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Um em cada três cigarros vendidos no Brasil é ilegal

O contrabando da mercadoria movimenta 10 bilhões de reais ao ano e representa 8 bilhões em evasão fiscal

Por Valéria França Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 8 mar 2026, 11h50 • Atualizado em 8 mar 2026, 11h59
  • Um em cada três cigarros consumidos no Brasil é ilegal. O dado revela a dimensão de um mercado clandestino que se expandiu de forma consistente nos últimos anos e que hoje representa uma das principais fontes de financiamento do crime organizado no país. A estimativa faz parte de um levantamento inédito realizado pela Ipsos-Ipec sobre esse mercado, segundo o qual 31% dos cigarros vendidos no Brasil são contrabandeados ou produzidos de forma irregular.

    Apenas em 2025, facções criminosas colocaram em circulação aproximadamente 32 bilhões de unidades de cigarros ilegais, movimentando cerca de R$ 10 bilhões. Desse total, R$ 8,5 bilhões correspondem à evasão fiscal. O cenário evidencia não apenas a dimensão econômica do problema, mas também seu impacto direto sobre a arrecadação pública, a concorrência formal e a segurança pública.

    Atualmente, a terceira marca de cigarro mais vendida no Brasil é contrabandeada do Paraguai: a Eight, que detém cerca de 10% do mercado brasileiro. A lógica do negócio ilegal é simples: trata-se de uma mercadoria de alta demanda, de fácil transporte, com ampla capilaridade de distribuição e margens elevadas — sobretudo quando associada à evasão fiscal. Essa combinação de alto lucro e risco relativamente menor, quando comparada a outros ilícitos, torna o cigarro ilegal extremamente atraente para organizações criminosas.

    Dados da Receita Federal reforçam o avanço da ilegalidade. Entre janeiro de 2026 e o mesmo mês de 2025, o valor das apreensões aumentou 22%. Apenas em janeiro deste ano, foram retidos R$ 61,5 milhões em cigarros ilegais em todo o país — um montante que evidencia não apenas a escala do problema, mas também o grau de organização e sofisticação dessas operações.

    O avanço do contrabando ocorre dentro de um cenário mais amplo de expansão da economia ilegal. Levantamento do Fórum Nacional Contra a Pirataria e a Ilegalidade (FNCP) aponta que as perdas provocadas por contrabando, falsificação e pirataria somaram R$ 473,2 bilhões em 2025, o maior valor já registrado na série histórica. O montante inclui R$ 326,3 bilhões em prejuízos diretos da indústria e R$ 146,8 bilhões em evasão fiscal.

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    Em 2020, o prejuízo estimado era de R$ 288 bilhões. Em apenas cinco anos, o avanço foi de 64%, o que representa um salto superior a R$ 185 bilhões. Em uma década, as perdas mais que quadruplicaram, consolidando o mercado ilegal como um dos principais vetores de desequilíbrio econômico e concorrência desleal no país.

    Estrutura do contrabando

    Especialistas apontam que o contrabando de cigarros ajuda a estruturar uma rede logística que posteriormente passa a ser utilizada para outros produtos ilegais. Rotas clandestinas de transporte, depósitos e canais informais de distribuição acabam servindo também para mercadorias como bebidas falsificadas, eletrônicos piratas e perfumes contrabandeados. Uma vez montada, essa engrenagem reduz custos e riscos para as organizações criminosas, que passam a diversificar suas atividades e ampliar os lucros.

    “Estamos diante de um problema estrutural que vai muito além dos efeitos econômicos. A combinação de alto lucro e baixo risco tem ampliado o interesse das organizações criminosas pelo mercado ilegal, que hoje funciona como uma importante fonte de financiamento dessas redes”afirma Edson Vismona, presidente do FNCP . O impacto dessa engrenagem ilegal se espalha por diversas cadeias produtivas. Entre os setores mais afetados estão vestuário (R$ 87,3 bilhões), bebidas alcoólicas (R$ 83,2 bilhões), combustíveis (R$ 29 bilhões), higiene pessoal (R$ 21 bilhões), perfumaria e cosméticos (R$ 21 bilhões) e defensivos agrícolas (R$ 20,6 bilhões). Também aparecem na lista ouro (R$ 12,7 bilhões), TV por assinatura (R$ 12,1 bilhões), óculos (R$ 11,4 bilhões) e cigarros, com perdas estimadas em R$ 10,5 bilhões.

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