“Sobrevivi quando o mundo me negava um futuro”
Mulher trans, negra e brasileira, Pamela Ferreira venceu obstáculos e hoje ocupa posição de destaque na moda de Paris
Digo que a minha história não é sobre “dar certo” na vida, mas sobre reconstruir dignidade quando tudo foi arrancado de você. Porque eu sobrevivi quando tudo à minha volta parecia decidido a me negar um futuro. Fui expulsa de casa ainda adolescente. O ambiente que deveria me proteger me empurrou para o trabalho sexual compulsório. Vivi violência doméstica, passei pela prisão, enfrentei a deportação quando cheguei à Europa. Convivi com a depressão e com a ideia persistente de desistir da vida. Houve dias em que respirar parecia um esforço desnecessário. Ainda assim, eu fiquei, não por heroísmo e, sim, porque, no íntimo, acreditava que minha existência precisava continuar fazendo sentido. Fiz um curso de maquiagem, depois fui convidada a trabalhar na escola onde estudei, e as coisas andaram.
Hoje, faz quase duas décadas que vivo em Paris. Caminho por ruas que um dia atravessei com medo e agora atravesso com propósito. Atuo no universo da moda como relações-públicas especializada no atendimento a personalidades brasileiras. Um espaço que raramente foi pensado para corpos como o meu, um território onde imagem é linguagem e a postura comunica tanto quanto palavras. Opero no coração do ecossistema do luxo europeu, traduzindo códigos, preparando presenças, mediando relações entre pessoas e maisons. Mas, antes de tudo, eu escuto. Escuto histórias, inseguranças, ambições. Porque aprendi muito cedo que, antes de vestir roupas, a moda veste narrativas.
Minha trajetória até aqui, claro, não foi linear. Sou formada em pedagogia, passei pela área de informática, sempre acreditei no poder da educação como ferramenta de transformação. Já em solo francês, foi a maquiagem que abriu meu primeiro caminho profissional. Depois veio a moda. E, finalmente, a atuação como relações-públicas se revelou como o ponto de convergência entre tudo o que eu sempre fui: alguém capaz de ler pessoas, contextos e símbolos. Meu trabalho começa muito antes de as luzes se acenderem na Paris Fashion Week. São meses de preparação, com estudo do DNA das marcas, construção de narrativas, elaboração de agendas estratégicas, alinhamento de expectativas. Sou a mediadora silenciosa de pessoas, marcas e histórias.
Acredito que compreender o que se veste é também uma forma de respeito. Ética, elegância, confidencialidade e humanidade não são slogans para mim, mas práticas diárias. Trabalho em um mercado que muitas vezes se alimenta de exploração, e por isso faço questão de operar com consciência. Ser hoje a única mulher negra trans atuando em Paris como assessora de moda especializada em personalidades brasileiras carrega um significado que ultrapassa qualquer mérito individual. Minha presença é política, ainda que meu discurso seja técnico. Cada porta que atravesso não se fecha atrás de mim. Ela se torna passagem para outras presenças. Nesse percurso, fui inclusive reconhecida como crítica de moda pelo designer francês Stéphane Rolland, porque observo avanços nas discussões sobre diversidade na indústria sem deixar de reconhecer as resistências persistentes. A moda gosta de falar em inclusão, mas está aprendendo a praticá-la.
É fato que mulheres trans e negras seguem derrubando fronteiras todos os dias, transformando a indústria e o estilo por dentro. Mas esse trabalho, a meu ver, envolve resistir sem romantizar a dor. Eu não romantizo o que vivi. Não há beleza na violência, na exclusão, no desamparo. O que existe é decisão, e a minha é e sempre foi continuar. É por isso que quero organizar minhas memórias não como um espetáculo de sofrimento, mas como um documento de existência. Uma trajetória resumida em três palavras. Resiliência, porque fiquei. Elegância, porque não endureci. E consciência, porque sei que existir é um ato de coragem.
Pamela Ferreira em depoimento a Simone Blanes
Publicado em VEJA de 13 de março de 2026, edição nº 2986





