“Passei muito perto da morte”
O empresário Roberto Lucchese, de 41 anos, relata os desafios de escalar o Everest após escapar de grave acidente
Chegar ao cume do Monte Everest é um sonho que cultivava há algum tempo. No ano passado, estive a menos de 400 metros de lá. É motivação pessoal com olhar solidário. Depois da tragédia das enchentes no Rio Grande do Sul, em 2024, eu, que sou empresário da construção civil e ajudei na reconstrução de uma das primeiras pontes depois da catástrofe, queria demonstrar que o povo continua forte e resiliente. Daí imaginei um gesto de apoio: levar a bandeira do meu estado ao topo do mundo. A partida ocorreu no início de maio. As pessoas de meu grupo, na subida, estavam ansiosas e preocupadas em razão do atraso que ocorreu na espera de ter melhores condições para iniciar a escalada a partir do acampamento-base. Um dos obstáculos mais complicados eram as pedras de gelo, que são como edifícios e pareciam estar mais inclinadas do que nunca.
Em 5 de maio, uma delas caiu de modo assustador. Dois outros brasileiros, um sherpa (guia nepalês) e eu tínhamos começado a escalar em torno da 1 hora da madrugada. Sabíamos dos riscos e por isso aceleramos o passo. Em um ponto de 22 a 25 metros de distância da pedra, em torno de dois a quatro minutos de escalada, aquele monstro de gelo com quase 30 metros de altura simplesmente se desmanchou e desceu levando tudo o que tinha no caminho. Foi assustador. Outras pessoas caminhavam mais abaixo, atrás de nós. Ficamos extremamente preocupados e logo começamos a ouvir os gritos de socorro. Eu me emocionei, foi muito difícil, porque sou pai de três filhos e tenho minha esposa. Só pensava na família. Depois, notamos um helicóptero circulando acima de nossas cabeças. Tivemos que parar. Foram quase dez minutos de espanto. Mas a intuição me dizia para continuar. O helicóptero desceu de forma surpreendente no meio do gelo. Ali, tive a certeza de que algo trágico estava acontecendo. Não houve mortes, porém dois expedicionários foram feridos com gravidade. Mas havia um quê de genuína felicidade ao perceber que poderiam se recuperar e que os outros brasileiros estavam bem.
Na retomada da jornada, os primeiros 7 000 metros foram duros, porque tinha muita pedra caindo. O Everest, na comparação com o ano passado, está muito mais difícil em termos de clima. Na segunda metade do monte, era comum pisar nas escadas de gelo formadas pelo volume de pessoas que passavam, o que facilitava a empreitada. Agora, não, foi mais complicado. Escalo há quinze anos e nunca tinha visto uma montanha tão forte. Foram 45 dias extremos da minha vida, perdi quase 14 quilos e tive queimaduras na face por causa do frio. Confesso que a sensação de medo e, principalmente, a exposição à morte foram muito maiores do que pensava. As três horas finais foram extremamente nervosas. Passar por corpos de pessoas que também sonharam, treinaram e tiveram o mesmo objetivo, mas estão ali há alguns anos, é um choque de realidade muito claro.
Escalar o Everest é uma mistura de sentimentos: de superação e de encarar o fim da vida de frente. Mas deu certo. O fundamental é que chegamos lá em cima, quase no céu, a mais de 8 800 metros de altitude. Insisto: foi tudo pensando em nome de uma ideia, de um objetivo: a meta era mostrar que uma pessoa de origem simples pode também atingir objetivos inacreditáveis com esforço, preparação, foco e fé. Após passar tão perto da morte, valoriza-se ainda mais a vida. É extraordinário sentir que respirar é uma dádiva e ter oxigênio é um prêmio indizível. Quero agora me reconectar a minha família, minha região, meu estado, a nossa comida e nossa cultura, tudo o que a gente tem de bom no Brasil. Volto com a sensação de missão realizada por aqueles poucos segundos que estive no topo do mundo.
Roberto Lucchese em depoimento a Paula Felix
Publicado em VEJA de 29 de maio de 2026, edição nº 2997





