A jornada escaldante do filme ‘Sirât’, o mais peculiar concorrente ao Oscar
Um pai em busca da filha entra no universo das raves no deserto — trama apocalíptica movida por metáforas existenciais e música eletrônica
Um anúncio em tom explicativo precede o filme Sirât (Espanha/França, 2025), que estreia nos cinemas na quinta-feira 26. “Existe uma ponte chamada Sirât que conecta o Inferno ao Paraíso. A quem a atravessa, é advertido que seu caminho é mais estreito que um fio de cabelo e mais afiado que uma espada”, diz o texto sobre o termo árabe do título. Essa ponte metafórica e perigosa, na qual um desequilíbrio pode levar o caminhante ao sofrimento eterno, é trilhada pelo protagonista Luis (Sergi López) e pelo filho caçula, Esteban (Bruno Núñez). Eles saem da Espanha para desbravar o deserto marroquino em busca da filha mais velha de Luis, uma frequentadora de raves que sumiu há meses. Seria mais fácil, porém, achar uma agulha num palheiro: para além das intempéries desse tipo de festa, com centenas de pessoas em um ambiente empoeirado e inóspito, a dupla vai enfrentar uma intervenção militar, quando uma guerra é anunciada nas proximidades, e lidar com rastros de conflitos antigos, que deixaram feridas abertas entre pessoas de diferentes países — além de minas explosivas reais enterradas pelo caminho.
Indicado ao Oscar nas categorias de melhor som — é, aliás, favorito ao prêmio — e filme internacional, concorrendo com o brasileiro O Agente Secreto, o espanhol Sirât anseia por causar sensações mais que narrar uma história. As batidas da música eletrônica acentuam o incômodo do cenário hostil. Em clima pré-apocalíptico, conforto físico e esperança tornam-se artigos de luxo. Para alcançar tal resultado, o diretor galego Oliver Laxe seguiu a cartilha do australiano George Miller, que inaugurou o gênero apocalíptico no cinema com Mad Max, nos anos 1970 — e fez das filmagens no deserto um desafio extra da produção. Sirât foi filmado sob condições extremas no Saara, entre maio e julho, período de altas temperaturas e tempestades de areia severas. Isso levou a equipe a encarar desde dificuldades para respirar até lentes de câmeras quebradas pela violência do vento. “Eram condições duras, com calor de 45 graus”, contou Laxe a VEJA (leia mais abaixo).
Recentemente, ao citar a competição com O Agente Secreto, o cineasta polemizou ao dizer que os brasileiros “ultranacionalistas” elegeriam “até um sapato” caso ele concorresse ao Oscar. Mais tarde, pediu desculpas, pois fez uma piada ruim. De fato, ele se dá melhor em dramas do que em fazer piada, como comprova o filme. Frequentador de raves, assim como boa parte da equipe e do elenco — formado majoritariamente por pessoas que não são atores profissionais —, Laxe bebeu de experiências íntimas vivendo por anos no Norte da África, como o impacto da geografia árida e preceitos da fé islâmica.
Desde a estreia no Festival de Cannes, em 2025, Sirât fomenta discussões e analogias, que vão da apatia niilista dos que já desistiram de tudo e vivem no deserto dançando, até a transcendência espiritual — como o diretor defende. Flertando com o sufismo, filosofia árabe de abnegação que inclui rituais de dança, Laxe vê na expressão corporal e na sensação etérea que a música tecno lhe causa uma conexão com o divino. Se, nessa visão tão pessoal e peculiar, o mundo em colapso de Sirât evoca o paraíso, imagine o que seria o inferno.
“Fomos até o limite”
O diretor Oliver Laxe, 43 anos, falou a VEJA sobre os desafios de fazer Sirât.
Por que ambientar essa trama no mundo das raves? Os movimentos contraculturais anunciam mudanças, e os ravers foram os primeiros a imaginar o caos em que vivemos hoje. Vejo nelas uma dimensão sagrada.
Por quê? Seres humanos se reúnem para dançar em rituais há milhares de anos. O Brasil tem muito dessa ligação da memória do corpo com a de seus ancestrais. A dança expurga traumas.
O que acha das comparações com Mad Max? Eu digo que fizemos o Mad Max Zero. Algo mais social, pré-apocalíptico, realista e conectado com este tempo. A trama em Sirât é amarga e, para ficar palatável, nós nos aliamos ao gênero de aventura, com suspense vertiginoso e excitante.
Qual a maior dificuldade de filmar no deserto? Eram condições duras, com calor de 45 graus. Fomos até o limite. O mundo hoje está cheio de dor — e o filme se conecta a essa dor.
Publicado em VEJA de 20 de fevereiro de 2026, edição nº 2983






