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“O ingrediente mais importante é a coragem”

A confeiteira Dani Formigueiro alçou voo nos negócios e criou uma das maiores redes de empreendedoras do Brasil

Por Diogo Sponchiato Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 18 jul 2026, 08h00
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Nunca acreditei que a cozinha fosse apenas um lugar para preparar comida. Foi nela que reconstruí minha vida e descobri que empreender podia ser muito mais do que gerar renda: podia devolver dignidade, autoestima e esperança. Essa visão não nasceu quando comecei a fazer doces. Começou ainda na infância, quando via minha mãe desafiando a realidade todos os dias. Mesmo com poucos recursos, ela nunca permitiu que eu acreditasse que nossos sonhos deveriam caber no tamanho da conta bancária. Fazia sacrifícios silenciosos para me oferecer oportunidades e me ensinava, pelo exemplo, que sempre existe um caminho a quem decide seguir em frente.

Perdi minha mãe aos 13 anos. Foi o pai dela, meu avô, quem me deu, ainda bebê, o apelido de Formiguinha. O nome atravessou os anos e acabou se transformando na identidade pela qual sou conhecida: Formigueiro. Naquela época, eu não pensava em legado. Pensava em sobreviver. De fato, comecei a trabalhar cedo. Passei pelo comércio, aprendi a atender clientes, ouvir e entender quem está do outro lado do balcão. E sempre fui curiosa. Já tentava descobrir o que fazia diferença na trajetória de sucesso de quem construía seu próprio negócio. Percebi, aos poucos, que vender não era convencer alguém a comprar algo. Era criar confiança, enxergar oportunidades, ajudar a resolver problemas.

Em 2001, dei meu primeiro passo como empreendedora vendendo cestas de café da manhã. No ano seguinte, encontrei na confeitaria o caminho que mudaria minha história. Descobri que uma cozinha simples podia se transformar em uma empresa. Produzia, entregava, errava e recomeçava. O que eu não imaginava era que o maior propósito daquela jornada não seria vender doces. À medida que meu negócio crescia, outras mulheres começaram a me procurar em busca de orientação. Muitas tinham histórias parecidas com a minha: precisavam complementar a renda, sustentar a família ou recomeçar depois de momentos difíceis. Passei a oferecer aulas gratuitas em comunidades, igrejas e escolas porque enxergava na confeitaria uma oportunidade de transformação. Nunca quis ensinar apenas receitas. Queria mostrar que empreender era possível mesmo dentro de casa e começando com pouco.

Ver aquelas mulheres conquistando autonomia financeira mudou também minha visão sobre o empreendedorismo. Entendi que conhecimento só faz sentido quando é compartilhado. Foi desse desejo que nasceu, em 2016, a comunidade Empreendendo no Lar. A proposta era criar um espaço onde confeiteiras pudessem aprender não apenas técnicas culinárias, mas também estratégias de venda, marketing e gestão. Em poucos meses, milhares de mulheres já faziam parte dessa rede. Hoje, cerca de 240 000 trocam experiências e constroem negócios em todo o Brasil.

O crescimento da comunidade deu origem aos primeiros encontros presenciais em Belo Horizonte e, mais tarde, a iniciativas como o Congresso Confeitar e o Confeitar Brasil, que hoje é o maior evento de empreendedorismo feminino gastronômico do país. Quando vejo que mais de 600 000 mulheres já foram impactadas pelos meus projetos, penso menos nos números e mais nas histórias que eles representam. São mulheres que descobriram uma profissão, abriram empresas, recuperaram a autoestima e entenderam que independência financeira também é uma forma de liberdade.

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O Empreendendo no Lar está completando dez anos e minha meta é alcançar 1 milhão de vidas por meio da educação empreendedora. Quando olho para trás, percebo que a maior conquista não foi construir uma empresa nem organizar eventos. Foi descobrir que a oportunidade que transformou minha vida também podia transformar a de milhares de outras pessoas. Porque o ingrediente mais importante de qualquer receita nunca foi o açúcar. Sempre foi a coragem de começar.

Dani Formigueiro em depoimento a Diogo Sponchiato

Publicado em VEJA de 17 de julho de 2026, edição nº 3004

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