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Viagem camarada: por que países de recente passado socialista estão em alta para turistas

Os palácios e museus dessas nações, especialmente na Europa, viraram ímã de interesse para pessoas que misturam ideologia e emoção

Por Fábio Altman Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 14 dez 2025, 08h00 •
  • É divertido e emocionante — no filme Adeus, Lenin, o jovem Alex (Daniel Brühl), morador de Berlim Oriental, tem uma ideia para poupar a mãe, ferrenha amante do socialismo, de um sofrimento peculiar. Ela entra em coma na mesma noite, 9 novembro de 1989, em que o muro caiu, e é motivo de pânico que recupere a consciência meses depois, quando a cidade já está em franco processo de acomodação ao mundo capitalista. Para poupar os sentimentos maternos, Alex monta uma farsa elaborada, que inclui vídeos feitos para imitar os noticiários estatais e busca por geleias e ervilhas em lata dos velhos tempos — tudo para que a convalescente continue na ilusão de que nada mudou durante sua doença. Depois, na tela e na realidade, tudo mudaria — mas há agora, na porção leste da Europa, do lado de lá da Cortina de Ferro intuída por Winston Churchill, um fascinante movimento de turismo ao encontro de marcos do tempo do comunismo.

    SÉRVIA - Museu da Aviação em Belgrado: modelos da Segunda Guerra Mundial
    SÉRVIA - Museu da Aviação em Belgrado: modelos da Segunda Guerra Mundial (Giles Clarke/Getty Images)

    Na Romênia, um dos endereços mais visitados é a mansão de Nicolae e Elena Ceausescu, ali onde o casal viveu até ser arrastado para o fuzilamento ao vivo, pela televisão, em 1989. O destaque é a piscina de pedrinhas coloridas que parece ter saído de uma produção de Wes Anderson. Em Berlim, à margem do Rio Spree, brotam filas para o Museu da DDR, a sigla da extinta República Democrática da Alemanha. Há quartos e salas de estar que reproduzem o estilo do passado vermelho. Crianças e adultos podem dirigir, em modo de realidade aumentada, um Trabant, o simpático Trabi, feioso que só ele, com carroceria de plástico reforçado e motor sujão. Em Belgrado, na Sérvia, o Museu da Aviação exibe mais de 200 modelos de aeronaves — usadas na Segunda Guerra Mundial — e destroços de um F-117 Nighthawk e um F-16 da Força Aérea dos Estados Unidos, ambos abatidos durante o bombardeio da Otan à Iugoslávia em 1999.

    Não há, por óbvio, estatística que reúna os gastos com essa modalidade saudosista, mas é evidente o crescimento. No Brasil, inclusive, há uma agência, a Estrela Vermelha, que se apresenta como especializada “nas experiências socialistas e em países fora das rotas comuns”. Agora em novembro um grupo foi para o Vietnã. Em março do ano que vem, o destino será a China. No primeiro ano de atividade, desde novembro de 2023, foram realizadas dezoito travessias para dez diferentes países, com cerca de 300 viajantes do tempo. A empresa é a única no Brasil a atender, hoje, a rota da Transiberiana. Diz o texto de apresentação: “as viagens são pensadas e realizadas de camaradas para camaradas, como gostamos de dizer”. Um pacote para o Cáucaso (Geórgia e Armênia), por exemplo, com dezesseis noites, sai por cerca de 2 500 euros, o equivalente a 16 000 reais. “Pelos relatos que recebemos de nossos clientes, são passeios emocionantes, no avesso da indiferença”, diz Rodrigo Ianhez, historiador especializado em União Soviética, sócio da companhia, que transforma os destinos em agradáveis aulas de civilização. As excursões tradicionais à Rússia — que ainda são feitas, apesar do isolamento imposto pela guerra — costumam mirar palácios do tempo imperial. A Estrela Vermelha bebe também do tempo de Lenin e Stalin, igualmente fascinantes.

    ALEMANHA - Passeio de Trabant por Berlim Oriental: realidade aumentada
    ALEMANHA - Passeio de Trabant por Berlim Oriental: realidade aumentada (./Divulgação)
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    Mas, afinal de contas, por que o interesse? Há um quê de tonalidade política, de novos partisans à flor da pele, sim, mas é ilusão imaginar que apenas pessoas de esquerda sintam saudade do que perderam — os países do antigo bloco soviético têm lugares espetaculares, que parecem ter sido postos em formol, e quase sempre a preços muito mais convidativos do que os praticados na Europa Ocidental, por exemplo. E revisitar a história mal não faz, que seja para imediatamente postar no Instagram ou tascar um reel de segundos para lá de efêmero. “A nostalgia das viagens não é exatamente o desejo de retomar os antigos sistemas, mas de dar algum sentido à falta de estabilidade e de propósito que sucedeu à derrocada dos governos no fim dos anos 1980”, diz a antropóloga americana Katherine Verdery, especialista em memória pós-socialista. Para ela, houve uma mudança de registro. “O que era ideologia se transformou em repertório emocional que expressa tanto a perda quanto a permanência.” Um espectro ronda a Europa, com ar vintage — e, no fundo, no fundo, vai-se ao casarão exagerado dos truculentos Ceaucescu como quem conhece o Palácio de Versalhes, de onde Luís XVI saiu forçado pelo povo que o levaria à guilhotina. O tempo molda o olhar do ser humano para sua própria aventura.

    Publicado em VEJA de 12 de dezembro de 2025, edição nº 2974

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