Oferta Relâmpago: VEJA por apenas 9,90

Os desconectados: os desafios de quem tenta romper com a vida on-line

Diante da avalanche de estímulos e distrações na tela do celular, um grupo crescente de pessoas busca um caminho radicalmente diferente

Por Valéria França Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 20 mar 2026, 06h00 • Atualizado em 20 mar 2026, 11h07
  • Parem as máquinas. Ou melhor: parem de se conectar às máquinas. Esse é o grito de guerra de um número cada vez maior de cidadãos mundo afora que vêm se rebelando contra a rotina dominada por telas. Uma das brasileiras que representam essa contracorrente em um planeta cada dia mais on-line é Antonia Brandão Teixeira, cofundadora do movimento Desconecta. “A ideia não é proibir, mas orientar o uso de forma mais produtiva e saudável”, diz, ao resumir a filosofia desplugada. Na casa da paulistana, não há TV nos quartos e os filhos, de 4, 11 e 12 anos, não têm celular. Ela mesma procura ser o exemplo: restringe as trocas de mensagens no WhatsApp e não leva o smartphone para a cama ou a mesa. Diante dos apelos da primogênita, comprou um dumbphone, aparelho sem conexão à internet, para a filha, mas ela recusou. “Como tem cara de telefone de vó, ficou constrangida de usar na presença dos amigos”, diz a mãe.

    arte geração offline

    As vivências de Antonia e sua família refletem um dos maiores dilemas da nossa era: os limites de uma vida ultraconectada. Um levantamento recente feito pela USP revela que quase metade dos usuários de celulares gostaria de reduzir o tempo dedicado à telinha. Entre os jovens, a situação parece particularmente preocupante: ao menos quatro em cada dez se sentiam “viciados”. De fato, nos últimos anos multiplicaram-se os estudos a acusar problemas sociais e emocionais que vieram na esteira da popularização de Instagram, YouTube, TikTok e cia. Quanto mais tempo imerso nas plataformas digitais, menos tempo sobra para as atividades da vida real, que ajudam a desenvolver a cognição, o pensamento crítico e os vínculos afetivos. É o que alerta o psicólogo americano Jonathan Haidt, autor do best-seller A Geração Ansiosa (Companhia das Letras). As pessoas, segundo o pesquisador, estão se tornando “menos capazes” devido à implosão da capacidade de atenção.

    Especialistas e os próprios usuários observam que a lógica das redes sociais — baseada em estímulos constantes, respostas rápidas e conteúdos viciantes — favorece reações imediatas em detrimento da reflexão. Na prática, isso se traduz em ansiedade, déficit de concentração e sensação de esgotamento, sintomas cada vez mais presentes nos consultórios médicos. Mais do que o tempo de tela, que hoje domina o cotidiano de adolescentes, adultos e idosos, para não falar nas crianças, o que está em jogo é a relação de dependência estabelecida com o ambiente digital. É contra esse cenário que irrompem os movimentos de desconexão, numa tentativa de impor limites e, em alguns casos, excluir aplicativos ou adotar dispositivos mais simples, como os tais dumbphones, que voltaram a movimentar o mercado de produtos novos e usados.

    People in jeans hold push-button phones in their hands on their knees Credito: Elena Rui/Getty Images
    ALTERNATIVA - Os dumbphones: aparelhos com jeitão antigo e sem acesso à internet ganham espaço (Elena Rui/Getty Images)

    Mas como se desconectar em uma sociedade que exige acesso à internet para trabalhar, fazer pedidos em serviços de delivery, monitorar os filhos e até se divertir? Para se ter noção, os brasileiros passam, em média, mais de nove horas por dia conectados — um volume que instala o país entre os líderes mundiais em tempo de tela, superando o índice global, de cerca de sete horas. É praticamente um terço do dia. “O movimento off-line aparece como um possível caminho, não como imposição, mas como escolha”, diz Raquel Cruz, coordenadora do Artigo 19, organização de direitos humanos que atua por um ambiente digital mais seguro. A ideia é lembrar que existe vida lá fora — fora das mídias sociais, dos games e dos vídeos no YouTube.

