“Não tolero preconceito”
Matheus Matos, 25, foi eliminado em um concurso para delegado por discriminação, levou o caso ao STF e ganhou
Sinto na pele quanto a sociedade ainda não está preparada para lidar com pessoas com deficiência. Nasci com nanismo, uma condição genética irreversível, e desde pequeno esbarro com gente que vira o rosto e dá risada ao cruzar comigo na rua. Morria de vergonha e minha vontade era de me esconder do mundo. Mas aí fui entendendo que não adiantava só me isolar e deixar o tempo passar: teria que ficar mais calejado para viver melhor. Meus pais foram decisivos, batendo no ponto de que eu não sou pior do que ninguém. Hoje, já adulto, continuo sendo alvo de discriminação, isso não vai embora, mas tenho muito mais ferramentas e maturidade para me posicionar sempre que achar importante. E foi o que aconteceu agora: cheguei à fase final do processo seletivo para delegado da Polícia Civil de Minas Gerais, um feito que tanto me orgulhou. Só que acabei eliminado e sigo na luta para reverter um resultado que é fruto de puro preconceito.
Quando entrei na faculdade de direito, tinha absoluta certeza de que seria delegado. Não havia plano B. Sou desses que estabelece uma meta e vai até o fim. Na universidade, comecei a estudar para o concurso. Vivi uma rotina pesada, dia e noite em cima dos livros. O processo de escolha é demorado e complexo: inclui provas orais e discursivas. Tentei seis vezes, uma atrás da outra, sem sucesso, até que, de repente, parecia que daria certo. Fui aprovado em todas as etapas teóricas. A fase final ficou para o início deste ano — era o teste de aptidão física, em que o candidato precisa atingir objetivos em uma série de exercícios. Ao saber do que se tratava, fui na mesma hora à Justiça pedir adaptações para o meu tamanho. Nem me ouviram. No dia da prova, levei um laudo médico que explicava minha condição. O fiscal não deu bola, mas não me abalei. Fiz o tiro de 50 metros e as flexões. O problema veio no salto. Tenho 1,23 metro e precisava pular a uma altura de 1,65 metro. Embora meus pés tenham até tocado a linha, não deu para ultrapassá-la. E acabei eliminado.
Foi daqueles momentos de tão profunda decepção que fiquei sem chão. Senti que não conseguiria o que tanto queria por um motivo que nada tinha a ver com a minha capacidade de exercer a função de delegado. Fiquei meio paralisado por um tempo, mas sabia haver ali um desrespeito à Lei Brasileira de Inclusão, em vigor há mais de uma década. Passado o baque, abri um processo no Tribunal de Justiça de Minas, e meu advogado conseguiu conduzir o caso ao Supremo Tribunal Federal. Em março, o ministro Alexandre de Moraes decidiu que a prova deveria, sim, ter sido adaptada e que eu tenho direito a refazê-la. Até agora, não marcaram nova data, mas continuo treinando e me preparando, cheio de esperança.
É triste pensar que o que deveria ser tão simples ainda exige tanta luta. Indignado, resolvi tornar a história pública, mas não imaginava a repercussão que ganharia nas redes sociais, para o bem e para o mal. Houve uma enxurrada de comentários de tom crítico, zombando da minha aparência e questionando minhas habilidades. Muita gente dizia, sem rodeios: “Um anão não pode ser delegado”. A própria palavra “anão” é ofensiva, pois carrega preconceito: ela remete à figura de circo. O correto é dizer “pessoa com nanismo”. Pode soar um detalhe, mas é um daqueles entendimentos que revelam que, mesmo com idas e vindas, a sociedade avança. Também recebi mensagens de pessoas com deficiência que muito me agradeceram. Meu caso as havia encorajado a seguir em frente. Quero ser delegado, claro, e vou. Mas, para mim, o que mais importa é ajudar a vencer o preconceito.
Matheus Matos em depoimento a Duda Monteiro de Barros
Publicado em VEJA de 17 de abril de 2026, edição nº 2991





