A curiosa visão sobre as profissionais do sexo em produções nacionais como Dona Beja
Remake renova as criações que exaltam seu tempero único: a força de serem donas de si
Em uma imponente carruagem, Beja (Grazi Massafera) volta para sua antiga cidade, Araxá (MG), com pompa invejada por todas as mulheres da alta sociedade — e atraindo os olhares dos homens. Quem vê pensa se tratar de uma dama da corte portuguesa, mas na verdade é uma mulher que sumira dali dois anos antes. Não sem polêmicas: ela teria matado o próprio avô e abandonado o noivo por quem fora apaixonada desde a infância, Antônio (David Junior), para se entregar a Mota (Virgílio Castelo), ouvidor do imperador dom Pedro II — tudo por dinheiro. Pelo menos, é essa versão que as más-línguas do local contam. Mas conforme se revela na novela para o streaming Dona Beja, que estreia na segunda-feira 2 na HBO Max, os fatos são outros: a heroína foi sequestrada por um homem obcecado por sua beleza e precisou fazer o que era preciso para enriquecer e ter algum controle: trocar seu corpo por joias. Agora, ela está de volta para escandalizar a sociedade mineira conservadora fundando a Chácara do Jatobá, “casa de cavalheiros” mais famosa do século XIX, onde também enfeitiçará aqueles que passarem por sua cama. “Se a vida fez de mim mulher-dama, eu vou fazer do mundo um bordel”, avisa a personagem logo no primeiro dos quarenta capítulos do folhetim.
A produção da HBO Max resgata a trama de Dona Beija, que fez sucesso nos anos 1980 na extinta Rede Manchete, agora com Grazi Massafera no lugar que foi de Maitê Proença — e a promessa de muitos replays das famigeradas cenas de nudez na cachoeira que fizeram a fama da original. No cerne da novela está a história ficcionalizada de uma figura histórica real, a mineira Ana Jacinta de São José (1800-1873), que fez de tudo para tomar as rédeas de sua vida — e de seu corpo — enquanto navegava por uma jornada de sofrimento e abuso. Mais que o apelo sensual, Dona Beja chama atenção por renovar um mote popular na ficção brasileira, da literatura à TV: o fascínio pelas profissionais do sexo — das cortesãs d’antanho às garotas de programa modernas — que se revelam heroínas em busca da redenção.
A nova produção não está sozinha no esforço de transformar uma cortesã em símbolo de empoderamento e afirmação feminina. É célebre o caso de Hilda Furacão, minissérie da Globo de 1998 sobre uma socialite que trocou — porque quis — um casamento idealizado pelos quartos escuros de um prostíbulo em Belo Horizonte e decidiu virar a cabeça de um frei (Rodrigo Santoro). Recentemente, foi revelado que a produtora Boutique começou a desenvolver um remake da história, com o início das gravações sinalizado para o ano que vem. O longa Bruna Surfistinha (2011) fez barulho ao levar para as telas de cinema, sob o signo de história de superação, um recorte da vida real de Raquel Pacheco, jovem paulistana de classe média que decidiu virar prostituta para alcançar sua independência. O longa arrecadou mais de 20 milhões de reais em bilheteria na época, arrastando 2 milhões de pessoas às salas de cinema. Dado o sucesso, uma sequência também com Deborah Secco está prevista para estrear em dezembro deste ano.
Todas essas produções converteram, com êxito garantido, a sina de mulheres “pecadoras” em atributos positivos, como a capacidade de resistir às injustiças e ser senhoras de seus corpos. Fala-se, em suma, de mulheres comuns sendo vítimas do preconceito de sociedades conservadoras. Enquanto Beja é rechaçada pelas mulheres, são os maridos delas que acabam buscando seus serviços. “A mulher objetificada transforma essa objetificação no poder dela, exatamente como a Beja faz”, disse a VEJA Daniel Berlinksy, que assina o remake da HBO com António Barreira. Não é difícil entender o charme dessa fórmula. “A prostituta encarna temas universais, como a transgressão das normas, o amor impossível, o comércio do corpo e a sobrevivência, permitindo assim explorar tabus sexuais e sociais”, analisa a historiadora e escritora Mary Del Priore.
Curiosamente, as cortesãs de fibra parecem ser um produto de entretenimento bem brasileiro. Na contramão delas, Hollywood sempre explorou a atração por essas mulheres com histórias à la Cinderela — com ou sem final feliz ao lado de um príncipe encantado. Em Uma Linda Mulher (1990), Vivian (Julia Roberts) se apaixona pelo cliente ricaço encarnado pelo charmosíssimo Richard Gere — e viveu feliz para sempre. Já Anora (2024), vencedor de melhor filme no Oscar passado, mostra a ingênua Ani (Mikey Madison) pensando ter ganhado na loteria ao se casar com o herdeiro de um oligarca bilionário russo, até que a dura realidade bate à porta. São histórias de força e sucesso inegáveis — mas nossas heroínas nativas não ficam atrás, como prova a resiliência nostálgica das cenas da antiga Dona Beija de Maitê Proença. “Ela transformou a dor em prazer estético, fundou uma casa de prostituição para se vingar dos homens e desnudar a hipocrisia social”, teoriza Mauro Alencar, doutor em teledramaturgia pela USP. Ninguém é capaz de parar nossas cortesãs empoderadas.
Publicado em VEJA de 30 de janeiro de 2026, edição nº 2980