    Continua após a publicidade

    Formado em 2018, durante a Bienal de São Paulo, o coletivo Amigos da Atenção se transformou em um movimento internacional que busca resgatar a importância de parar e dedicar minutos ou horas a alguma atividade muito além das telas. “Há uma diferença entre simplesmente se desconectar e, de fato, compreender a atenção como eixo central desse debate”, diz Vitória Oliveira, uma das ativistas do coletivo. No dia a dia, muitas pessoas passam a considerar a via da desconexão a partir de um incômodo — uma sensação de desconforto com a forma de se relacionarem com a tecnologia. Foi o que aconteceu com Vitória. Em determinado momento, excluiu todas as redes sociais. Hoje, usa apenas uma, restrita a amigos e que não fica instalada no celular. “É um exercício de intencionalidade: só acesso quando realmente quero, não por impulso.”

    HISTÓRICO - Proibição de celular nas escolas: decisão pelo bem da infância
    HISTÓRICO - Proibição de celular nas escolas: decisão pelo bem da infância (Bruna Prado/AP/Imageplus)

    A disputa pela atenção não é abstrata. Ela tem base econômica. As empresas de tecnologia atraem os dados, o tempo e a atenção das pessoas, em troca de uma sucessão de estímulos. E depois, é natural, fazem dinheiro com a imensa audiência. Tal relação vem sendo chamada de “fracking humano”, em referência à técnica de extração de petróleo em que substâncias químicas são injetadas no subsolo para romper estruturas profundas e liberar os recursos. “Há um processo contínuo de fragmentação da experiência, em que estímulos são quebrados em unidades cada vez menores, refinados e convertidos em valor econômico”, disse a VEJA o escritor e ativista americano Peter Schmidt, coautor do manifesto Attensity! (leia a entrevista), brado radical contra o status quo e que está dando o que falar.

    As plataformas, porém, não medem esforços para seduzir e recapturar quem tenta sair da adesiva ágora. Nada contra o legítimo direito de toda empresa de defender seus produtos e oferecê-los ao mercado, em movimento natural da saudável livre iniciativa. O que se aconselha, como em tudo, é o equilíbrio — e mesmo dentro das tais big techs há grupos que já trabalham com os novos humores, a olhar para a sociedade. A empresária Susie Lau-­Kuppen, de São Paulo, descreve uma relação ambígua com as redes sociais. “Há ambientes em que me sinto mal e chego a excluir minha conta, mas acabo voltando”, diz. A dinâmica, ela reflete, se aproxima de um comportamento compulsivo, em que a consciência do desconforto não basta para interromper o círculo vicioso. É por essas e outras que o marido, o alemão Andreas Lau-­Kuppen, não se dobra: “Nunca tive conta no Instagram ou no TikTok e parei de usar o Facebook em 2012”. Ele prefere evitar o “desperdício on-line” e utilizar o tempo para correr e treinar boxe na praia.

    Continua após a publicidade
    A LUTA DIÁRIA - Andreas Lau-Kuppen (à esq.): boxe na praia
    A LUTA DIÁRIA – Andreas Lau-Kuppen (à esq.): boxe na praia (//Arquivo pessoal)

    Para alguns cidadãos, a desconexão total surge como estratégia diante da dificuldade de estabelecer limites — uma espécie de abstinência deliberada. A decisão pode funcionar como uma tentativa legítima de manter limites. “É algo que Freud já indicava como necessário para a vida em sociedade: a renúncia a certas satisfações imediatas”, diz Fernanda Samico, coordenadora da pós-graduação em psicanálise da Casa do Saber. Uma lição que deveria ser aprendida desde a infância. E que inclusive motivou a criação do movimento Desconecta. Hoje considerada uma das iniciativas mais estruturadas do país, ela propõe um pacto coletivo para adiar o acesso a smartphones e redes sociais como forma de reduzir a pressão que leva à hiperconexão precoce — embora os desafios, claro, estejam a um passo de nós, dentro de casa, como mostra a experiência da fundadora Antonia.

