O que explica a popularidade das batalhas de ‘farmar aura’
Fenômeno jovem saiu das redes sociais para ganhar (e tumultuar) as ruas de diversos países
Há coisa de um mês, a esplanada do Palácio de Belas Artes, na Cidade do México, virou arena improvisada: jovens se enfrentaram com poses, danças, acrobacias e gestos, enquanto a plateia decidia quem tinha mais “aura”. Menos de duas semanas depois, a cena se repetiu em Sevilha, na Espanha, reunindo centenas de adolescentes. Em vez de uma gincana convencional, os participantes precisavam demonstrar estilo, confiança e capacidade de arrancar reações do público. As demonstrações pitorescas ilustram um fenômeno que nasceu na internet e invadiu espaços públicos pelo mundo: as batalhas de “farmar aura”. O verbo vem do universo dos games, em que “farmar” significa repetir ações para acumular pontos ou experiência. Já “aura”, na gíria digital, quer dizer carisma — aquela qualidade indefinível que faz alguém parecer interessante e magnético.
Nessas disputas entre adolescentes, a ideia abstrata se transforma em competição: ganha quem conseguir convencer os outros de que tem mais “presença”. O repertório é uma mistura de referências da internet e da cultura pop. Vale imitar personagens, reproduzir passos de dança, fazer poses, mostrar habilidades físicas ou distribuir memes. Um dos lances mais populares é o “six-seven”, gesto feito com as mãos acompanhado da repetição dessas duas palavras — brincadeira sem significado específico.
No Brasil, a onda também deixou rapidamente de ser apenas uma prática restrita às redes sociais. Batalhas foram realizadas em diferentes cidades, de São Paulo a Fortaleza, Cuiabá e Manaus. Em São Mateus, na Zona Leste paulistana, cerca de 200 pessoas acompanharam uma disputa com participantes fantasiados de personagens como Naruto e Seu Madruga. A mania já provocou situações curiosas. Em Niterói, no Rio, uma batalha foi interrompida pela prefeitura por falta de autorização. Em Cuiabá, no Mato Grosso, um desses eventos acabou mudando de local após o prefeito Abilio Brunini dizer que não sabia o que era “farmar aura”.
A novidade está menos na existência desse comportamento à la surto coletivo do que na velocidade e no modo de sua propagação. Ao longo da história, multidões já foram mobilizadas por crenças, modas, medos e entusiasmos compartilhados (veja no quadro). Em diferentes momentos, a religião funcionou como poderoso motor desse contágio. A chamada “mania da dança”, registrada em episódios da Europa medieval e do início da era moderna, é um dos exemplos mais conhecidos: grupos passavam a dançar de maneira compulsiva em sociedades marcadas pela religiosidade e por crenças em forças sobrenaturais.
No século XIX, o francês Gustave Le Bon transformou o comportamento das massas delirantes em objeto de estudo. Em Psicologia das Multidões, publicado em 1895, descreveu mecanismos como imitação, sugestão e contágio para explicar por que indivíduos podem adotar, em ocasiões assim, comportamentos que dificilmente apresentariam. A psicóloga Stephany Pereira, estudiosa brasileira do tema, vê algo desse mecanismo nas batalhas de aura: quando determinado comportamento ganha visibilidade e passa a ser reproduzido, os indivíduos observam quais gestos, atitudes e referências são valorizados pelo grupo e os incorporam. “O ambiente digital pode intensificar essas experiências”, diz ela.
Antes do “farmar aura”, houve outros exemplos dessa passagem da cultura digital para o mundo físico: flash mobs, planking, owling, Harlem Shake e Pokémon GO. Cada um desses fenômenos, à sua maneira, transformou códigos compartilhados na internet em ações coletivas fora dela. A diferença agora é que as próprias redes fornecem quase todo o repertório da performance: os memes, os gestos, as músicas, as poses, os personagens e até os critérios — ainda que subjetivos — para decidir quem “tem aura”.
É como se a antiga lógica dos surtos coletivos tivesse encontrado uma máquina de propagação incomparavelmente mais veloz. A multidão continua sendo humana, mas mudou radicalmente o modo de inebriá-la.
Publicado em VEJA de 25 de setembro de 2026, edição nº 3014







