho 36, mais de vinte anos de carreira nas costas, eu me casei, precisei sair da casa da minha mãe e pagar meus boletos. Trabalhar nunca foi um problema para mim. Desde os meus 13 anos, fiz isso em diferentes ramos: fui entregador de móveis, técnico de fantasias em escolas de samba e florista. No entanto, sou formado em artes cênicas, não tenho outro curso superior ou técnico. E viver de cultura no Brasil não é para qualquer um. Ao começar a fazer artes cênicas, eu sabia que seria dessa forma. Sempre faltou emprego. Há muita gente para pouca demanda. O mercado está saturado de atores. Quando as contas se acumulam e o dinheiro vai se esgotando, você precisa fazer um bico. No momento em que eu fiquei numa pior, em 2018, liguei para diretores e produtores da Globo, mas não havia emprego para mim. Então, para complementar a renda, resolvi virar motorista do Uber.

Não me arrependo: aprendi muito nos sete meses em que trabalhei como motorista. Foi um verdadeiro laboratório para conhecer pessoas. Se houve uma coisa que eu aprendi durante esse tempo é que, não importa a classe social, o que o brasileiro mais tem é problema. As pessoas se sentam no banco e se abrem, choram, contam suas mágoas, aflições, medos, esperanças e problemas de diferentes níveis, desde um namoro desfeito até uma doença terminal. No Uber, virei um psicólogo. Mas meu trabalho mesmo é como ator. Eu mantenho relações com a Globo, porém apenas como freelancer. Ainda sonho e tenho esperanças em assinar um contrato mais duradouro. No entanto, eles só se lembram de mim para trabalhos que requeiram meu tipo físico específico — ou seja, papéis de negro. Obviamente, não há como eu fazer outro tipo, nem acho que a falta de papéis seja por causa da minha cor de pele. Não posso, contudo, ser hipócrita: sei que consegui trabalhos na Globo por ser negro. Como nas novelas Sinhá Moça e Cabocla, nas quais interpretei escravos. Acho ridículo você separar atores por cor de pele ou porte físico. Isso é errado. Por que as empregadas domésticas precisam ser negras? Minha mãe é empregada doméstica e tem amigas empregadas de pele branca também.

Este é o Brasil: infelizmente, vivemos em um país subdesenvolvido, e nós, artistas, precisamos nos virar de qualquer jeito para sobreviver. Em nossa maioria, temos de encarar a arte mais como um hobby do que como uma profissão de fato. O desprezo à cultura não é de agora, ela sempre foi bombardeada, em muitos governos. Atualmente, sigo procurando patrocinadores para minha trupe, a Companhia Nova de Teatro, com o objetivo de manter em cartaz a peça Barulho d’Água, em que faço o papel de um refugiado africano que tenta atravessar o Mar Mediterrâneo em direção à Europa. No momento, também estou à procura de um curso técnico de iluminação de teatro e de sonoplastia. Fazer essa especialização seria uma forma de continuar trabalhando com o que eu gosto, a atuação, porém de uma perspectiva diferente. Quanto ao Uber, considero que esse seja um capítulo da minha vida que já passou. Mas, caso o dinheiro se esgote, será um alívio saber que ainda posso contar com essa alternativa. Na verdade, se a situação apertar, não descarto a hipótese de voltar a ser motorista de aplicativo.

Depoimento dado a Eduardo F. Filho

Publicado em VEJA de 18 de dezembro de 2019, edição nº 2665

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