A mulher trágica por trás do clássico incontornável ‘O Morro dos Ventos Uivantes’
Nova versão, com tintas de erotismo, mostra que a história ainda mexe com o público e prova a força imortal de sua autora, Emily Brontë
Nas entranhas da literatura, poucos suplícios são mais tragicamente românticos que aquele enunciado pelo vil Heatchliff, quando percebe ter enfim perdido a amada Catherine após anos de relação mutuamente destrutiva: “Você disse que a matei… Venha me assombrar, então”. A partir dessa frase, a trama gótica de O Morro dos Ventos Uivantes (1847) ganha seus notórios contornos fantasmagóricos, mas também profetiza o destino de sua autora, Emily Brontë (1818-1848), que morreria no ano seguinte à finalização da obra devido à tuberculose, aos 30 anos. Não foi necessário mais que esse livro, contudo, para que a escritora britânica jamais deixasse a consciência coletiva. Desde então, sua história continua a ser vendida aos montes, tornou-se base para um hit inesquecível de Kate Bush, Wuthering Heights, e inspirou quase trinta filmes, sem que tantos esforços esgotassem o mistério do romance. Já em cartaz, o mais novo O Morro dos Ventos Uivantes (Wuthering Heights, Reino Unido/Estados Unidos, 2026) se empenha em trazer à tela os desejos subliminares de seus personagens — e relembrar o público do porquê, antes de clássica, a história escandalizou seus leitores.
Dirigida pela provocativa Emerald Fennell, do thriller erótico Saltburn (2023), a nova versão acentua a sensualidade apenas sugerida pela escrita. Toma também liberdades: deixa de adaptar a segunda metade do romance e elimina o irmão da protagonista, Hindley. De resto, a sinopse é similar: adotado pelo pai de uma família decadente, o garoto Heathcliff (Jacob Elordi) cresce maltratado, mas amado pela irmã postiça Catherine (Margot Robbie), que mesmo assim aceita se casar com um vizinho abastado. Rejeitado, o pária de pele escura abandona a região e volta anos mais tarde como homem rico e cruel, determinado a punir seus algozes. Segundo Fennell, sua interpretação picante advém da memória de ler o livro aos 14 anos, abastecida por hormônios pubescentes que preenchiam as lacunas deixadas pela escritora. Tal viés lascivo é comum entre leitores contemporâneos da obra, especialmente a geração que a descobriu como livro favorito da protagonista da franquia Crepúsculo. Emily, no entanto, tinha mais a oferecer que meras fantasias adolescentes.
Em plena Revolução Industrial, a jovem observava a desigualdade ao seu redor e era estimulada pela família a aprofundar seus conhecimentos literários e políticos. Ao lado das irmãs Charlotte e Anne — escritoras dos romances Jane Eyre e A Inquilina de Wildfell Hall, respectivamente —, sonhava em abrir uma escola. Não tinha amigos fora do lar. Sua vista de casa apontava para o cemitério da igreja ao lado, no qual funerais eram frequentes, devido à expectativa de vida local de 25,8 anos. Era impossível escapar da morbidez, bem como dos estigmas ligados a seu gênero e ao pai, um irlandês entre ingleses. Todas essas marcas embalam a degradação narrada em O Morro dos Ventos Uivantes.
Quando o publicou, Emily assumiu o pseudônimo Ellis Bell. Para certos leitores da época, era impensável que uma delicada mulher escrevesse sobre personagens tão revoltantes. Uma primeira crítica descrevia os protagonistas como “odiosos e desprezíveis”, enquanto outra os considerava “selvagens mais brutos que os que viveram antes de Homero”. Neles, estava o horror do isolamento nos campos do interior do Reino Unido. Já na pele morena de Heathcliff estava a dor das marcas racistas do país. Para além do contexto histórico, a trama “investiga a violência estrutural e o romance enquanto obsessão possessiva”, afirma a linguista Adriana Sales, especialista na autora.
Por essas e outras, cineastas geniais como o espanhol Luis Buñuel, o francês Jacques Rivette e o americano William Wyler já adaptaram a trama. Dentre as versões mais populares, a estrelada por Ralph Fiennes, em 1992, se destaca pela fieldade aos acontecimentos do livro, enquanto a de 2011, dirigida por Andrea Arnold, é a única a ter um ator negro no papel do vilão. Para a historiadora Sales, adaptações tão diversas contribuem para a memória de Emily: “A primeira porta de entrada para os leitores é sempre o cinema”. Ao longo do último ano, conforme o novo filme foi divulgado, as vendas do livro na Inglaterra apoiaram a teoria: elas deram um salto de 469%. Assim como o fantasma de Cathy paira sobre os morros da trama, não há nada que aplaque essa paixão misteriosa.
Publicado em VEJA de 13 de fevereiro de 2026, edição nº 2982





