Quero ser pequeno: o mercado para adultos loucos por brinquedos de crianças
A onda só cresce ao redor do mundo
É uma das cenas mais memoráveis da história do cinema, joia de um clássico inescapável da Sessão da Tarde, Quero Ser Grande, de 1988. Josh, o menino de 12 anos que uma misteriosa máquina de parque de diversões fez acordar um dia com 30 anos, dança como criança no imenso teclado de uma loja de Nova York, a FAO Schwarz. É a linda parábola da manutenção do espírito infantil de quem já cresceu — e talvez hoje sirva de metáfora para os adultos que anseiam permanecer pequenos, como o querido e eterno Peter Pan.
A estatística confirma o desejo. No ano passado, a indústria global de brinquedos cresceu 7% graças ao aumento de compras dos chamados kidults, os adultos-crianças. Pessoas já maduras colecionando trens não é novidade, como sabemos desde nossos avós e bisavós — mas espanta o prazer de ter em mãos peças de Lego, os personagens de Star Wars, cartões de Pokémon, carrinhos Hot Wheels, bonecas Barbie, os feiosos Labubus e um imenso etc. É uma febre de coloração infantojuvenil. Há uma década, apenas 9% dos gastos com brinquedos nos cinco maiores mercados da Europa vinham de pessoas com mais de 18 anos. No ano passado, essa participação mais que dobrou. O faturamento global dessa fatia de diversão saltará de 38,7 bilhões de dólares em 2025 para algo em torno de 67,9 bilhões de dólares, segundo estimativa recente. No Brasil, de um ano para cá, houve expansão de 16% do naco de jogos de tabuleiros e cartas e 17% dos blocos de construção, prediletos dos crescidinhos (veja no gráfico). “Muitos adultos buscam realizar desejos de infância que não foram atendidos, presenteando a si mesmos com itens antes inacessíveis”, diz Synésio Costa, presidente da Associação Brasileira dos Fabricantes de Brinquedos, a Abrinq.
A interessante chacoalhada do setor bebe de uma série de passos simultâneos. Deve-se ter na conta a mudança demográfica. No Brasil, em 2025, pela primeira vez na história, o número de casais com filhos caiu para menos da metade. Convém também destacar o aspecto nostálgico, de gente cheia de tanta internet, das redes sociais e de algoritmos. Prosperam, nessa virada comportamental, espaços como o Bodogami, no bairro da Liberdade, em São Paulo, em que se divide um prato de lámen com jogos de estratégia. “O público que mais nos procura é de jovens adultos de 25 a 35 anos, especialmente depois do horário de trabalho, para relaxar longe do smartphone ou do computador”, diz Rafael Kanaoka, fundador do endereço. No Bario Bar, com três unidades na capital paulista, a farra são os fliperamas como os de antigamente. “É um jeito de sair da rotina, limpar a mente e ficar longe das telas”, resume Lucas Santana, de 32 anos, que trabalha no mercado financeiro e coleciona tudo quanto é tipo de Lego, alavancado, ao infinito e além, pela nave Millennium Falcon de pecinhas coloridas, lançada em 2017. Não é de surpreender, portanto, que o pessoal grande tenha vontade de sair por aí sapateando no teclado como Tom Hanks.
Publicado em VEJA de 6 de março de 2026, edição nº 2985






