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A incrível conversão da Noiva de Frankenstein em símbolo feminista

Diretora Maggie Gyllenhaal, sobre o filme: 'O que Mary Shelley diria?'

Por Thiago Gelli Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 27 fev 2026, 06h00 • Atualizado em 27 fev 2026, 11h50
  • Após o sucesso de sua estreia na direção com A Filha Perdida (2021), indicado a três categorias do Oscar, a atriz Maggie Gyllenhaal buscava seu novo projeto. Ela, porém, não imaginava que o sucessor daquele drama íntimo sobre maternidade seria um épico fantasioso protagonizado por uma personagem pitoresca — a Noiva de Frankenstein. Nem tampouco que a centelha da imaginação surgiria de uma tatuagem da personagem avistada no braço de um desconhecido numa festa. Conversando com o dono do adereço, Maggie percebeu que nunca havia assistido ao clássico de 1935 sobre aquela figura, dirigido por James Whale. Cumpriu a tarefa dias depois e ficou surpresa ao descobrir que a morta-viva interpretada por Elsa Lanchester é uma invenção do cinema, ausente no livro de Mary Shelley (1797-1851), e que só dá as caras nos instantes finais da produção, quando desperta, grita de horror e rejeita a criatura para quem foi construída como parceira. “Isso me fez pensar no que mais ela teria a dizer”, disse a diretora a VEJA (leia a entrevista abaixo). Assim nasceu A Noiva! (The Bride!, Estados Unidos, 2026), que chega aos cinemas na quinta-feira 5 e revê tanto a personagem quanto o legado da escritora, com direito a referências contraculturais que vão dos bandidos Bonnie e Clyde aos figurinos que parecem emprestados do armário da roqueira Siouxsie Sioux. Tamanha iconoclastia atesta: assim como sua criatura, a criadora é uma rebelde única no alto escalão de Hollywood.

    Filha do casal de cineastas Stephen Gyllenhaal e Naomi Foner, Maggie cresceu dentro da indústria junto do irmão caçula, Jake, que estrelou Donnie Darko (2001) na juventude e logo se tornou mundialmente famoso. Assim como ele, a atriz não tardou para integrar o elenco de grandes produções feito O Sorriso de Mona Lisa (2003), mas antes se aventurou pelo cinema independente americano. No ano 2000, por exemplo, trabalhou com John Waters — o autodenominado “Papa do Trash” — no mordaz Cecil Bem Demente, em que um grupo de guerrilheiros luta contra o cinema comercial e venera autores como o espanhol Pedro Almodóvar e o alemão Rainer Werner Fassbinder. Dois anos depois, foi protagonista da comédia romântica Secretária, sobre um romance sadomasoquista no ambiente de trabalho, hoje clássico cult. Maggie sempre compreendeu os benefícios de fugir do óbvio.

    A ORIGEM - A Noiva, de 1935: filme clássico termina em rejeição ao pretendente
    A ORIGEM - A Noiva, de 1935: filme clássico termina em rejeição ao pretendente (Bettmann Archive/Getty Images)

    Com o passar do tempo, as convenções foram ficando cada vez mais irritantes para ela. Em 2015, aos 37 anos, veio a gota d’água: foi rejeitada por um produtor que a considerou velha demais para fazer par com um ator de 55. Pouco depois, deixou a atuação de lado e passou a se dedicar inteiramente à direção. Ela admite que se sente mais respeitada como cineasta que na posição de atriz. “Não estava acostumada a ser tratada assim”, diz.

    Tendo sentido na pele o machismo da indústria, Maggie agora se dedica a representar mulheres pouco convencionais. Em A Filha Perdida, retrata a mãe nada maternal do livro homônimo de Elena Ferrante. Já em A Noiva!, situa sua protagonista ressuscitada em meio à esbórnia dos Estados Unidos dos anos 1930, entre mafiosos e prostitutas. A protagonista, vivida por uma brilhante Jessie Buckley, carrega as dores de ter sido assassinada misteriosamente e enxerga a parceria com o Monstro (Christian Bale) como oportunidade de fazer justiça com as próprias mãos. Longe da moça em apuros do filme original preto e branco, a personagem é carismática e incrivelmente eloquente. Além de barulhenta e agressiva, a jovem Frankenstein é boa dançarina e vira estrela de inusitados números musicais que remetem a filmes de Fred Astaire. Quando sua atitude explosiva vai parar nos jornais e inspira um movimento comportamental entre os jovens da época, não é difícil entender o porquê.

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    A rebeldia é revigorante e fisga o público justamente por contradizer o sentido original da figura. No filme de 1935 e no menos conhecido A Prometida (1985), que traz no elenco o roqueiro Sting, a amada representa ordem avessa à monstruosidade de seu parceiro. Ela não é coberta por cicatrizes, nem exibe deformações chocantes. É uma bela mulher capaz de se integrar à sociedade — coisa que sua nova versão, decididamente, quer colocar abaixo. Quando criadora e criatura passam, é melhor abrir alas.

    “O que mary shelley diria?”

    Maggie Gyllenhaal falou a VEJA sobre a guinada em sua carreira e as inspirações por trás de A Noiva!

    CRIATIVA - Maggie (à dir.) nos bastidores: “Não ser encaixada em gêneros me interessa”
    CRIATIVA - Maggie (à dir.) nos bastidores: “Não ser encaixada em gêneros me interessa” (Warner Bros. Pictures/.)
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    Por que se interessou pela figura da Noiva de Frankenstein? Ela nunca fala no filme de 1935. Isso me fez pensar: o que mais ela teria a dizer? E o que a própria Mary Shelley diria, como uma mulher do século XIX? Também fiquei fascinada pelo conceito da personagem. O monstro de Frankenstein é um homem adorável, inteligente e solitário. Ele exige a ressurreição da Noiva para aplacar a própria solidão, o que é compreensível. O meu filme, então, pergunta: e ela? Você não pode só criar alguém e forçá-la a ser sua parceira de vida.

    Por que optou por uma abordagem tão fora do comum? A ideia da não classificação em gêneros me interessa. Olhe só para Uma Batalha Após a Outra ou O Agente Secreto. Não sei dizer onde eles se encaixam, e é isso que amo acerca deles. Digo o mesmo sobre meu filme.

    E por que não atua quando dirige? Não sei como outros cineastas fazem isso. Um imprevisto me forçou a assumir o papel de uma figurante, e mesmo assim foi difícil. Atuar me consome por completo, não há equilíbrio.

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    Desde que assumiu o papel de diretora, sente tratamento diferente na indústria? A direção é um trabalho tradicionalmente masculino, então, o jeito como as pessoas falam com você é muito surpreendente para uma mulher. Não estou acostumada a ser tratada assim, mas aprecio a cordialidade e escolho bons parceiros.

    Publicado em VEJA de 27 de fevereiro de 2026, edição nº 2984

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