“Talento não é tudo”, diz mãe de garoto prodígio
Priscila de Melo, 42 anos, narra a luta para driblar a pobreza e garantir sua educação
Em 1º de abril de 2026, meu filho Álvaro completou 10 anos. Queria ter feito a festa que ele merecia, mas, sem condições financeiras, tivemos de passar essa data em um abrigo no Grajaú, Zona Norte do Rio. Mesmo com poucos recursos, a equipe preparou uma pequena comemoração, já que ele era a única criança no local. Cercado por adultos, Alvinho, como é conhecido, fez o que costuma fazer: observou, aprendeu e encontrou uma maneira de se enturmar. Entendeu rapidamente as regras do dominó e, pouco depois, já havia uma fila de gente esperando para perder pra ele. Meu filho é superdotado e tem uma curiosidade que parece não ter fim, mas, nos últimos meses, nossa maior preocupação deixou de girar em torno do próximo assunto de seu interesse e passou a ser como sobreviver a uma vida de privações. Doente, eu fiquei sem condições de trabalhar e nossa situação financeira desmoronou. O que não poderia imaginar é que uma corrente de solidariedade se espalharia pelas redes sociais para nos ajudar.
Mesmo tendo nascido na Maré, uma comunidade pobre do Rio, com perspectivas estreitas de vida, eu percebia que meu filho era diferente das outras crianças. Sou pedagoga e cheguei a estudar altas habilidades na faculdade, mas nunca havia convivido com uma criança assim. Quando bebê, ele chamava atenção pela ótima dicção. Aos 3 anos, na creche, as diferenças ficaram mais evidentes: gostava de conversar com adultos, expunha opiniões e dava conselhos aos funcionários. Durante a pandemia, alfabetizou-se sozinho, usando um aplicativo, e aprendeu inglês da mesma maneira. Aos 7, fez um curso on-line de programação de Harvard e criou o jogo “Super Alvinho”, sobre um cientista que desenvolve robôs agrícolas para melhorar a produção de alimentos. Uma especialista confirmou a superdotação e passei a buscar uma educação capaz de acompanhar seu ritmo, já que a escola pública se mostrava pouco desafiadora.
Nada era fácil. Me separei do pai de Alvinho quando ele tinha 2 anos, por conta de violência doméstica, e nunca recebi 1 centavo de pensão. Mesmo assim, terminei a faculdade de pedagogia, fiz uma segunda graduação em biologia e comecei um mestrado em tecnologia social na UFRJ. Alvinho ganhou uma bolsa integral em um colégio particular em Cabo Frio, o que nos fez mudar de cidade. Estávamos recomeçando, mas, no fim do ano passado, adoeci. Depois de meses sem diagnóstico, descobri uma tuberculose resistente. Sofri um derrame pleural, passei por uma cirurgia para drenar o pulmão e fiquei debilitada demais para trabalhar. Com uma doença infectocontagiosa e sem renda, já não podia continuar dormindo na casa de parentes ou conhecidos. Voltamos ao Rio e passamos a viver em abrigos. Foi a fase mais difícil de nossas vidas.
Recentemente, nossa história começou a circular nas redes sociais e aconteceu algo que eu não esperava: pessoas de diferentes cantos do Brasil e do mundo se mobilizaram para nos ajudar. Conseguimos arrecadar 213 000 reais em doações e com a venda do livro escrito pelo garoto. Recebemos propostas de diferentes escolas interessadas em acompanhar o desenvolvimento dele. Após terminar o ano letivo em Cabo Frio, a ideia é retornar para a capital em definitivo. Pretendo continuar meu tratamento na Fiocruz e escolher o colégio onde Alvinho seguirá estudando. Quero encontrar uma casa, terminar meu mestrado e voltar a trabalhar. Acima de tudo, anseio algo que deveria ser simples para qualquer criança: estabilidade para estudar, aprender e descobrir até onde sua curiosidade pode levá-lo. Agora, finalmente, consigo fazer planos que vão além da próxima semana. Talento ajuda, mas não é tudo. Oportunidade é fundamental.
Priscila de Melo em depoimento a Sara Salbert
Publicado em VEJA de 25 de setembro de 2026, edição nº 3014