    Se entre gente grande o apelo pela desconexão se infiltra aos poucos — ou abruptamente, como depois de uma crise de nervos —, ganha corpo o consenso de que, entre crianças e adolescentes, os cuidados com o abuso são indispensáveis. E a pressão de famílias, educadores e especialistas já começa a se refletir em políticas públicas. Desde o ano passado, o uso de celulares foi proibido em escolas de todo o Brasil, medida que vem sendo acompanhada por restrições em algumas instituições de ensino superior. O tema deixou de ser apenas uma questão privada e passou a integrar o debate regulatório. Na quarta 18, também entrou em vigor o estatuto conhecido como ECA Digital, uma regulamentação voltada à proteção de crianças e adolescentes no ambiente virtual — apelidada de Lei Felca, em referência ao influenciador que denunciou perigos nas redes, como a sexualização infantil — que reconhece que a vida on-line requer limites, inclusive legais. A nova norma obriga plataformas a vincularem contas de menores de 16 anos aos responsáveis, impõe bloqueio de conteúdos inadequados, proíbe a autodeclaração de idade e restringe práticas consideradas manipulativas — como reprodução automática de vídeos e rolagem infinita. “Depois de um experimento massivo com uma geração inteira, sem entender completamente seus efeitos, precisamos reconstruir as barreiras que removemos”, analisa Jonathan Haidt. Em outras palavras, até as big techs terão de se mobilizar a favor, de algum modo, da vida desconectada.

    Militância pela atenção

    Autor de um manifesto, o Attensity!, que para muitos soa radical e exagerado, o americano Peter Schmidt analisa como a atenção dos seres humanos virou “mercadoria”.

    Continua após a publicidade
    MANIFESTO - Peter Schmidt: sociedade é vítima do “fracking humano”
    MANIFESTO - Peter Schmidt: sociedade é vítima do “fracking humano” (Danilo Verpa/Folhapress/.)

    Por que o monopólio da atenção é o grande problema das plataformas digitais? A atenção virou o centro de uma indústria gigantesca. O modelo de negócio é baseado em capturar, fragmentar e monetizar nossa atenção. A gente chama isso de “fracking humano”, porque é um processo de extração: não da terra, mas da consciência. Conteúdos são injetados nas telas, entram no cérebro, quebram nossa atenção em partes menores e isso é convertido em dinheiro, o que é uma injustiça, pois afeta pessoas sem proteção alguma, inclusive crianças.

    A saída seria a desconexão, ou é uma ilusão? Não se trata simplesmente de reduzir o uso do celular ou rejeitar a tecnologia, o que seria um contrassenso. O problema não é o dispositivo, mas o modelo de negócio a que ele serve. A tecnologia pode ser extremamente útil — conecta pessoas, amplia conhecimento. O que precisa ser enfrentado é o descontrole. Proibir o celular em certos contextos pode ajudar, mas é uma solução limitada. O essencial é garantir que a vida humana não fique restrita a plataformas cujo objetivo é lucrar com nosso tempo e nossa atenção, sem que percebamos o que ocorre.

    Qual é o caminho para recuperar a atenção perdida? É o que chamo de ativismo da atenção.

    Continua após a publicidade

    Não soa utópico e, quem sabe, até mesmo improvável? Como é um problema sistêmico, exige uma resposta coletiva. É preciso, hoje, reaprender o que é atenção em toda a sua complexidade. Um caminho possível seria a criação de “santuários de atenção”, espaços protegidos dessa lógica do exagero de conexão, como as salas de aula e também nossos lares.

    Publicado em VEJA de 20 de março de 2026, edição nº 2987

    Publicidade

    Matéria exclusiva para assinantes. Faça seu login

    Este usuário não possui direito de acesso neste conteúdo. Para mudar de conta, faça seu login

    Domine o fato. Confie na fonte.

    15 marcas que você confia. Uma assinatura que vale por todas.

    OFERTA LIBERE O CONTEÚDO

    Digital Completo

    A notícia em tempo real na palma da sua mão!
    Chega de esperar! Informação quente, direto da fonte, onde você estiver.
    De: R$ 16,90/mês Apenas R$ 1,99/mês
    MELHOR OFERTA

    Revista em Casa + Digital Completo

    Receba 4 revistas de Veja no mês, além de todos os benefícios do plano Digital Completo (cada revista sai por menos de R$ 7,50)
    De: R$ 55,90/mês
    A partir de R$ 29,90/mês

    *Acesso ilimitado ao site e edições digitais de todos os títulos Abril, ao acervo completo de Veja e Quatro Rodas e todas as edições dos últimos 7 anos de Claudia, Superinteressante, VC S/A, Você RH e Veja Saúde, incluindo edições especiais e históricas no app.
    *Pagamento único anual de R$23,88, equivalente a R$1,99/mês. Após esse período a renovação será de 118,80/ano (proporcional a R$ 9,90/mês).