“Correr me dá vida”
Raquel Castanharo, 38 anos, fala sobre como o esporte a ajudou durante o tratamento contra um câncer de mama
Sou fisioterapeuta e minha relação com o esporte começou no meio acadêmico, estudando como o cérebro controla os nossos movimentos — o que me levou a um mestrado sobre biomecânica da corrida na USP. Na época, eu era apenas uma pesquisadora, não me exercitava de fato. Comecei essa prática com regularidade com um empurrão das redes, onde passei a postar vídeos informativos. Notei que havia poucos livros bons e práticos sobre o tema, o que me levou a escrever Este Livro Não É Só sobre Corrida (Editora Planeta), que chegou recentemente às livrarias. Não sabia, porém, enquanto escrevia sobre o tema, ressaltando o valor da persistência e da constância, que eu teria de encarar outro desafio que exigia as mesmas qualidades.
Em 2025, a dezessete dias da Maratona do Rio, que seria minha primeira experiência em um percurso de 42,1 quilômetros, fui diagnosticada com um câncer de mama. Os médicos me disseram que eu poderia competir, afinal, aquelas duas semanas não iriam mudar nada no meu tratamento. Naquele momento, senti que só existiam duas opções: me recolher e simplesmente viver o medo, ou encarar os fatos e compartilhar a minha jornada. Optei pelo segundo caminho. Completei a prova e falei abertamente sobre a doença, pois quero ajudar outras pessoas a abrirem os olhos para o diagnóstico precoce, já que o meu foi tardio. Não fui ao ginecologista durante mais de um ano, por isso a doença já havia avançado, tornando meu processo mais difícil.
Foram dois tipos de quimioterapia, além de sessões de radioterapia e uma mastectomia completa com esvaziamento axilar — que é a retirada da mama e dos gânglios linfáticos da axila. Foi ali que me dei conta de que estava me tratando para viver. Não faria sentido parar toda a minha vida por causa do diagnóstico. Lembro que, quando comecei a treinar para a Maratona do Rio, disse para as pessoas que a minha vida não iria virar aquela prova, mas ela iria se encaixar na minha vida. E hoje vejo o tratamento oncológico da mesma forma. Ele faz parte da minha vida, mas não é a minha vida. Sou muito mais do que uma paciente oncológica. Tomei a decisão de viver e, para isso, tinha que manter a vida que eu amava, que envolve correr, estudar e produzir conteúdo. Voltei a fazer atividades físicas um mês depois da cirurgia. Na primeira fase da químio, sentia muito enjoo e só saía para caminhar perto de casa. Na segunda fase, que era mais leve, consegui voltar aos treinos de força três vezes por semana e corrida na esteira duas vezes.
Manter essa rotina me trouxe um pouco de normalidade em meio ao caos de ficar careca, sem cílios, sem uma mama e com o corpo queimado. Correr me dá vida. Estudos indicam que a atividade física reduz os efeitos colaterais da quimioterapia e diminui o risco de recidiva do câncer. Isso me fez enxergar o exercício também como parte do tratamento, principalmente depois de entrar em bloqueio hormonal — que foi como se tivessem me induzido à menopausa aos 38 anos de idade. Meu humor e minha saciedade mudaram, e a atividade física me ajuda a equilibrar a saúde. Agora, nove meses depois, estou melhor e fora do hospital. Tenho o sonho de que esse livro saia da minha bolha e ajude outras pessoas a viverem bem. Que ele chegue em quem precisa, seja um paciente oncológico, seja uma pessoa sedentária, ou alguém que está envelhecendo. Estou voltando a correr agora e, mesmo que no ano passado eu estivesse me preparando para encarar 42 quilômetros, tenho a mesma alegria de, hoje, ser capaz de completar 5 quilômetros. Não me sinto inferior, pelo contrário, me sinto incrível. Correr me conecta com o mundo ao meu redor. Me sinto parte de um movimento, e esse é meu verdadeiro remédio.
Raquel Castanharo em depoimento a Beatriz Haddad
Publicado em VEJA de 24 de abril de 2026, edição nº 2992





