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Novos estudos revelam os benefícios da convivência entre avós e netos

Laço retarda o envelhecimento e traz ganhos emocionais para idosos e crianças

Por Paula Freitas Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO , Luiza Zubelli 1 mar 2026, 08h00 • Atualizado em 4 mar 2026, 15h39
  • Poucos estereótipos da convivência familiar envelheceram tanto (e tão mal) quanto o dos avós que obser­vam a vida dos netos passar na varanda, sentados em cadeiras de balanço. O inescapável processo de longevidade cada vez mais esticado da população tem sido acompanhado de uma salutar mudança de comportamento. Hoje, o grupo que chega ao fim da jornada convive, com dinamismo e alegria, de mãos dadas com a turminha que mal saiu da maternidade.

    É movimento demográfico que tem chamado a atenção de um conjunto de pesquisadores da Holanda, Suécia, Suíça e Alemanha, que acabaram de publicar um artigo sobre o tema no jornal científico da Associação Americana de Psicologia. A conclusão merece aplausos e atenção: cuidar dos pequenos ajuda a manter o corpo e o cérebro ativos. Na comparação com os que não têm o hábito de estar com a meninada, o declínio cognitivo é naturalmente freado.

    Ao dividir tempo com as crianças, os idosos acabam estimulando diversas partes da mente que passam por um processo esperado de declínio, afetando a capacidade de memória e de produzir falas e raciocínios de maneira clara, ordenada e contínua. Por meia década, os cientistas acompanharam quase 10 000 indivíduos com mais de 50 anos, aplicando testes que aferem o grau de preservação dessas habilidades. Quem se enquadrou na condição de “cuidador”, por realizar atividades frequentes com os netos, apresentou melhores pontuações do que aqueles de convívio apenas esporádico. “O cuidado frequentemente combina estimulação do sistema nervoso central, atividade física e engajamento social”, diz Yvonne Brehmer, coautora do estudo e integrante do Departamento de Psicologia do Desenvolvimento na Universidade de Tilburg, na Holanda. “Essas situações exigem flexibilidade e envolvimento mental, o que ajuda no bom funcionamento do cérebro.”

    HISTÓRIAS CRIADAS - A aposentada Maria José Neves, 71 anos, sente que o contato com Sarah, 1, Emília, 9, e Oscar, 7, ajuda a dar novo sentido à vida. “Eles gostam de escutar histórias inventadas e minhas experiências”, afirma ela.
    HISTÓRIAS CRIADAS – A aposentada Maria José Neves, 71 anos, sente que o contato com Sarah, 1, Emília, 9, e Oscar, 7, ajuda a dar novo sentido à vida. “Eles gostam de escutar histórias inventadas e minhas experiências”, afirma ela. (./Arquivo pessoal)

    O tipo de atividade se mostrou mais determinante para manter as funções cognitivas intactas do que a frequência em que são realizadas. Acompanhar o dever de casa e participar de brincadeiras são particularmente eficazes, dado o esforço necessário para acessar a memória e acionar a criatividade. Os benefícios são comprovados na prática por pessoas como a aposentada Maria José Neves, de 71 anos, que faz questão de se encontrar pelo menos uma vez por semana com Sarah, de apenas 1, para passar cerca de três horas com a bebê. “Levo ao parquinho, invento histórias e brinco no chão. Ao final do dia, fico com dor na lombar, mas é muito prazeroso”, diz ela, já com planos de aumentar a quantidade de visitas, além de conversar sempre por vídeo com dois outros netos que moram na Inglaterra.

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    Estudos similares revelam que benefícios socioemocionais também são observados. Uma pesquisa conduzida pela Universidade Harvard concluiu que os veteranos que confraternizavam com pessoas mais novas revelaram altos níveis de satisfação com a vida. “Essa relação traz propósito e a sensação de deixar um legado para as novas gerações”, diz a antropóloga Mirian Goldenberg, autora do livro A Invenção de uma Bela Velhice: Projetos de Vida e a Busca da Felicidade.

    “BRINCAMOS DE TUDO” - O educador físico Clauter Barros, 65 anos, vive inventando exercícios para estimular os netos Alexandre, 8, e Manoela, 5. “Brincamos de tudo, eles até se sentem orgulhosos por eu não ser um ‘velhinho’ ”, diz.
    “BRINCAMOS DE TUDO” – O educador físico Clauter Barros, 65 anos, vive inventando exercícios para estimular os netos Alexandre, 8, e Manuela, 5. “Brincamos de tudo, eles até se sentem orgulhosos por eu não ser um ‘velhinho’ ”, diz. (//Arquivo pessoal)

    Os benefícios da proximidade são compartilhados. As crianças também experimentam ganhos significativos de desenvolvimento, especialmente durante a primeira infância, fase que vai do nascimento aos 6 anos. Um novo levantamento realizado pelo Departamento de Psicologia da Universidade de Stanford apontou que o apoio dos avós ajuda no florescimento de habilidades socioemocionais cruciais na vida adulta, como escuta, negociação de conflitos, comunicação e tomada de decisões. Encerrado o crescimento, essas pessoas apresentam maior bem-es­tar emocional e menor sofrimento mental. Aos 65 anos, o educador físico Clauter Barros faz questão de criar desafios nos encontros com Augusto, 5 anos, Manuela, 5, e Alexandre, 8, como circuitos e até prática de esportes radicais. “Eles ficam até orgulhosos, dizem que não sou velhinho porque brincamos de tudo”, diz.

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    As mudanças observadas na sociedade acabam por tornar esse tipo de convivência cada vez mais relevante. Ao mesmo tempo em que a expectativa de vida sobe — chegou aos 76 anos em 2024, segundo o IBGE —, a taxa de natalidade já está em 1,6, abaixo dos 2,1 filhos por casal, o número mágico necessário para a reposição da população. Em outras palavras: nas próximas décadas, o número de idosos ultrapassará o de crianças. “As famílias numerosas estão dando lugar para um cuidado mais individualizado, com trocas diretas e pessoais”, afirma o demógrafo José Eustáquio Alves. “Os netos chegam na hora em que os idosos mais precisam de estímulos”, complementa o gerontologista Alexandre Kalache. Trocas entre netos e avós vão, portanto, muito além dos gestos de afeto. São uma estrada de mão dupla, capaz de afetar positivamente toda a sociedade.

    Publicado em VEJA de 27 de fevereiro de 2026, edição nº 2984

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