Novas pesquisas mostram que amizade entre mulheres traz benefícios à saúde
Estudos derrubam preconceitos e revelam que os laços ajudam a produzir um hormônio que tranquiliza e reduz o estresse
É sempre bom ouvir a escritora e ativista pelos direitos humanos americana Maya Angelou (1928-2014), de fino olhar para as coisas do cotidiano. Dela: “No arco-íris da vida, as amigas são as cores que brilham mesmo quando o céu está cinza. Seja um arco-íris na nuvem de outra pessoa”. A frase tem a beleza da simplicidade cortante, e onde poderia haver apenas um conselho de autoajuda, quase banal, brota imensa verdade. O comentário ilumina a amizade feminina — não o relacionamento romântico ou de cunho sexual —, status que durante muito tempo foi cercado de tolos lugares-comuns (as mulheres invejam umas às outras, há interesses subjacentes, os homens são mais fáceis e blá-blá-blá…). Bobagem. O preconceito, que durante séculos foi cevado por ignorância e puro achismo, começa a ser demolido com base em recentes estudos comportamentais.
A ciência aponta uma série de benefícios na parceria entre mulheres para a saúde mental e mesmo física. É bom e faz bem. Uma reputada pesquisadora, Silvia Centeno, da IE University, instituição privada da Espanha, comparou, por meio de entrevistas e observação, o comportamento de alunos e alunas — elas relataram níveis mais altos de cansaço mental, autocrítica e solidão do que os homens, mas demonstravam maior facilidade de buscar apoio entre amigas como mecanismo de enfrentamento e resposta. Saíam do fundo do poço, por assim dizer, no amparo de companheiras.
O trabalho ecoava um extraordinário levantamento feito em 2000, paradigma de seu campo de conhecimento. Naquele ano, as psicólogas Shelley Taylor e Laura Cousino Klein, da Universidade da Califórnia, publicaram na Psychological Review um estudo que revisou o entendimento clássico sobre estresse. Até então, predominava a ideia de que, diante da ameaça, o ser humano reagiria com “luta ou fuga”, um modelo formulado a partir de pesquisas feitas sobretudo com homens. Taylor propôs outra hipótese: mulheres responderiam buscando vínculos, sem birra ou explosão. O conceito ficou conhecido como tend and befriend, algo como “cuidar e criar conexões”. Nesse processo, o organismo produz oxitocina, hormônio associado ao apego e à confiança, que ajuda a modular as preocupações. Dito de outro modo: a aproximação social pode funcionar como mecanismo de regulação emocional. Vale para homens também, sem dúvida, mas os resultados foram mais felizes entre mulheres. “O grupo feminino, diferente do masculino, acolhe o conflito emocional”, diz a psicóloga e neurocientista Anaclaudia Zani Ramos. “Quando uma mulher fala da sua dor e a outra se reconhece ali, há uma simulação de experiência que a prepara para enfrentar o próprio desafio.”
É raciocínio que, testado na realidade, se mostra correto. As trajetórias das psicólogas paulistas Serena Soares, 23 anos, e Gabriela Navarro, 25, ilustram essa saudável postura. Elas se conheceram há seis anos, num momento que marcava o fim da adolescência e o início da vida adulta — tempo de ruidosa sinfonia na construção de identidades. Entre graduações, términos amorosos, viagens e crises típicas da entrada na vida adulta, a parceria consolidou-se como porto seguro, inquebrantável. “A Serena foi a primeira amizade em que eu me senti vista e admirada por ser quem sou”, afirma Gabriela. “O que às vezes vemos como nossos próprios defeitos, a outra vê como uma característica virtuosa”, diz Serena.
A costura, insista-se, atravessa gerações. E viva a turma de 1972: Carla Paes de Almeida Passos, engenheira de produção; Roberta Xella de Barros, dentista; Luciana Gonçalves Frei, jornalista; Cintia dos Santos Monteiro, arquiteta; e Silvana Miyashita, profissional de processamento de dados — elas mantêm proximidade há mais de quatro décadas. Deram-se as mãos ainda no colégio e, desde então, seguiram juntas, apesar de mudanças de escola, bairro, profissão, casamentos e separações. Os filhos cresceram tratando-se como primos. Madrinhas cruzadas, consolidaram laços. O grupo nunca deixou de existir. A dimensão concreta dessa proximidade ficou evidente recentemente, quando o marido de Luciana foi diagnosticado com câncer. Ela compartilhou a notícia com as amigas, que se mobilizaram sem hesitar. “Vieram só para almoçar comigo e me dar colo, isso às vésperas do Natal”, conta. O gesto, simples e direto, condensa décadas de convivência. A nomeação de algo que sempre existiu, e era tratado com indevido desdém, ganha contornos explícitos — agora ancorada em ciência. E nada como um pouquinho de oxitocina a correr pelo cérebro: “Amiga, aqui estou!”.
Publicado em VEJA de 6 de março de 2026, edição nº 2985





