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“O cinema mudou minha vida”

Tiago Puntel, 26, gaúcho com síndrome de Down, fala do desafio de atuar e dirigir um premiado filme

Por Duda Monteiro de Barros Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 2 Maio 2026, 08h00

Desde que me entendo por gente, sempre sofri preconceito. Era ainda pequeno, e as pessoas me olhavam diferente, como se eu não fosse capaz. Meu irmão, Jonatas, e minha mãe estiveram o tempo todo ao meu lado, um apoio decisivo para seguir em frente, sem nunca desistir de fazer as coisas. A vida inteira convivi com muitos amigos com Down, como eu, que me entendiam e me faziam feliz. Eles ainda são meus grandes parceiros. Mas a entrada no mundo do cinema foi um divisor de águas em tudo, inclusive em relação ao meu círculo social. Hoje, vou a vários lugares que não costumam ter gente com Down. Os encontros são em eventos de trabalho, nos festivais de cinema dos quais tenho participado, em festas e bares. Pessoas como eu podem e devem estar em mais espaços como esses, no contato com os outros. É muito bom para mim e também para elas.

Fiquei tão animado quando meu irmão apareceu com a ideia de fazer um documentário sobre a síndrome de Down. O título, Uma em Mil, tem a ver com a matemática: um de cada 1 000 bebês nasce com essa condição. Eu fiz um pouco de tudo no set. Fui ao mesmo tempo ator e diretor, o primeiro no Brasil com Down e talvez até no mundo. Nunca ouvi falar de nenhum outro. Tomara que as equipes de cinema abram as portas para haver cada vez mais pessoas com a síndrome nos filmes, escrevendo, fotografando, dirigindo, editando — atores já existem vários de nós. Ao longo do trabalho, contei com a ajuda do meu irmão e de todos no set. Pela primeira vez na vida, fiquei longe da minha mãe por tanto tempo, para poder gravar. No começo foi estranho, mas faz parte, foi bom viver isso, uma experiência e um aprendizado. Quando vi o filme pronto, fiquei tão emocionado. Chorei sem parar.

A história parte justamente da relação que tenho com meu irmão: nos perguntamos o que é diferente em nossas vidas e quais dessas diferenças podem existir por conta da minha deficiência. Depois, levamos essas reflexões para nossa família, inclusive para um tio, o Cleber, que também tem a síndrome. Sinto que quem assistir vai entender melhor a vida de pessoas como eu, ouvindo alguém com Down falando da própria vida. É raro que a gente tenha esse tipo de voz. Quero que escutem, aprendam e, se der, passem a ajudar mais no dia a dia, com uma compreensão maior. Vale para quem tem filhos ou outros parentes com a síndrome e também para pessoas sem nenhum contato direto com o Down. No filme, a gente fala abertamente sobre como lidamos com isso, cada um da família. Levantamos perguntas complexas. Muitas não conseguimos responder, são difíceis, mas são importantes para pensar o mundo em que vivemos e o mundo em que queremos viver.

Nunca pensei em nada diferente para esse filme: sabia que seria um sucesso. E aconteceu. Ganhamos três Kikitos no Festival de Gramado e o prêmio de melhor filme na mostra Novos Rumos, do Festival do Rio. Para chegar lá, inclusive, peguei um avião pela primeira vez. Mais tarde, recebemos uma menção honrosa no DOC.Coimbra, voltado para documentários, em Portugal. Este acabou sendo o meu primeiro voo internacional, tive até que tirar passaporte, tudo muito novo. E sei que ainda tem mais por vir. No segundo semestre, o filme chega aos cinemas. Espero que as pessoas tenham a oportunidade de assistir. Dificilmente vai ser exibido no circuito comercial, mas vamos participar de outros festivais. Está sendo muito legal poder viajar e ganhar tantos prêmios. E não vou parar por aí, não. Tenho outras ideias na cabeça. Estou dirigindo agora, de novo junto com meu irmão, o curta-metragem Abraços e Beijos, uma história de amor. O próximo passo será produzir um longa em que eu assuma sozinho a direção. O roteiro já começou. Quando entrei nessa, não imaginava como o cinema mudaria tanto as coisas e me faria uma pessoa tão feliz.

Tiago Puntel em depoimento a Duda Monteiro de Barros

Publicado em VEJA de 1º de maio de 2026, edição nº 2993

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