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Uso de inteligência artificial para montar roteiros de férias é caminho sem volta — mas há riscos

As sugestões fornecidas por IA, dada a rapidez com que se espalham, têm alimentado o fenômeno do “overturismo”

Por André Sollitto Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 10 jan 2026, 08h00 •
  • Parece tempo pré-histórico, com ainda menos pegadas do que as deixadas pelos dinossauros. Na virada do século, ali pelos anos 2000, nessa época do ano as pessoas ainda folheavam guias de viagem impressos ao percorrer estradas — e atire a primeira pedra quem não tinha o QUATRO RODAS no porta-luvas do carro. Era divertido, embora trabalhoso, definir roteiros, escolher restaurantes e hotéis, anotar os pontos turísticos e errar, sim, por humano. A internet provocaria um vendaval, como de resto em todos os setores do cotidiano. Os sites, associados ao uso das redes sociais, fizeram tudo mais rápido e mais simples, e adeus ao charme romântico do passado. É inegável, contudo, o extraordinário avanço de praticidade, com reservas e cancelamentos imediatos, a um mero clique. Louve-se a incomparável ajuda da tecnologia.

    Há agora uma revolução dentro da revolução, com a introdução da inteligência artificial (IA). A onipresente ferramenta serve a planejamentos, com a infinita capacidade de comparar preços, medir distância e, do cruzamento de todas as informações, oferecer desenhos adequados. As plataformas mais comuns são o ChatGPT e o Gemini, que entregam respostas imediatas e comprovadamente eficazes. Pesquisa recente da consultoria internacional Accenture dá conta do imparável movimento de transformação: 42% dos viajantes, em todo o mundo, lançam mão dos algoritmos em busca de recomendações personalizadas. “A IA não é mais um conceito abstrato, vem sendo usada em todo o setor de turismo, sobretudo na hotelaria”, escreve Emily Weiss, diretora-executiva sênior e líder global do setor de viagens da Accenture, no relatório da consultoria.

    NA ESTRADA - Monument Valley, em Utah: o carro como destino sonhado
    NA ESTRADA - Monument Valley, em Utah: o carro como destino sonhado (Jeremy Edwards/Getty Images)

    Para além dos cidadãos comuns, as próprias empresas do setor estão investindo na IA, a exemplo de serviços clássicos como o Booking e o TripAdvisor. A plataforma Expedia tem um sistema de conversas com robôs que usa o ChatGPT para fornecer sugestões. Cada indicação é salva na página do usuário, facilitando na hora de reservar um hotel ou passeio. A engrenagem matemática tem servido também a outra finalidade: o encontro de tendências, e é natural que muita gente goste de estar na crista da onda, sempre. A IA, enfim, ajuda a encontrar a moda e o destino da hora.

    É o caso das “quietcations”, expressão que significa “férias tranquilas”, a partir da junção de duas palavras em inglês. Trata-se da busca por lugares silenciosos, sem grandes aglomerações, para recarregar as energias longe do estresse de grandes centros urbanos. Cabanas sem energia elétrica no Oregon ou destinos na Suécia estão entre os favoritos do momento. Há também amparo especial nas travessias de carro, dada a facilidade com que a IA traça as rodovias, das maiores às vicinais. Um estudo feito pela rede de hotéis Hilton indica que 71% dos americanos estão dispostos a passar horas atrás do volante nas próximas férias, trocando os aeroportos pelas estradas. Assim, têm mais liberdade para passear. Um dos cantos mais procurados é o estado de Utah, de horizontes cinematográficos no fim da linha.

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    HUMANOS DEMAIS - Em Barcelona, diante da Sagrada Família: “overturismo”
    HUMANOS DEMAIS - Em Barcelona, diante da Sagrada Família: “overturismo” (Marc Asensio/NurPhoto/Getty Images)

    Nem tudo, porém, deve ser celebrado. As sugestões fornecidas por IA, dada a rapidez com que se espalham, têm alimentado o fenômeno do “overturismo”, direcionando os viajantes para os mesmos poucos destinos, como a Espanha e a Itália. Os moradores dessas regiões estão irritados com a quantidade de estrangeiros atrapalhando a vida cotidiana e são comuns os casos de altercações entre habitantes locais e viajantes. Experimente chegar perto da Sagrada Família, em Barcelona — é missão impossível.

    Há ainda um impacto incômodo nos trabalhos do setor. Ferramentas de tradução e check-ins automáticos estão reduzindo a necessidade de trabalhadores humanos em funções burocráticas. Os chatbots viraram regra. Os antigos agentes de viagem estão perdendo a relevância frente aos algoritmos, capazes de processar demandas complexas rapidamente. Mas especialistas apontam que o toque humano continuará essencial, tanto para entender desejos muito pessoais dos turistas quanto para resolver problemas de carne e osso. Direto ao ponto: ninguém, mas ninguém mesmo, quer sofrer no meio das férias tendo que discutir com um robô programado para responder apenas um punhado de questões óbvias, sem empatia ou alma. A humanidade ainda anda de lá para cá.

    Publicado em VEJA de 9 de janeiro de 2026, edição nº 2977

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