Os dois anos de espera, com férias e encontros familiares postergados, sonhos desfeitos e milhas acumuladas, parecem ter chegado ao fim. Em 2022, enquanto os índices de vacinação contra a Covid-19 cresciam no Brasil e no mundo, as restrições sanitárias foram sendo retiradas uma a uma, e assim a humanidade ergueu sólidas trincheiras na dura batalha contra a pandemia. Isso, claro, trouxe novo alento para o turismo, e o que se vê agora é uma euforia contagiante no setor. Os aeroportos estão lotados — e por consequência há uma pitada de caos em vários terminais da Europa e dos Estados Unidos —, hotéis não têm vagas, atrações recebem filas que dobram quarteirões. O planeta, enfim, respira aliviado, o que tem inspirado milhões de pessoas a conhecer e desfrutar lugares diferentes.
O turismo brasileiro é o retrato desse movimento. De acordo com a Agência Nacional de Aviação Civil (Anac), em maio, último mês com balanços fechados, a oferta de voos domésticos subiu 6% em comparação com o mesmo mês de 2019 — foi a primeira vez que os dados atuais superaram os níveis pré-pandemia. No mercado internacional, a retomada é mais lenta, sobretudo em razão do câmbio desfavorável (euro e dólar a mais de 5 reais), mas ainda assim há sinais vigorosos da recuperação. A marca de 1,2 milhão de brasileiros que viajaram para o exterior em maio é a maior desde que o primeiro caso de Covid-19 foi registrado em solo nacional.
A euforia obrigou as companhias aéreas a se preparar para o período de bonança. Líder nacional, a Latam colocará em operação 3 000 novos voos durante a alta temporada de julho, com rotas adicionais para o Nordeste brasileiro e para destinos de neve no Chile e na Argentina, além dos Estados Unidos. Em julho, a Latam prevê transportar 3 milhões de passageiros em suas rotas domésticas e internacionais — se o número for confirmado, representará um salto de 60% em relação ao mesmo intervalo de 2021. A Gol anunciou medidas importantes, como a ampliação em 80% da oferta de voos e assentos de Brasília rumo a Orlando e Miami, o que permitirá conexões mais rápidas para viajantes de diversas regiões do país. As operadoras esperam faturar com a retomada. A Decolar, a maior agência virtual do Brasil, registrou crescimento de 180% na procura por destinos europeus para a temporada de 1º de junho a 1º de outubro em relação ao mesmo intervalo de tempo em 2021. Não é só. A Associação Brasileira dos Agentes de Viagem (Abav) fez uma pesquisa com seus associados e descobriu que a venda de pacotes para as férias aumentou 100% diante de idêntico período no ano passado.
A demanda reprimida levou a um movimento incomum em que tanto a procura por viagens nacionais quanto por internacionais disparou. “Historicamente, há alternância, mas desta vez a retomada é generalizada”, diz Daniela Araujo, diretora da Decolar. “Além de destinos clássicos como o Rio de Janeiro e a Europa, houve o aumento considerável da procura por locais ligados à natureza.” A executiva destaca mudanças no comportamento do viajante pós-pandêmico, como as ligeiras esticadas: “Boa conexão de internet virou um filtro muito buscado. Com maior flexibilidade no trabalho, o que antes era uma viagem de fim de semana agora tende a ganhar um ou dois dias extras”.
O resgate do turismo, contudo, nem sempre é acompanhado de bom planejamento. Na Europa e nos Estados Unidos, os aeroportos vivem um inesperado cenário de confusão. Só no primeiro domingo de julho, 23 900 voos atrasaram e outros 1 700 foram cancelados, a maioria em capitais europeias e grandes cidades americanas, segundo informações da plataforma FlightAware. A nova crise é resultado de demissões em massa e reduções salariais durante o auge da pandemia. Em busca de melhores condições de trabalho, funcionários de diversas companhias aéreas, especialmente as de baixo custo, entraram em greve, afetando as atividades em países como Espanha, França, Inglaterra e Portugal. O problema aflige também as grandes companhias. Há alguns dias, 700 funcionários da britânica British Airways, uma das maiores empresas aéreas do mundo, paralisaram a operação e exigiram a reversão do corte salarial de 10%. Para piorar, a alemã Lufthansa teve de cancelar mais de 2 000 voos programados para junho e julho em razão de um surto de Covid-19 entre os funcionários.
As turbulências não deverão refrear o ímpeto dos turistas. A história ensina que, depois de grandes crises, a humanidade é tomada por certo espírito hedonista. Foi assim após os atentados terroristas de 11 de setembro de 2001, quando o medo de uma grande guerra levou milhões de pessoas a viajar mais — afinal, era preciso aproveitar a vida antes que ela acabasse. Nesse contexto, o fim de grandes pandemias representa forte alavanca para diversos setores, seja o desenvolvimento tecnológico, seja o impulso ao turismo. A cidade italiana de Veneza, que de tão amada por viajantes precisou inaugurar em 2022 um sistema de pagamento extra para quem passar por seus famosos canais, desenvolveu o esplendor de seu potencial turístico graças às festividades que sucederam períodos de crise, como a peste bubônica no século XIV e a I Guerra Mundial e a gripe espanhola, ambas há pouco mais de 100 anos. O mesmo movimento foi observado no Rio de Janeiro. Não fosse o surto de influenza que infectou um quarto da população mundial e matou até 300 000 brasileiros um século atrás, talvez a então capital do país não se transformasse na Cidade Maravilhosa. O chamado “Carnaval do Fim do Mundo” de 1919 é lembrado como um momento de afirmação da identidade carioca. Guardadas as devidas proporções, a euforia turística de 2022 é a reafirmação desse bem-vindo fenômeno.
Publicado em VEJA de 13 de julho de 2022, edição nº 2797